Segunda-feira, 30 de Abril, 2007


dinh.jpgSó para confirmarmos a linda situação a que se chega quando se deixam assuntos sérios – e eu qualifico a Educação como algo sério – nas mãos de quem não se deve.

A Câmara de Lisboa decidiu, há uns tempos, contratar uma empresa (a Know-How) renascida ao que parece de forma bem rápida depois de há muito estar inactiva (este post do Fliscorno é muito informativo a esse respeito), da notória socialite da linha Cascais-Lisboa, cronista por vezes, escritora de nomeada e agora também empresária Maria João Lopo de Carvalho, para assegurar as Actividades de Enriquecimento Curricular na área da Língua Inglesa. Sendo que a dita era ainda assessora da própria CML à data da celebração do contrato.

Chegamos agora ao 3º período, os compadres e as comadres zangaram-se (quando falta o pão é o que dá, mesmo nas melhores famílias…) e vai de trocar acusações: a empresária queixa-se que não lhe pagam e assim as actividades acabam; o gabinete do vereador acusa-a de sobrefacturação. Entretanto, o dinheiro para os pagamentos já terá sido alegadamente diosponibilizado pelo ME à CML.

Perante isto alega-se que 4000 crianças arriscam-se a ficar sem as tais AEC e 50 professores contratados pela empresa sem salários.

Ora em todo este imbróglio, eu gostava de saber os seguintes detalhes adicionais, a mero título de curiosidade:

  • Qual o método de selecção da dita empresa?
  • Qual o montante acordado entre as partes para a prestação do dito serviço?
  • Qual o montante pago pelo ME para financiar tais actividades?
  • Qual o valor das remunerações pagas aos(Às) professore(a)s ao serviço da Know-How?
  • Quais as habilitações académicas e qualificações profissionais desse(a)s docentes?
  • O que será que um próximo relatório deste tipo terá a considerar sobre este tipo de situações, que estão longe de se limitar a Lisboa?

É que a fazer crença dos números (sigo de novo a informação rica do Fliscorno) que se conhecem sobre o pagamento médio do ME para cada aluno (100 euros anuais), os 4000 alunos a cargo da Know-How deverão render algo como 400.000 euros. Ora se a empresa por dois períodos reclama apenas 120.000, supõe-se que ao fim de três períodos a coisa fique pelos 180.000 no máximo (uns 150.000 se acreditarmos nos valores que a CML considera válidos). O que deixa mais de 200.000 euros a abanar por aí.

Mas existem ainda outras contas a fazer. Se o valor a pagar pelas actividades do 1º período andará entre os 50.000 e os 60.000€, e se a Know-How tem 50 docentes ao seu serviço, isso significa que, no máximo dos maiores máximos – e isso seria de molde à empresa não ter lucros, o que não é credível – cada docente teria direito a receber 1000€ pelo trabalho de todo um período, ou seja de 3-4 meses. Os quais, pelos vistos, ainda ninguém terá recebido.

Em tudo isto, expliquem-me quem, afinal, fica a ganhar com o negócio: os docentes proletarizados, os alunos sob ameaça de ficarem sem as AEC? Aceita-se a melhor proposta

E tudo isto tem algo que ver com a peça do DN de ontem. Porque se percebe que, em matéria de blogosfera, os professores correm agora o risco de aparecerem como uns despudorados maledicentes, que aproveitam este espaço para, “pelas costas”, se vingarem de alunos e encarregados de educação. Aliás, foi isso que me pareceu que poderia ser inicialmente a linha condutora da peça. O que eu achei injusto e que, no final, acabou por não ser – felizmente e na minha opinião, que nem todos partilham – o seu tom; ou que pelo menos surgiu mais condimentado.

Mas para maior clareza aqui ficam as perguntas que me foram, num segundo momento, apresentadas (acho que não cometo qualquer inconfidência nesta matéria):

As questões que lhe queria colocar são as seguintes:

1. Para que servem estes blogues?
2. Terá uma ideia de quantos existem?
3. Desde quando?
4. Será justo que os professores usem estes espaços para “dizer mal” dos alunos mais mal comportados, das direcções de turma que lhes dão mais trabalho?
5. Serão estes blogues lugares de confissões? Espaços onde dizem aquilo que não podem dizer aos alunos e pais?

As minhas respostas foram as seguintes (sendo que agora corrigi algumas gralhitas malandras, causadas pela pressa, assim como vou destacar umas partes):

1 – Estes blogues cumprem diversas funções, sendo que todas confluem na lógica da criação de uma rede de contactos e intercâmbio de experiências e reflexões, que alargam os horizontes dos docentes, por vezes muito isolados na sua prática profissional individual mais ou menos localizada. Temos de tudo: desde relatos confessionais sobre o quotidiano a análises gerais da política educativa, passando por notas de carácter cultural (leituras, filmes, outro tipo de propostas) ou por um activismo de feição mais política, sendo que os assuntos se espalham com um peso diverso, por vezes nos mesmos blogues. Alguns são mais facilmente enquadráveis, outros dificultarão mais a sua classificação.

2 – Nunca tentei recensear os blogues sobre Educação, mas se fizer um apanhado global pelos passeios que dou pela blogosfera, e se incluir todos os níveis de ensino, diria que serão algumas centenas. Talvez não cheguem as 500, mas uns 200-300 activos seria o meu exercício de adivinhação.

3 – Os blogues começaram, na sua multiplicidade, desde 2003, mais coisa menos coisa. Essa é a minha própria experiência com um blogue anterior também sobre temas educativos, que era apenas uma espécie de ensaio. O “boom” terá acontecido no último par de anos (2005 em diante). Em termos de registo de audiências e actividade o fenómeno cresceu em função da agenda governamental para a Educação e isso notou-se em especial durante 2006.

4 – O que “é justo” ou não abordar num blogue é algo de escorregadia definição e delimitação. Note-se que muitos blogues confessionais por vezes roçam o exorcismo pessoal de experiências traumáticas, que é necessário colocar fora para manter um mínimo de sanidade, exactamente perante situações que se encaram como “injustas”. Não só em matéria de relações com alunos, como com colegas, encarregados de educação, a tutela, etc. etc.
Não é o meu registo, mas não o critico de forma muito acesa, pois também conheci blogues de encarregados de educação que se preocupavam apenas em ofender os docentes, em abstracto, e em vir a blogues de professores para os atacar pessoalmente. Comigo aconteceu um par de vezes, pois não limito os comentários (como muitos colegas se viram obrigados a fazer), mas a coisa resolveu-se quando os atacantes perceberam que não era esse o tipo qde registo que pretendia. O WordPress permite ficar com o mail dos comentadores e as coisas esclareceram-se em off.

5 – Já respondi a isto mais acima, pelo menos em parte. Alguns blogues são lugares de confissão. Acho que só uma minoria serão causados pela necessidade de dizer o que não é dito aos alunos e pais. Voltando ao meu caso pessoal, como não costumo guardar esses dilemas para casa, talvez explique que faça poucos posts desse tipo e me concentre mais em criticar os discursos sobre a Educação e em desmontá-los para além da superfície. Ou tento.
Mas acredito que muita gente sinta necessidade de exteriorizar aquilo que por vezes ninguém parece reconhecer de doloroso que se passa com muitos docentes, e que os blogues tenham permitido encontrar algum conforto e estabelecer redes (mesmo que virtuais) de reconforto.

Ao que, passados alguns minutos, acrescentei:

Vou abusar da sua paciência e à moda dos “políticos” dar a resposta para a pergunta que não me fez directamente e que é a razão de ser mais profunda de muitos blogues, para além do que assoma à superfície. Pelo menos foi por isso que eu, por exemplo, passei a escrever com alguma frequência.
É que perante a investida do Min. Educação que apresentou os profes como os maus da fita, usando uma estratégia comunicacional cerrada e que, sempre que necessário, retorceu os números, adiantou conclusões com base em estudos nenhuns e declarou como certas fórmulas por demonstrar, muitos docentes sentiram-se isolados perante a opinião pública.
No seu “estado de graça”, o Governo e a Ministra foram aplaudidos como heróis salvadores, gente de visão, disciplinadora, firme e com ideias boas para o sector. Ora muitos de nós sabem que nada de mais falso existe. Isto agora já se vê e ver-se-á melhor mais tarde. Mas em 2005 e 2006 os professores foram os maus , os “privilegiados”, os pequenos déspotas, os malandros que progrediam sem mérito na carreira. Ninguém – salvo excepções como o José Gil ou o Manuel António Pina – surgiram em nossa defesa. A comunicação social foi no barco e nós sentimo-nos sós como nunca, sendo que somos muitos. E por acaso o maior corpo profissional do Estado com qualificações superiores, na maioria dos casos ao nível da pós-graduação.
E a reacção passou pela blogosfera.

E pronto. E ainda é isto que eu acho sobre o assunto, sendo que não me senti “ofendido” pelo tom da peça que, no final, acabou por não dar só um dos lados da questão.

Eu não tenho qualquer tipo de problema em assumir que considero que, por muito que nos custe, a “imagem” é fundamental nos tempos que correm para fazer passar uma qualquer mensagem. Não vou concretizar, fulanizando a questão porque parece mal, mas a verdade é que muitas vezes, com a roupagem certa, uma péssima ideia passa por razoável, enquanto uma boa ideia, apresentada de forma displiscente e desleixada, não convence ninguém.

Vivemos no Império do Efémero ou mesmo numa Era do Vazio sobre que escreveu o Lipovetsky e temos que nos habituar a isso. Lamento, mas é a vida. Por isso mesmo me preocupo com a forma como a classe docente vai surgindo representada no imaginário colectivo por obra e graça da tutela e de alguns grupos sociais restritos, mas com um poder de propagação das suas opiniões muito acima do seu valor absoluto ou relativo.

Isto não é um fenómeno novo. O da tentativa de fazer passar uma má imagem dos docentes. Eu já há muito tempo que ouço as chamadas “bocas” de que, achando-se acima, gosta de apoucar o trabalho dos docentes, aproveitando para misturar a conversa dos privilégios, com a da facilidade da função, não esquecendo uma atitude de alguma sobraceria intelectual. Desde sempre que reajo de forma correspondente, desafiando quem assim opina a demonstrar a validade das suas críticas e o valor acrescentado da sua função específica. Do género, mostra-me o tamanho da tua, que eu mostro-te o da minha. E quase sempre funciona e raramente a conversa se repete com o mesmo emissor.

Nestas situações não me interessa se há docentes efectivamente incompetentes, impreparados ou inadaptados, a merecerem requalificação. Porque nas generalizações que fazem a denegrir a imagem dos docentes, também se esquecem de ressalvar que nem todos somos ineptos, que muitos demonstram enorme dedicação aos seus alunos, que se esforçam por se actualizar contra ventos e valteres lemos, que funcionam como primeiro travão contra a exclusão social, que fazem de psicólogos, assistentes sociais.

E, de caminho, como gostam de apresentar os professores todos estes inteligentes e iluminados:

  • Como uma massa amorfa de gente que é professor(a) porque não sabe fazer outra coisa, que estagnou na vida e ficou sem outros horizontes profissionais.
  • Como um conjunto de maus profissionais, absentistas relapsos, sempre à espreita de uma hipótese e uma via legal para faltar ao trabalho.
  • Como profissionais de um ofício “que qualquer um saber fazer“, pelo menos na boca daqueles que nunca o exerceram ou que por ele passaram de raspão.
  • Como um grupo profissional sem capacidade de organização, fragmentado em não sei quantos sindicatos, mas facilmente manipulável por um par dels.
  • Como gente que foi progredindo na profissão, sem demonstração de mérito, de forma acomodada.
  • Paradoxalmente, ou como agentes de um autoritarismo arbitrário sobre vítimas ou como vítimas, coitadinhas e indefesas, de situações de indisciplina que os ultrapassam.

Ora a minha experiência pessoal, individual, de pessoas que me são chegadas em termos familares e/ou de amizade, e de muitas outras que fui conhecendo ao longo de duas décadas de docência e uma dezena de estabelecimentos de ensino, assegura-me que esse conjunto de “maus profissionais” é uma minoria e que, em muitos casos, nem sequer leccionam e ocupam postos de responsabilidade, nomeadamente ao nível da gestão de alguns estabelecimentos de ensino, ou em cargos de “confiança”, os chamados “tachos”, que agora irão dar muitos pontos para serem titulares. Mas, apesar disso, são uma minoria. Diria que 10% serão casos irrecuperáveis ou dificilmente recuperáveis. Só que esses não são os alvos preferenciais da acção “moralizadora”, visando “premiar o mérito” ME. pelo contrário, essa acção irá recair de forma mais punitiva exactamente sobre aqueles que mereceriam mais apoio e que, em virtude da sua dedicação, acabaram por “queimarem-se” e entrarem em processos de burnout. A recompensa para esses, pelo que vou vendo e ouvindo, vai ser um bilhete de ida sem qualquer agradecimento.

Por isso mesmo, acho que a classe docente não tem – proporcionalmente – piores profissionais que outras ocupações profissionais de responsabilidade. Tenho testemunho directo de muito pior desempenho de médicos ao longo da minha vida do que de professores, por exemplo. Mas isso não me faz lançar anátemas sobre toda a classe médica. Não tendo, de igual modo, a acreditar que todos os licenciados em engenharia se formam pelo método socrático na Independente, ou que todos os advogados são meros habilidosos, com tanto maior sucesso, quanto consigam empatar os processos até que sejam arquivados ou que as provas da acusação sejam consideradas nulas. Os vários processos em decurso, da Casa Pia ao Apito Dourado não chegam para isso.

Não sei se tenho demasiadas preocupações com a “imagem social” dos docentes. Acho que tenho a mesma preocupação que um médico, um enfermeiro, um taxista ou um juíz terá com a sua. E acho que isso é legítimo e que, embora passível de crítica, é mais do que compreensível. E considero ainda que tenho o direito a exigir respeito das pessoas que tutelam a Educação que, essas sim, nunca revelaram especial mérito para ocupar os postos que ocupam. Assim como também mereço – e todos merecemos – respeito por parte daqueles que, sem o demonstrarem, se acham “superiores” aos docentes do ensino não-superior, sejam, eles académicos de pacotilha ou empresários de sucesso à base do subsídio.

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(c) Antero Valério