E tudo isto tem algo que ver com a peça do DN de ontem. Porque se percebe que, em matéria de blogosfera, os professores correm agora o risco de aparecerem como uns despudorados maledicentes, que aproveitam este espaço para, “pelas costas”, se vingarem de alunos e encarregados de educação. Aliás, foi isso que me pareceu que poderia ser inicialmente a linha condutora da peça. O que eu achei injusto e que, no final, acabou por não ser – felizmente e na minha opinião, que nem todos partilham – o seu tom; ou que pelo menos surgiu mais condimentado.

Mas para maior clareza aqui ficam as perguntas que me foram, num segundo momento, apresentadas (acho que não cometo qualquer inconfidência nesta matéria):

As questões que lhe queria colocar são as seguintes:

1. Para que servem estes blogues?
2. Terá uma ideia de quantos existem?
3. Desde quando?
4. Será justo que os professores usem estes espaços para “dizer mal” dos alunos mais mal comportados, das direcções de turma que lhes dão mais trabalho?
5. Serão estes blogues lugares de confissões? Espaços onde dizem aquilo que não podem dizer aos alunos e pais?

As minhas respostas foram as seguintes (sendo que agora corrigi algumas gralhitas malandras, causadas pela pressa, assim como vou destacar umas partes):

1 – Estes blogues cumprem diversas funções, sendo que todas confluem na lógica da criação de uma rede de contactos e intercâmbio de experiências e reflexões, que alargam os horizontes dos docentes, por vezes muito isolados na sua prática profissional individual mais ou menos localizada. Temos de tudo: desde relatos confessionais sobre o quotidiano a análises gerais da política educativa, passando por notas de carácter cultural (leituras, filmes, outro tipo de propostas) ou por um activismo de feição mais política, sendo que os assuntos se espalham com um peso diverso, por vezes nos mesmos blogues. Alguns são mais facilmente enquadráveis, outros dificultarão mais a sua classificação.

2 – Nunca tentei recensear os blogues sobre Educação, mas se fizer um apanhado global pelos passeios que dou pela blogosfera, e se incluir todos os níveis de ensino, diria que serão algumas centenas. Talvez não cheguem as 500, mas uns 200-300 activos seria o meu exercício de adivinhação.

3 – Os blogues começaram, na sua multiplicidade, desde 2003, mais coisa menos coisa. Essa é a minha própria experiência com um blogue anterior também sobre temas educativos, que era apenas uma espécie de ensaio. O “boom” terá acontecido no último par de anos (2005 em diante). Em termos de registo de audiências e actividade o fenómeno cresceu em função da agenda governamental para a Educação e isso notou-se em especial durante 2006.

4 – O que “é justo” ou não abordar num blogue é algo de escorregadia definição e delimitação. Note-se que muitos blogues confessionais por vezes roçam o exorcismo pessoal de experiências traumáticas, que é necessário colocar fora para manter um mínimo de sanidade, exactamente perante situações que se encaram como “injustas”. Não só em matéria de relações com alunos, como com colegas, encarregados de educação, a tutela, etc. etc.
Não é o meu registo, mas não o critico de forma muito acesa, pois também conheci blogues de encarregados de educação que se preocupavam apenas em ofender os docentes, em abstracto, e em vir a blogues de professores para os atacar pessoalmente. Comigo aconteceu um par de vezes, pois não limito os comentários (como muitos colegas se viram obrigados a fazer), mas a coisa resolveu-se quando os atacantes perceberam que não era esse o tipo qde registo que pretendia. O WordPress permite ficar com o mail dos comentadores e as coisas esclareceram-se em off.

5 – Já respondi a isto mais acima, pelo menos em parte. Alguns blogues são lugares de confissão. Acho que só uma minoria serão causados pela necessidade de dizer o que não é dito aos alunos e pais. Voltando ao meu caso pessoal, como não costumo guardar esses dilemas para casa, talvez explique que faça poucos posts desse tipo e me concentre mais em criticar os discursos sobre a Educação e em desmontá-los para além da superfície. Ou tento.
Mas acredito que muita gente sinta necessidade de exteriorizar aquilo que por vezes ninguém parece reconhecer de doloroso que se passa com muitos docentes, e que os blogues tenham permitido encontrar algum conforto e estabelecer redes (mesmo que virtuais) de reconforto.

Ao que, passados alguns minutos, acrescentei:

Vou abusar da sua paciência e à moda dos “políticos” dar a resposta para a pergunta que não me fez directamente e que é a razão de ser mais profunda de muitos blogues, para além do que assoma à superfície. Pelo menos foi por isso que eu, por exemplo, passei a escrever com alguma frequência.
É que perante a investida do Min. Educação que apresentou os profes como os maus da fita, usando uma estratégia comunicacional cerrada e que, sempre que necessário, retorceu os números, adiantou conclusões com base em estudos nenhuns e declarou como certas fórmulas por demonstrar, muitos docentes sentiram-se isolados perante a opinião pública.
No seu “estado de graça”, o Governo e a Ministra foram aplaudidos como heróis salvadores, gente de visão, disciplinadora, firme e com ideias boas para o sector. Ora muitos de nós sabem que nada de mais falso existe. Isto agora já se vê e ver-se-á melhor mais tarde. Mas em 2005 e 2006 os professores foram os maus , os “privilegiados”, os pequenos déspotas, os malandros que progrediam sem mérito na carreira. Ninguém – salvo excepções como o José Gil ou o Manuel António Pina – surgiram em nossa defesa. A comunicação social foi no barco e nós sentimo-nos sós como nunca, sendo que somos muitos. E por acaso o maior corpo profissional do Estado com qualificações superiores, na maioria dos casos ao nível da pós-graduação.
E a reacção passou pela blogosfera.

E pronto. E ainda é isto que eu acho sobre o assunto, sendo que não me senti “ofendido” pelo tom da peça que, no final, acabou por não dar só um dos lados da questão.