Sexta-feira, 27 de Abril, 2007


numeros.jpgUma crítica, algo simples e muito paradoxal, que é feita a diversas observações que vou fazendo neste espaço – mas que também encontro feita a outro(a)s colegas – é a de que nos agarramos demasiado às nossas experiências, que olhamos demasiado para o nosso umbigo – caramba, se há coisa que é assumida no título deste blog é isso mesmo – e que perdemos um bocado a perspectiva do quadro mais geral, quasi-cósmico, do interesse geral, do bem da Nação e, resumindo, da salvação do planeta.

Eu até me apetecia discordar e apontar que as críticas, em outros casos, são exactamente as inversas, mas pensando bem decidi concordar, graças a um pretexto que me foi fornecido pelo DA ao facultar-nos num comentário o link para os quadros e o método de cálculo usado para a criação pelo ME do Conselho dos 60, verdadeiro areópago futuro da consultadoria ministerial para assuntos educativos.

A criação é coisa que já me fez sorrir o suficiente, não sei se pelo modelo “democrático” com que pretende ser apresentado pela tutela, se pela instrumentalização a que se vai prestar. Isto para não falar na forma perfeitamente incrível como destrata as regiões autónomas que, apesar de terem um estatuto especial, que eu saiba ainda são Portugal para quase todos nós, excepto porventura para o Jaime Ramos na Madeira, um ou outro reminiscente da FLA nos Açores e a Ministra da Educação.

De qualquer modo, desta vez o soriso alargou-se em riso ao verificar as contas do quadro do lado direito, pois a soma dos representantes distritais por número de alunos dá 48 e a dos representantes por escolas dá 14, mas parece que ninguém informou disso quem elaborou o quadro e decidiu que as somas eram 45 e 15. Se somarem os valores parciais para vários distritos (Braga, Lisboa, Setúbal, Viana do Castelo) também terão interessantes demonstrações do que é o horror à Aritmética na 5 de Outubro. E isto é um documento oficial colocado no site do ME. Nem quero ver os documentos preparatórios. Mas adiante… (cliquem no quadro e verifiquem o link enquanto a anedota não for corrigida).

Mas neste caso o que me interessam são mesmo os valores fornecidos sobre o número de alunos e a rede escolar em funcionamento (espero que estejam quase certos). Porque vivo e lecciono no distrito de Setúbal e porque, teorias filosófico-pedagógico-coiso à parte, é com esse mundo que lido. E não com outro. E porque, apesar de ser necessário olhar para a big picture, também é indispensável colocarmos os pés na terra e olharmos o mundo a partir do sítio onde estamos. Isto até tem um nome em Ciências Sociais a sério, chama-se standpoint theory, mas agora isso não me interessa nada.

O que interessa mesmo é que Setúbal é de longe o distrito onde a rede escolar está a rebentar mais pelas costuras e onde foi desenhada por alguém que estava distraído no dia em que se fizeram as projecções demográficas de crescimento. E as contas saíram, mais do que escassas, distorcidas e claramente erradas.

Sei que é uma média, mas a ordem de grandeza das diferenças não deixa de ser elucidativa: em Setúbal há 256 alunos por estabelecimento de ensino, valor que está bem à frente do relativo aos distritos de Lisboa (222) e Porto (186) e que quase ou mais do que duplica o dos restante distritos de Portugal Continental (e também das ilhas, por certo). E não se trata apenas do mítico interior desertificado. Faro, Coimbra, Aveiro, Braga são distritos fortemente urbanos e estão no litoral. E Setúbal ainda tem aquela parcela de planura alentejana de Alcácer a Santiago.

Se nos concentrarmos na Península de Setúbal, a média então sobe de maneira brutal. E é com isso que eu e muitos outros docentes lidamos. Com escolas a abarrotar, onde é melhor pensarmos duas vezes antes de comer uma omolete com dois vos antes de irmos para a escola, não vá o espaço faltar. Onde as salas para as actividades de enriquecimento, diversificação e fragmentação curricular e extra-curricular se inventam em espaços impossíveis, à custa de arrumações. Onde nos intervalos, as centenas de crianças e jovens se acotovelam a caminho do bar ou a tentarem-se abrigar em dia de chuva. Onde as turmas, excepção a zonas de TEIP, são de 25-28 no Básico e 30 e muitos no Secundário.

São as escolas que a Ministra e os seus secretários não visitam. Porquê? Não sei! Falta de acessibilidades talvez. A estas escolas é que se deviam fazer visitas de estudo.

Mas onde nós trabalhamos o melhor possível dia a dia. Onde não podemos derrubar paredes, quebrar grilhetas, abrir gaiolas e fazer aquelas poesias e floreados todos que os pseudo-gurus nacionais anunciam, porque se o fizermos cai tudo pela borda fora, como nos bons velhos gasalhados que eram feitos por fora das sobrecarregadas naus portuguesas de regresso da Índia, aquelas mesmas que inspiraram muitos dos relatos da História Trágico-Marítima.

Vivemos muito centrados na nossa experiência, nos nossos dramas quotidianos, no nosso mundinho pequenino e que alguns acham comezinho e insignificante. Imerecedor (o mundinho) e incapazes (os docentes) de uma atenção ou reflexão mais profunda por parte de quem sabe. De quem vê mais longe. De quem analisa e prospectiva.

Mas as coisas são o que são. E se não formos nós, com maior ou menor insistência, quem mais se preocupará com isso? Quem falará por nós? O Conselho dos 60?

Os Sousa Tavares, os Pachecos Pereiras, os Antónios Barretos, os Pulidos Valentes, as Filomenas Mónicas? Só em sonhos…

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Nota final: Não me esqueci que ainda quero fulminar o texto de 3ª feira do Vital Moreira e aquele “espécie de entrevista” de Maria de Lurdes Rodrigues à Visão. Mas alguma coisa há que deixar para animar o fim de semana.

A função peculiar das escolas e da educação faz com que não valham para elas muitas das considerações sobre a organização empresarial. Os fins que se prosseguem na acção da autoridade educativa contrapõem-se frequentemente aos que se buscam na organização empresarial. A finalidade da acção educativa não é conseguir a submissão ou o simples rendimento (o vocábulo alude curiosamente a render-se e a conseguir resultados), mas sim a libertação dos indivíduos. A raiz etimológica latina da palavra (auctor, auguere) significa fazer crescer. Nada mais afastado de um exercício da autoridade tendente à busca da disciplina irracional, da submissão extrerna e da uniformização dos comportamentos. (Miguel Ángel Santos Guerra, Os Desafios da Participação: Desenvolver a democracia na escola, Porto, 2002, p. 65)

O mais estranho é que quem concorda com isto – e promove retórica alusiva em grande quantidade – em relação aos alunos, depois parece discordar de tal em relação aos docentes. Ora eu acho que a coisa, com algumas modulações, é válida nos dois casos.