Quarta-feira, 25 de Abril, 2007


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(c) Antero Valério

25abril.jpgIsto é complicado. E até perigoso, porque se presta a apropriações políticas indevidas da memória colectiva. Pois há sempre alguns especialistas que se arrogam da leitura certa dos acontecimentos, mesmo quando ela é apenas parcial ou linear.

As intenções até podem ser as melhores e os intervenientes dos mais respeitáveis. Falo da APH (gente simpática que, mesmo ser ser associado, me publicou alguns textos) e da Associação 25 de Abril, claro. Mas este tipo de iniciativas, comemorativistas e, por tabela, revisionistas da História, procurando fixar um conteúdo ideal para a construção da memória dão-me sempre arrepios.

Porque o 25 de Abril não deixa de ser ensinado nas Escolas, por falta de materiais, espaço específico no programa de História, falta de vontade ou conhecimentos dos docentes. Haverá os que não gostam muito da data e os mais entusiastas, como em tudo. Acredito que a alguns monárquicos custará ensinar o 5 de Outubro, ou a alguns católicos mais fervorosos encarar o Marquês de Pombal com agrado.

Mas essa não é a questão essencial, lá diriam Pacheco Pereira e os Gato Fedorento.

A questão essencial passa pelo desenho ou organização dos currículos de História e a carga horária disponível para os docentes despacharem milhares de anos de História em fatias de 90+45 ou apenas 90 minutos, sendo que, por ser História recente, o 25 de Abril fica na pontinha final de tudo, quando, em especial nos 2º e 3º CEB que conheço melhor, já está toda a gente a trote à espera que o ano lectivo acabe, com provas de aferição, provas globais (até o ano passado) e e exames à porta. Porque no 2º CEB é necessário despejar milhares de anos de História de Portugal e antecedentes, mais conteúdos de Geografia em dois anos, e no 3º CEB são ainda mais os milhares e de História Universal em episódios de 90 minutos semanais.

Há muito que acho que não faz sentido, depois de dada uma introdução no 1º CEB, andar a dividir o programa de História em duas partes entre o 5º e 9º ano. Eu preferiria, como já escrevi, que os conteúdos pudessem respirar uma vez durante esses 5 anos, sendo então possível dar o século XX com a devida propriedade ao finalizar o 3º CEB, no 9º ano. Como as coisas estão, isso fica-se pelo papel, pois a regra é ninguém se aventurar muito para além dos anos 50 e apenas ir à “pesca” do 25 de Abril, na semana correspondente, promovendo-se sessões ou actividades especiais. A solução não é totalmente má, mas é um remendo. Sei disso, porque participei e animei várias actividades desse tipo (desde “conversas do tempo em que eu ia a escola” a convites a protagonistas dos acontecimentos), mais ou menos boas, mas eu preferiria ter a certeza que, mais do que um “extra”, o estudo do antes e depois do 25 de Abril pudesse ser ensinado/aprendido em condições.

Por isso, não serão dossiers de fichas ou materiais que resolverão o problema. Isso não passa de poeira. O importante é que o(s) programa(s) fossem concebidos com pés, cabeça e uma vaga relação com o tempo disponível para o debitar.

Porque livros, jornais, revistas, fotos, memórias directas ou familiares até software quase todos acabamos por ter. E mesmo congelados a maioria de nós ainda investe na aquisição de materiais pedagógicos ou passíveis de ser usados nas aulas. Disso eu tenho a certeza. O problema é outro, mas esse cetamente continuará por resolver.

att00155.gifNão, não estou a brincar. É verdade que me apetece desopilar, mas o assunto é sério e fundamentado. Acho eu, pelo menos. Mas exemplifico.

Ontem terminei o dia com 90 minutos na sala 26 da minha Escola. Tal como a 25, a 24 e algumas das 30’s no outro extremo do bloco, esta sala tem a felicidade de dispôr de luz solar directa, desde meados de Abril, desde aí as 11 da matina até quase ao final do horário lectivo. O que se traduz, apesar das cortinas feitas para completar o serviço que as persianas das janelas não cumprem devidamente, mesmo quando estão operacionais, em temperaturas que a partir de Maio ultrapassam em muito os 30º.

Em contrapartida, do outro lado, as salas 13, 14, 15, etc, não apanham qualquer sol durante todo o Inverno, o que as torna ideais para conservar comida sem recorrer ao frigorífico ou mesmo a qualquer modelo moderníssimo de arca congeladora. Também é desse lado da Escola, que corresponde à entrada principal, que existem algumas árvores frondosas que fazem sombra razoável (do lado sul, o solarengo, nem vê-las). O que tem as suas vantagens. Não me ocorre assim mais nenhuma do que serem razoavelmente frescas no Verão, mas certamente que existirão.

Sei que não vivemos num país rico, sei que muitos estabelecimentos escolares foram feitos com os meios possíveis, com as tipologias que pareceram mais adequadas, nos terrenos disponíveis. Mas podia existir um mínimo de atenção a detalhes que influem directamente no conforto dos alunos – não falo dos docentes, isso é malta que devia conseguir trabalhar mesmo com correntes nas galés – e nas condições em que desenvolvem o seu trabalho.

Era pedir muito que tentassem, pelo menos, que a disposição das salas seguissem uma orientação mais razoável – preferencialmente nascente/poente – ou que existisse algum cuidado na forma de isolamento das salas? Afinal falamos de muitas escolas já feitas no final dos anos 80 e anos 90, não em mil novecentos e tropeça o passo. Os custos seriam assim tão inflaccionados? E seria coisa fabulosa que com a criação da Escola se definissem áreas de arvoredo que permitissem compensar a incidência solar?

Para não falar de outros casos mais divertidos como aquela tipologia – se eu me esforçasse encontrava a designação, mas agora não me apetce – de origem nórdica, em que os blocos são todos envidraçados, com um mini-pátio interior e a possibilidade de acesso interior a todas as salas através das outras. Aqui pelas minhas bandas há várias, criadas na viragem dos anos 70 para os 80, antes da tipologia dos rectângulo de cimento armado. Numa onde leccionei há cerca de uma dúzia de anos até os encaixes para os skis mantiveram do plano original. E que tão agradável que era ter aquele vidrado todo durante o final da Primavera e os alvores do Verão – muito útil na Finlândia ou na Suécia – como modo de demonstrar como se consegue formar facilmente o “efeito de estufa”. Só lamentava não leccionar Geografia ou Ciências. Em História só tinha alguma aplicação quando ainda ensinava as diferenças climáticas com que os navegadores portugueses se confrontaram, pela altura dos trópicos, nas viagens da Expansão. Já no Inverno, o sistema de escoamento, ao redor dos blocos, pensado para a neve e chuvas escassas, entopia a cada bátega acima da média. Um par de anos antes dava aulas numa Secundária cujo bloco mais distante tinha, na visão humorística de todos os seus utentes. lavagem automática do quadro. Do de ardósia e também do eléctrico, que o melhor é não acender a luz senhor professor, como avisava a preocupada funcionária logo pelas 8 da manhã, quando as manhãs de Inverno estavam menos radiosas.

Mas como estes há muitos exemplos da triste falta de qualidade das nossas construções escolares. A minha velha Secundária, provisória em 73 quando começou a funcionar está decrépita quase 35 anos depois e lá continua. Em outros locais, chegam a dar-se aulas em contentores por falta de salas. Se outrora haveria a desculpa dos meios ou da pressa em construir a baixo custo, agora já fica mais ridículo que surjam directivas que determinam o número de alunos por sala apenas com base na área da dita. Eu gostava de ver certos burocratas a receber uma turma de (pré-) adolescentes transpirados de uma bela jogatana de futebol apressado no intervalo, entre a ida ao bar e o pedido para entrar mais tarde para passar pela casa de banho, numa sala que já se encontra pré-aquecida a 30-35º desde meio da manhã. Ou a recomendar a instalação de salas de informática em espaços com janelões enormes que, com a sua luminosidade, tornam quase invisíveis as imagens nos monitores, obrigando a manter tudo fechado e atabafado.

Quando falamos em insucesso escolar, fala-se muitas vezes em números em quantidades. Número de professores, número de alunos, número de repetências, número de salas, número de computadores; gastos com isto, aquilo e aqueloutro; fala-se em salários, em percentagens do PIB. E por aí a diante. Na banda larga, nas tecnologias maravilhosas. Só se esquecem de perguntar se nas salas as tomadas funcionam.

Raramente se fala em qualidade. Em conforto. Em condições agradáveis de trabalho. E quantas vezes as condições são lastimáveis, mesmo se a sala tem não sei quantos metros quadrados e o número certos de mesas e cadeiras. Alguém se preocupa em comparar a qualidade das nossas escolas e a sua adaptação ao contexto local (clima, terreno, etc) com a qualidade das escolas finlandesas, suecas, dinamarquesas, suiças, alemãs ou austríacas?

Com esforço e imaginação lá se arranjam uns parcos aquecedores no Inverno, que mal aquecem um canto da sala. Dinheiro para vidros duplos? Não há. Para reparar as persianas sempre que necessário? Nem pensar! Ventoínhas? Brincamos, não!

Mas lá continuamos nós, cantando e rindo. Baseando a demagogia nos números que interessam, esquecendo a alegadamente difícil medição dos critérios de qualidade. que porventura os próprios alunos não conseguiriam ajudar a fazer, por não terem padrões comparativos.

Passam hoje 33 anos sobre o 25 de Abril de 1974. Muitas foram as conquistas e os ganhos. Negá-lo seria de uma hipocrisia total. Mas muito foi também o que ficou por cumprir. E essas promessas de desenvolvimento, de convergência, de europeização, foram feitas exactamente por aqueles que estão no poder, ou pelos seus directos antecessores, que gnos governam há 30 anos. Quando seria de esperar que, depois da fase da expansão da rede escolar, se passasse para uma fase de consolidação dessa expansão do ponto de vista da qualificação do parque escolar, o que assistimos é exactamente ao inverso. Ao desinvestimento e à delegação ou “transferência de competências”.

Temos escolas melhor equipadas do que há 20 e 30 anos? Temos, certamente. Temos mais livros nas bibliotecas, computadores (antes não existiam, sequer) e outras maravilhas da pós-modernidade. As paredes é que continuam as mesmas, com mais um par de décadas de uso em cima e eu garanto, apostando simples contra dobrado, que muitas das cadeiras ainda em uso na minha velha Secundária são as mesmas que usávamos há mais de 25 anos.

Mas o que vale é agora vai existir uma empresa que vai gerir parte do parque escolar do Ensino Secundário e vai resolver tudo isso que o ME não consegue resolver por si. E o que essa empresa não resolver, resolvem as autarquias, claro está.

E é nesta parte da fábula que entram o coelhinho da Páscoa, mais a rena Rudolfo em alegre parceria empresarial.

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Vieira da Silva