Sábado, 21 de Abril, 2007


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Já repararam no aspecto curioso, ou nem tanto, de os sectores que normalmente apoiam a publicitação de rankings dos resultados dos estabelecimentos do Ensino Básico e Secundário, ficarem regularmente mudos sobre coisa equivalente para as instituições o Ensino Superior?

É que se fizerem uma sobreposição das posições, temos uma quase perfeita inversão entre os que defendem os rankings para o Ensino Não-Superior e os que assobiam para o lado quando se trata de Universidades. É que há liberais para umas coisas, mas não para outras. Há defensores da liberdade de informação como base necessára para a tomada de decisões pelas famílias quanto à Escola Primária a frequentar, mas não quanto à Universidade. O que se estranha, mas que não se entranha.

A razão é mais do que óbvia: em relação ao Ensino Superior Privado há muito que disfarçar, que camuflar, para que o sector não definhe em definitivo e que se acabem muitos belos negócios que ao longo de uns 15 anos alimentaram clientelas político-académicas vendendo ilusões e canudos aos incautos.

No Expresso de hoje – que nas últimas edições, à média de um par de páginas, parece ter acordado do torpor jornalístico em que havia mergulhado – realça-se esse interessante facto de muitas Universidades privadas prestarem um mau serviço aos seus alunos, embora apresentem nos seus corpos docentes figuras públicas, como se diz…, de “nomeada”.

Só que, na generalidade dos casos e ressalvadas as devidas excepções, são figuras que em circunstâncias normais nunca teriam direito a um lugar de professor universitário de que se orgulhar para abrilhantar o currículo, se as instituições que os convidaram para leccionarem não tivessem interesse em apresentá-los como chamarizes para uma clientela pouco atenta e mais dada ao mero reconhecimento do nome sonante na comunicação social.

Não há que ter receio das palavras: se há casos de bons cursos em algumas instituições universitárias privadas – e daqui excluo a Católica, pois o seu caso é sui generis em vários planos – a regra é exactamente a inversa. As instituições públicas “de topo”, ou mesmo de meio de uma hipotética tabela que poucos parecem interessados em criar e/ou divulgar, são reconhecidamente muito melhores do que qualquer instituição privada. Só que muitas destas criaram redes de “interesses”, tecidas em torno do “arco político” do poder, o que faz com que, a menos que rebente grosso escândalo, se sintam protegidas.

As avaliações do desempenho das instituições universitárias dão origem a relatórios episodicamente públicos, de conteúdo vago ou críptico, que raramente ousam entrar por terrenos movediços. Se o fazem, então temos a certeza que as consequências serão mínimas e a sua divulgação mínima. A bem do bom nome das instituições. Claro.

Basta ver como sobre a Moderna as inspecções nunca deram por nada, até os maçons se aborrecerem uns com os outros, enquanto agora com a Independente a coisa só estoirou quando os compadres se zangaram na divisão dos 183% de acções da cooperativa e outros negócios conexos.

De finais dos anos 80 a meados dos anos 90, sucedeu-se a criação de Universidades privadas. Muitas com ligações estreitas ao poder político ou a interesses económicos. Algumas criadas usando como referência o nome de accionistas conhecidos por estarem ligados ao sector da Educação, por vezes mesmo com responsabilidades políticas. Foram muitas as que contrataram nominalmente docentes de Universidades públicas para os seus corpos docentes, mesmo se raramente algum deles lá leccionou verdadeiramente. Foi o tempo dos pseudo-turbo-professores, que eram muito mais pseudo do que turbo. Muitas convidaram políticos no activo ou na reserva para as suas fileiras académicas. Ou apostaram em jovens esperanças. Quase todas convidaram para o trabalho duro uma espécie de tarefeiros, forma estranha de proletariado académico, pagos à aula dada e à hora como os antigos trabalhadores à jorna.

Mas tudo isto foi alegremente ignorado, porque na fase de expansão e auge, as propinas de dezenas de milhares de alunos que não entravam no ensino público por falta de média e pressa em arranjar diploma para o desemprego davam para pagar imensos “convidados ilustres”, recrutados na política, sim, mas também nos próprios meios de comunicação social.

E a bem da harmonia, muito ficou por se saber. Muito ficou por investigar. E muita opinião pública foi defraudada. Claro que publicitar rankings que apresentassem os cursos das universidades privadas como os piores da respectiva especialidade seria mau para os negócios. Agora, que a bolha rebentou, já há muito mais gente que se sente livre para apontar o dedo. Tarde, como de costume.

Mas eu continuo a achar que a principal razão de tudo isto – fora o óbvio oportunismo e hipocrisia – passa pela flexibilidade e relativismo dos valores daqueles que têm muitos princípios, defendem muito a transparência, a liberdade de escolha, o reconhecimento do mérito, etc, etc, apenas desde que isso sirva os seus interesses ou que, no mínimo, os não perturbe.

E quando lemos certos nomes, percebemos logo qume se sentiria incomodado com excessos de transparência.

kurt.jpgÉ uma das formas possíveis de definir Kurt Vonnegut, escritor multifacetado e durante muito tempo associado apenas à ficção científica. Morreu aos 84 anos já na passada semana, mas só a imperfeita nota biográfica incluída na Visão desta 5ª feira (afirma-se que só foi cá publicada a sua obra Utopia 14, quando foram publicadas várias outras nos anos 70 como a famosa Matadouro 5 ou a Cruzada das Crianças) me chamou a atenção para o facto.

Homem visceralmente crítico, desiludido desde a juventude por tudo aquilo que foi vendo acontecer no mundo, desde a ascensão dos autoritarismos totalitários até à era Bush, o acontecimento que mais o marcou foi o bombardeamento de Desden no final da Segunda Guerra Mundial, do qual foi um dos únicos sete sobreviventes entre os prisioneiros de guerra americanos que aí se encontravam e que foram obrigados a enterrar os corpos de muitos dos mortos espalhados pela cidade.

Por isso mesmo, muitos dos seus escritos são um misto estranho de esperança e desânimo. Como esta passagem da sua última obra, também ela publicada recentemente entre nós:

Eu queria que todas as coisas parecessem fazer algum sentido para que fôssemos todos felizes, sim, em vez de angustiados. E eu inventei mentiras, de modo que todas se encaixassem devidamente, e tornei este mundo triste num paraíso. (Um Homem Sem Pátria, p. 20)

Aqui têm a sua memorável entrevista, apesar de já algo debilitado, no Daily Show de Jon Stewart em Dezembro de 2005 (e não se deixem distrair pelo tempo que demora a aparecer o vídeo, por causa da publicidade).

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Já confessei aqui todas as minhas reservas quanto ao sindicalismo que temos, em particular o relacionado com a classe docente. Mas isso não significa que aceite que se cortem direitos consagrados na legislação sindical aos delegados ao IX Congresso da Fenprof (ou de qualquer outro organismo sindical). Porque, de novo, parece que o ME ignora o ordenamento jurídico nacional e o valor relativo de cada diploma.

Por isso, a nova valtice, se colocada em Tribunal, dará o resultado óbvio.

(cliquem nas imagens para as aumentar; se não chegar para se perceber bem – lamento mas é o que se arranja – ainda costuma aparecer um ícono no canto inferior direito da imagem para aumentar mais)