Quinta-feira, 19 de Abril, 2007


Estamos agora no limiar de uma idade de profissionalismo pós-moderno na qual os professores lidam com uma clientela diversa e complexa, em condições de crescente incerteza moral, em que muitos métodos e aproximações são possíveis e em que mais e mais grupos sociais têm influência e algo a dizer. Se esta idade pós-moderna verá a criação de novas parcerias excitantes e positivas com grupos e instituições para além da escola e os professores a trabalhar efectivamente, abertamente e com autoridade com esses parceiros num amplo movimento social que proteja e avance o seu profissionalismo, ou se testemunhará a desprofissionalização da docência à medida que os docentes sucumbam sob múltiplas pressões, exigências crescentes de trabalho, oportunidades reduzidas de aprender com os colegas e enervantes discursos de derisão, é algo que ainda está por decidir. (Andy Hargreaves, “Four Ages of Professionalism and Professional Learning” in Teachers and Teching Practice and Theory, 2000, p, 175)

Esta dúvida era colocada por Hargreaves no limiar do milénio. Entre nós, nos últimos anos percebe-se para que lado o poder político decidiu que deveria pender a balança. Resta-nos resistir à maré do momento. O texto completo do artigo fica aqui disponível (4idadesprof.pdf) para leitura e descarga..

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Pelo menos é reconfortante constatar como o post sobre a desafeição e desadesão dos docentes ao prémio Lurditas d’Ouro, vulgo Prémio do Professor do Ano, tem sido o mais visto hoje na comunidade WordPress.

Para que se saiba que sempre temos um mínimo de amor-próprio e não somos uma cambada acrítica.

O estudo conclui que se houvesse mais flexibilidade na colocação de professores isso “permitiria libertar recursos, sem ter um efeito relevante (negativo) no desempenho das escolas. E apontam-se mesmo sugestões sobre como tal flexibilidade poderia ser rentabilizada. “Parte da redução dos encargos com remunerações conseguida por esta via poderia ser aplicada em despesas com material ou infraestruturas”. (Banco de Portugal)

O Miguel questiona-se se é só o rabo. Eu sinceramente acho que o Banco de Portugal com a actual gestão é apenas mais uma muleta do Governo em quase todas as matérias.

Praticamente o único argumento usado pelos defensores da continuação da implementação da TLEBS no Ensino Básico parece ser o de ser errado parar algo que já estava a ser implementado no terreno.

Desculpem-me, mas é preciso mais melhor do que isso para me convencerem. Pode apontar-se o dedo ao momento tardio em que a decisão foi anunciada, até às consequências nefastas para os alunos cujos professores, por crença ou ingenuidade, se apressaram demasiado por um caminho notoriamente equívoco.

Porque um erro, mais vale emendá-lo tarde do que deixá-lo em “implementação”, porque já está no terreno. E no caso da generalização da TLEBS, mesmo não falando nas polémicas científicas, existiam demasiados problemas como a falta de um claro escalonamento do que se devia aplicar a cada CEB, da falta de materiais de apoio com a quantidade e qualidade indispensáveis para uma matéria tão delicada ou mesmo de uma adaptação do programa da disciplina de Língua Portuguesa aos novos conteúdos termonológicos.

Nesse aspecto, como em muitos outros, a atitude epistemológica popperiana é a mais adequada: tentamos e constatamos que errámos? Então é melhor reiniciar todo o processo. Só assim é possível fazermos avançar os nossos conhecimentos no sentido correcto. Constatar o erro e insistir nele é a negação de qualquer espírito científico responsável.