Terça-feira, 24 de Abril, 2007


Será que é politicamente incorrecto? Espero que sim!

Este tem sido um início de semana meio atribulado, com imprevistos vários, notícias menos boas (o agravamento do estado de saúde do meu resistente progenitor, assim como de outro parente) e felizmente outras ocorrências mais ditosas (nascimento do segundo rebento ao compadre João). Resultado: uma enorme falta de tempo e a necessidade de passar o 25 de Abril a fazer um périplo dos três clínicas/hospitais nas duas margens do Tejo, sendo que é de evitar qualquer passagem pela zona do Marquês, não vá o túnel tecê-las.

Logo, a energia e inspiração ficam mirradinhas, apesar de muito material disponível para dispar(at)ar.

O texto de hoje de Vital Moreira no Público não perde por esperar, pois se há coisa que eu detesto é intelectuais orgânicos que justificam tudo aquilo que é inverso ao que já defenderam, só porque tardiamente mudaram da farol luminoso. Agora, se Sócrates recuperasse como dogma do regime a teoria geocêntrica, Vital Moreira defenderia tal tese com o mesmo entusiasmo com que outrora defendeu os amanhãs que cantam. No caso de hoje lança-se ao sindicalismo docente como gato a bofe, quando algum pudor aconselharia que se contivesse nessa matéria. Como acima escrevi se há mesmo coisa que me faz ir aos arames é o fervor dos recém-convertidos a uma nova fé, que tudo fazem por espezinhar aquela que renegam batendo repetida e ostensivamente no peito para todos perceberem.

Por outro lado, fica ainda por analisar a interessantíssima revelação de não existirem quotas para as notas máximas na avaliação dos dirigentes superiores da Função Pública, embora exista incentivo indirecto à atribuição mais generosa de notas baixas por esses dirigentes aos seus subordinados, pérola recolhida também nas páginas do mesmo Público. Ou como a desvergonha se tornou a regra de um governo cujo PM se orgulha de ter supreendido Sarkozy pela investida contra o funcionalismo público.

É tudo matéria por demais sumarenta, eu é que não estou com o ânimo devido para a espremer como merece.

Entretanto,  a mero título de utilidade aqui fica algum material propagandístico powerpontiano que me foi enviado pelo António Carvalhal sobre o concurso para titulares: esclarconcproftitr.pps.

Antes de mais o agradecimento à Maria e ao Ascensão Paredes, que me indicaram o link do post do Renascido, que por sua vez tem os links das notícias do Público (funciona hoje, mas amanhã talvez não) e do Portugal Diário.

Aparentemente a nossa Ministra da Educação decidiu dirigir-se às criancinhas (a feliz contemplada foi a EB 2+3 Matilde de Rosa Araújo em Cascais) e explicar como era no tempo do antes do 25 de Abril. Por entre o matraquear de vários números que devem ter sido muito bem aceites pela dócil assistência, que como MLR tanto gosta terá permanecido sossegadinha, surgem-me dois relatos algo discordantes sobre as suas declarações. Passo a citar.

Maria de Lurdes Rodrigues revelou aos alunos da escola de Cascais revelou que no 25 de Abril estava na escola, o local que disse ter sido um dos mais marcados pela revolução.

“O país mudou, não voltará a ser o mesmo. Antes do 25 de Abril a escolaridade obrigatória era até aos seis anos e hoje é até aos nove anos e a ambição é ir aos 18 anos“, explicou a ministra aos alunos, atentos aos seus ensinamentos na mini-aula improvisada da biblioteca da escola. (Público)

«O País mudou, não voltará a ser o mesmo. Antes do 25 de Abril a escolaridade obrigatória era de seis anos e hoje é de nove anos. A ambição é que [os jovens] estudem até aos 18 anos [ou seja, cumpram 12 anos de escolaridade]», declarou Maria de Lurdes Rodrigues aos alunos, atentos aos seus ensinamentos na mini-aula improvisada da biblioteca da Escola Básica 2/3 Matilde Rosa Araújo.  (Portugal Diário)

Se bem repararmos as duas declarações apresentadas como citações directas do discurso são substancialmente discordantes, embora as diferenças materiais possam parecer mínimas. Na notícia do Público, temos uma afirmação completamente incoerente e desconexa, factual e historicamente errada, confundindo-se anos cronológicos com anos de escolaridade. Na do Portugal Diário, com remendos editoriais, a coisa surge menos má, embora também se custe a perceber porque a meio da frase se passa de anos de escolaridade para anos cronológicos.

A tentação – enorme, enorme – é fazer fé na citação que mostra uma Ministra perfeitamente mirabolante e trocando factos básicos, demasiado básicos. Mas por uma vez vou ser caridoso e acreditar que a segunda citação será a mais fiel e que MLR foi apenas confusa no seu discurso, coisa que nela é aliás recorrente.

De qualquer modo, o facto da primeira notícia existir e de a segunda necessitar de esclarecimentos apostos para tornar compreensível a tirada, é suficientemente esclarecedor sobre os níveis comunicacionais desta Ministra quando fala por si mesma e não deixa que falem por ela os secretários de Estado ou os assessores de comunicação.

Como diriam os meus alunos perante uma situação mais complicada de resolver por alguém: “evita“, “evita“.