Domingo, 29 de Abril, 2007


  1. Antes de mais, e para além do conteúdo online, encontrem a edição em papel, onde o texto central está complementado com a referência explícita a mais meia dúzia de blogues e a citação de excertos.
  2. O tom da peça não é certamente o que muitos de nós desejariam, mas quer-me parecer que a coisa originalmente até era para ter sido bem pior. Penso que a jornalista depois de contactar alguns dos autores de blogues (quantos não sei…) terá, no mínimo, moderado bastante o que pensei que poderia vir a ser catastrófico em termos da nossa imagem.
  3. Cabe-nos a todos nós inverter uma imagem que está difundida na comunicação social e em muita opinião publicada, que é muito negativa para os docentes, apresentando-nos ou como “privilegiados”, ou “vítimas”, ou “incompetentes”, ou “coitadinhos”. Se não formos nós a assumirmo-nos como profissionais dignos de respeito e enfrentarmos claramente quem nos amesquinha, ninguém o fará por nós.

1102a.jpgSempre que leio ou vejo entrevistas da Ministra da Educação sinto uma sensação de estranheza pelo conteúdo que me remete para algumas obras de ficção científica que li entre a adolescência e a idade adulta. Não daquela que mais aprecio (Philip K. Dick, Robert Heinlein, Ursula Le Guin, Philip José Farmer, Robert Silverberg, etc) mas mais daquela que, na ânsia de criar novos e inacreditáveis mundos, em vez de nos fazerem entrar no maravilhoso mundo da «suspensão da verosimilhança» só nos acabam por desanimar perante a falta de imaginação para criar verdadeiras realidades alternativas, ficando pela mera fancaria.

Nas entrevistas de Maria de Lurdes Rodrigues tende sempre a existir um elemento de estranheza e irrealidade que me faz pensar que não partilhamos a mesma realidade, a mesma forma de alinhavar um raciocínio, o mesmo tipo de olhar sobre o mundo. Não percebo se somos de espécies diferentes – e eu serei uma alienígena – se apenas existe um registo perfeitamente incompatível na forma de encararmos os mesmos fenómenos.

Na entrevista da Visão vou isolar alguns dos elementos que me causam maior pasmo ou incredulidade, ao nível do “mas que raio é do que se está a falar, que eu não estou mesmo a ver”. Vou tentar não citar de forma pouco contextualizada, para não cair naquela acusação recorrente de a caricaturarmos, pois citando-a de forma extensiva é a melhor forma de obtermos a tal caricatura.

Comecemos pela gestão do património escolar. Passo adiante a prosa sobre a falta de investimento na sua recuperação e no facto de as promessas ultrapassarem o prazo desta legislatura, o que inviabiliza – de acordo com os puristas da teoria da prestação de contas em eleições – que em 2009 possamos saber se o prometido foi devido. Fico-me pela forma como MLR exemplifica como os órgãos de gestão das escolas podem rentabilizar os seus espaços, percebendo-se a origem peregrina da ideia dos “casamentos e baptizados”.

Vou só contar uma história que presenciei no Brasil. Era uma escola situada num morro e o espaço mais qualificado da favela. Era ali que se realizavam os baptizados e casamentos. O terreno para construção, era o mais próximo da escola. As casas já nem estavam viradas para a rua, mas para a própria escola. Temos uma realidade diferente, mas quando a escola é o espaço mais qualificado, tanto mais importante são estas práticas.

Nesta passagem, MLR arruma de forma perfeitamente inconsciente todo o mito de um Portugal moderno e desenvolvido. Mesmo quando assume que não vivemos todos numa imensa favela, acaba por achar que em muitos locais – basta ler a pergunta que vem antes – a Escola é o espaço mais qualificado. Pois é. O que não deixa de ser triste. E isso acontece muitas vezes em pequenas aldeias que a partir de agora irão ter esse «espaço qualificado» fechado. Isto no caso das EB1. Se nas vilas com uma EB 2/3, esse é o espaço mais qualificado da povoação, isso é um tremendo atestado de terceiro-mundismo ao nosso país, em especial atendendo ao estado em que muitas se encontram.
Por outro lado, MLR parece ter percebido tudo sobre as favelas brasileiras, nomeadamente a razão da inflação do valor dos terrenos. Terá despercebido que o maior valor se deverá não necessariamente, ou apenas, à proximidade da escola, mas sim, se é verdadeira a descrição feita, ao facto de essa ser a zona mais elevada da dita favela.

Quando se passa para a questão da desertificação do interior e no papel que o encerramento de diversos serviços por este governo, incluindo escolas, terá no seu agravamento, MLR responde desta forma:

O que lhe digo é que o interior já está abandonado. (…) Não tenho a certeza, não é a minha especialidade.

Pois o problema é exactamente esse. A falta de fundamento de muitas crenças apresentadas como inquestionáveis. Se não é a sua especialidade, sendo socióloga, será que sendo Ministra poderia ter alguma espécie de assessoria nessa matéria? E já agora não andar todos os anos a empurrar os miúdos de escola em escola?

Em seguida entramos na parte da análise das consequências do novo ECD para os docentes e MLR baralha-se por completo, com as clássicas frases demagógicas sobre a progressão dos docentes que não davam aulas e que agora vão-se valorizar os mais experientes. Leiamos:

Agora, o importante é a experiência. O antigo estatuto consignava que bastava o tempo passar, tendo ou não dado aulas, tendo ou não estado doente. Foi isto que procurámos inverter. Serão titulares os mais experientes, e a experiência tem de ser avaliada e comprovada.

Julgo que seja por isso que os quadros destacados no Ministério recebem quase tantos pontos como os docentes efectivamente em exercício nas Escolas (6 e 8 pontos por ano lectivo, respectivamente) e que um docente que ocupe um lugar de gestão como Presidente de Conselho Executivo durante dois mandatos de 3 anos, se acumular isso com a Presidência do Conselho Pedagógico, passa quase automaticamente a titular sem ter dado uma aula em todos esses anos. Em contrapartida,  quem tenha dado aulas os sete anos da avaliação, sendo director de turma – sendo estas as funções que mais directamente colocam os professores em contacto com alunos e famílias – não tem hipótese nenhuma de chegar a titular, caso tenha tido um acidente de carro, ou caído na própria Escola, e partido uma perna que o imobilizasse 3 meses distribuídos por dois anos lectivos. Pior, um docente agredido que tenha necessitado de acompanhamento e recuperação por danos psicológicos, ainda é penalizado na sua progressão. Para além de quem MLR falseia por completo a forma como antes se processava a progressão, que dependia da frequência com aproveitamento em acções de formação validadas, certificadas e creditadas por quem? Pelo ME, claro está! Mas isto é omitido e os “jornalistas” não dão por nada.

Tudo extremamente coerente numa realidade alternativa à minha. Mas claro que a Ministra reafirma que nas escolas as situações que descrevo não sucedem, que tudo (por exemplo no caso da violência) é belo e seguro, mesmo se os factos que a contradizem são por demais evidentes.

Por fim, e porque isto vai longo vou-me ficar por esta sequência de pergunta resposta:

P: De quantos professores titulares vai precisar o Ministério da Educação?
R: Muitos mais do que as escolas precisariam. Os cerca de 30 a 33% previstos dão de uma enorme generosidade. Se olhássemos para a necessidade das escolas, 10% chegariam.

Já em post anterior tentei demonstrar até que ponto este cálculo dos 10% é uma imensa asneira, um disparate, uma atoarda, uma completa demonstração de desconhecimento.
Agora prefiro concentrar-me em outro nível, que é o da linguagem usada por MLR:

Generosidade?

Generosidade?

Importa-se de repetir?
Mas quem é que disse à excelentíssima senhora Ministra que ela é uma dama feudal com o poder do dom? Da dádiva?
E que todos somos seus vassalos?

Deveremos estar todos contentinhos porque MLR condescendeu em dar aos docentes a possibilidade de 30% deles progredirem normalmente na carreira?
Será essa a generosidade?

Mas MLR é detentora exactamente de que tipo de poderes divinos e taumatúrgicos para se pronunciar desta maneira sobre este tipo de assunto?

Generosidade?
Deve ser a mesma generosidade que a fez criar o Prémio do Palerma do Ano, desculpem, do Professor do Ano, tipo torrão de açúcar dado ao cavalinho mais bem comportado e que mais cabriolou ao longo de 12 meses.

E já agora, só para terminar, devo ainda agradecer a MLR a generosidade de me pagar todos os meses? Em que termos devo endossar o meu cartão de agradecimento?E deverei fazer alguma genuflexão no acto do envio?

ego1.jpgOs blogues dos professores vão rompendo o cerco. Hoje passam pelo DN, em matéria da jornalista Ângela Marques. Como sou por lá citado, nem sequer vou queixar-me que o assunto merecia mais espaço. De qualquer modo eu depois incluiriei por aí meu depoimento – que é usado de forma fiel, o que agradeço – e uma análise mais detalhada, na medida das minhas possibilidades e pontos de vista, do fenómeno. Porque acho que são um dos clusters mais ricos (porque heterogéneo) da blogosfera e nem sempre merecem a devida atenção dos media, tão entretidos a citar os blogues daqueles que já normalmente falam e escrevem, sobre os mesmos assuntos, nesses mesmos media. E porque acho que não merecem ser encaixados em fórmulas redutoras.

Para inchar mais, também um texto dos primórdios do Umbigo (e antes incluído no site da APHchegou aos States. De início até me chamaram Pablo, mas eu pedi-lhes a cortesia de não me tomarem por castelhano ou chicano. Não é por nada, qual quê xenofobia. Apenas porque me habituei a ser Paulo e um tipo com a idade tem dificuldade em adaptar-se a novos hábitos.

Portanto, hoje estou insuportavelmente bem disposto. O que é óptimo para fazer a análise daquela “espécie de entrevista” de Maria de Lurdes Rodrigues à Visão.