diploma1.gifNa sala de espera do consultório onde vou ao dentista, encontram-se espalhados pelas paredes numerosos diplomas do proprietário da clínica, também ele dentista. Coisa a rondar a dezena, no mínimo. Um dia em que fiquei pendurado uns bons 45 minutos à espera, dediquei-me a ver se alguns deles acrescentavam alguma coisa ao facto do senhor em causa ser dentista ou se demonstravam a sua competência de forma iniludível. Perdi o interesse quando percebi que muitos limitavam-se a certificar que o homem tinha frequentado determinados cursos de especialização, sendo a maior parte deles redundantes em relação aos outros.

Ora esta tendência para o exibicionismo de diplomas  é algo que não é nada raro e que – certamente mais do que o problema dos “títulos” de doutor e engenheiro – se tem vindo a tornar obsessiva na sociedade portuguesa, atingindo-a de forma quase transversal.

Mais do que de um título, ou de uma competência, os portugueses andam à cata de diplomas que certificam que eles frequentaram algo que, teoricamente, os deveria deixar habilitados – certificados e competentes – para exercer determinada função. E o exemplo e o impulso surgem de cima. Note-se que em relação ao recente programa das Novas Oportunidades grande parte do investimento comunitário angariado vai ser gasto na criação e funcionamento de 269 Centros de Reconhecimento, Validação e certificação de Competências.

Isto significa que a estrutura destinada a passar os papelinhos de certificação de competências irá absorver parte importante dos meios que deveriam ser usados para desenvolver as competências propriamente ditas.

Mas esta tendência não é nova. Nem na Formação Profissional, que a agora foi rebaptizada para propaganda como Qualificação da População Portuguesa, nem na área da Educação pois quase toda a política educativa nos anos 90 se preocupou mais em certificar competências do que em desenvolvê-las, mesmo se afirmava o contrário. Era a essência da “pedagogia do sucesso”. E isso aconteceu em todos os níveis de ensino, desde o Básico onde a certificação do 9º ano quase se pretendeu ser automática pela mera frequência dos três CEB, até ao Superior, onde se certificaram Universidades em catadupa, para que fosse possível certificar que o maior número possível de Portugueses tinha os certificados superiores adequados para ficarem um bocadinho melhor nas estatísticas internacionais.

Há quase 20 anos que em Portugal se aposta fundamentalmente na Certificação. Os milhões de certificados emitidos pelos diversos organismos do IEFP, por instituições privadas certificadas para dar formação profissional e pelos estabelecimentos de ensinodependentes do ME, incluindo os Politécnicos e Universidades (que agora dependem do Min. Ciência e Ensino Superior), desde os cursos académicos formais regulares até todo o tipo de modalidade de workshop, seminário, oficina, acção de formação, etc, etc, deverão ter mobilizado papel em quantidade para desflorestar uma Amazónia média. Não falando na tinta gasta por tanta impressora.

Não acredito que existam mais de 17 portuguese(a)s que não tenham um certificado ou diploma qualquer, atestando que ele(a) é competente em algo. Em qualquer coisa. Certificando uma qualquer competência. A sério que não acredito. E a coisa é geral, vai do desempregado de longa duração que fez uma acção de formação em Informática e continuou desempregado ao senhor Primeiro Ministro que, ainda antes de o ser, quis forçosamente ser diplomado em Engenharia, para isso passando por três instituições diferentes, mesmo não querendo remotamente exercer o ofício. Só para ter o certificado de.

O problema é que esses certificados e diplomas significam apenas isso: certificam que alguém frequentou um curso, no qual teve aproveitamento, o que por sua vez deveria significar que teria adquirido um número maior ou menor de competências. Mais nada.

Na maior parte dos casos significam ainda que alguém ganhou dinheiro para leccionar esses cursos e que mais alguém viu o seu posto de trabalho assegurado pela necessidade de emitir tantos certificados. Na prática, não vamos iludir-nos, uma larga fatia desses certificados certificam apenas a competência de alguém para os emitir.

Porque provavelmente a maior competência nacional será a competência de certificar a competência alheia. E agora teremos 269 novos centros só para continuarmos a poder certificar mais e mais portugueses. Só que agora espera-se dar certificados um bocadinho melhores, já não de nível II, mas III ou IV. Porque certificam melhor.

E a este processo singular chama-se a qualificação da população portuguesa. Eu cá acredito, mas só depois de me mostrarem o certificado disso.

(e sim, na próxima semana vou pedir o meu novo certificado, afinal sou um português como qualquer outro…)