Eu não tenho qualquer tipo de problema em assumir que considero que, por muito que nos custe, a “imagem” é fundamental nos tempos que correm para fazer passar uma qualquer mensagem. Não vou concretizar, fulanizando a questão porque parece mal, mas a verdade é que muitas vezes, com a roupagem certa, uma péssima ideia passa por razoável, enquanto uma boa ideia, apresentada de forma displiscente e desleixada, não convence ninguém.

Vivemos no Império do Efémero ou mesmo numa Era do Vazio sobre que escreveu o Lipovetsky e temos que nos habituar a isso. Lamento, mas é a vida. Por isso mesmo me preocupo com a forma como a classe docente vai surgindo representada no imaginário colectivo por obra e graça da tutela e de alguns grupos sociais restritos, mas com um poder de propagação das suas opiniões muito acima do seu valor absoluto ou relativo.

Isto não é um fenómeno novo. O da tentativa de fazer passar uma má imagem dos docentes. Eu já há muito tempo que ouço as chamadas “bocas” de que, achando-se acima, gosta de apoucar o trabalho dos docentes, aproveitando para misturar a conversa dos privilégios, com a da facilidade da função, não esquecendo uma atitude de alguma sobraceria intelectual. Desde sempre que reajo de forma correspondente, desafiando quem assim opina a demonstrar a validade das suas críticas e o valor acrescentado da sua função específica. Do género, mostra-me o tamanho da tua, que eu mostro-te o da minha. E quase sempre funciona e raramente a conversa se repete com o mesmo emissor.

Nestas situações não me interessa se há docentes efectivamente incompetentes, impreparados ou inadaptados, a merecerem requalificação. Porque nas generalizações que fazem a denegrir a imagem dos docentes, também se esquecem de ressalvar que nem todos somos ineptos, que muitos demonstram enorme dedicação aos seus alunos, que se esforçam por se actualizar contra ventos e valteres lemos, que funcionam como primeiro travão contra a exclusão social, que fazem de psicólogos, assistentes sociais.

E, de caminho, como gostam de apresentar os professores todos estes inteligentes e iluminados:

  • Como uma massa amorfa de gente que é professor(a) porque não sabe fazer outra coisa, que estagnou na vida e ficou sem outros horizontes profissionais.
  • Como um conjunto de maus profissionais, absentistas relapsos, sempre à espreita de uma hipótese e uma via legal para faltar ao trabalho.
  • Como profissionais de um ofício “que qualquer um saber fazer“, pelo menos na boca daqueles que nunca o exerceram ou que por ele passaram de raspão.
  • Como um grupo profissional sem capacidade de organização, fragmentado em não sei quantos sindicatos, mas facilmente manipulável por um par dels.
  • Como gente que foi progredindo na profissão, sem demonstração de mérito, de forma acomodada.
  • Paradoxalmente, ou como agentes de um autoritarismo arbitrário sobre vítimas ou como vítimas, coitadinhas e indefesas, de situações de indisciplina que os ultrapassam.

Ora a minha experiência pessoal, individual, de pessoas que me são chegadas em termos familares e/ou de amizade, e de muitas outras que fui conhecendo ao longo de duas décadas de docência e uma dezena de estabelecimentos de ensino, assegura-me que esse conjunto de “maus profissionais” é uma minoria e que, em muitos casos, nem sequer leccionam e ocupam postos de responsabilidade, nomeadamente ao nível da gestão de alguns estabelecimentos de ensino, ou em cargos de “confiança”, os chamados “tachos”, que agora irão dar muitos pontos para serem titulares. Mas, apesar disso, são uma minoria. Diria que 10% serão casos irrecuperáveis ou dificilmente recuperáveis. Só que esses não são os alvos preferenciais da acção “moralizadora”, visando “premiar o mérito” ME. pelo contrário, essa acção irá recair de forma mais punitiva exactamente sobre aqueles que mereceriam mais apoio e que, em virtude da sua dedicação, acabaram por “queimarem-se” e entrarem em processos de burnout. A recompensa para esses, pelo que vou vendo e ouvindo, vai ser um bilhete de ida sem qualquer agradecimento.

Por isso mesmo, acho que a classe docente não tem – proporcionalmente – piores profissionais que outras ocupações profissionais de responsabilidade. Tenho testemunho directo de muito pior desempenho de médicos ao longo da minha vida do que de professores, por exemplo. Mas isso não me faz lançar anátemas sobre toda a classe médica. Não tendo, de igual modo, a acreditar que todos os licenciados em engenharia se formam pelo método socrático na Independente, ou que todos os advogados são meros habilidosos, com tanto maior sucesso, quanto consigam empatar os processos até que sejam arquivados ou que as provas da acusação sejam consideradas nulas. Os vários processos em decurso, da Casa Pia ao Apito Dourado não chegam para isso.

Não sei se tenho demasiadas preocupações com a “imagem social” dos docentes. Acho que tenho a mesma preocupação que um médico, um enfermeiro, um taxista ou um juíz terá com a sua. E acho que isso é legítimo e que, embora passível de crítica, é mais do que compreensível. E considero ainda que tenho o direito a exigir respeito das pessoas que tutelam a Educação que, essas sim, nunca revelaram especial mérito para ocupar os postos que ocupam. Assim como também mereço – e todos merecemos – respeito por parte daqueles que, sem o demonstrarem, se acham “superiores” aos docentes do ensino não-superior, sejam, eles académicos de pacotilha ou empresários de sucesso à base do subsídio.