Quarta-feira, 18 de Abril, 2007


3117a.jpgTambém soube entretanto do misto de espanto e aparente tristeza com que, na reunião com os CE’s da passada semana, a nossa apreciada Ministra afirmou verificar-se uma quase completa ausência de candidaturas de professores do ensino público ao prémio da Lurditas d’Ouro, vulgo Prémio do Professor do Ano. Ao qual parecem só estar quase a concorrer professores do ensino privado.

Perante isso, MLR terá incentivado os órgãos de gestão a sensibilizar os respectivos docentes das suas escolas para concorrerem ao dito prémio.

Esta novidade deixa-me, não duplamente feliz como a da TLEBS, mas pelo menos orgulhoso pela modo colectivo, orgânico e visceral, e não necessariamente de forma concertada ou planeada, a classe docente decidiu manifestar o seu repúdio por uma iniciativa que só amesquinha os docentes ao colocá-los num concurso de tipo para-televisivo.

Não me espanta, contudo, que Maria de Lurdes Rodrigues se admire com a falta de candidaturas de professores do ensino público porque a senhora ministra ao que parece tem uma enorme falta de capacidade de auto-crítica e de percepção da realidade. Os docentes não estão comn as suas políticas e a sua passagem pelo ME será lembrada futuramente de modo bem negativo, por muito que pessoal ou profissionalmente isso lhe venha a ser gratificante num futuro mais ou menos próximo, terminado o mandato.

Porque parece que MLR continua a não compreender que as pessoas têm ainda níveis mínimos de decência e vergonha e não dão a patinha aquem lhe dá com o chicote. Se a ideia era amestrar os docentes, MLR perceberá que falhou redondamente.

E, por outro lado, isto é um sinal evidente – para mim bem mais evidente que as rotineiras greves – que os docentes estão profundamente magoados e revoltados, mas que apesar de tudo e afinal ainda há orgulho em ser professor.

No meu caso foi hoje pelas 14.30 quando entre uma reunião de grupo disciplinar e outra de departamento de Língua Portuguesa, acedi ao meu mail e tinha lá uma mensagem do JMC dando-me conta da notícia da publicação da portaria (port476-2007.pdfque determina a suspensão – finalmente – da TLEBS cuja implementação de forma generalizada, após revisão, fica para 2010/11.

Afinal a palavra de um secretário de Estado que se quer pessoa responsável ainda vale um chavo nesta terra. Quanto ao outro isso não é coisa que interesse muito a praticamente ninguém.

A felicidade foi dupla por motivos gerais – esta é uma decisão acertada, embora muito tardia e com algumas pontas soltas – mas também particulares, porque confirma os dotes de futurólogo com que me mimosearam, de forma desnecessariamente escarnecedora, algumas mente iluminadas pela “razão” suprema há um par de meses.

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Que boa sorte não se usa nestes casos. Amanhã a Paula Lago que por aqui passa tantas vezes, vai defender o seu doutoramento em Santiago de Compostela. Se o nervoso por vezes chega com o dia, também não é menos verdade que chegado esse dia, o pior já passou.

Para os que mais gostam ou desgostam da importação de modelos externos para a nossa Educação, a OCDE será a referência mais antiga. Há cerca de 50 anos que as aproximações se sucedem conforme os interesses políticos de cada momento e as suas agendas.

Actualmente vivemos um desses momentos, como aconteceu no início dos anos 60 e 80, parecendo que isto é um movimento cíclico de média duração.

Para além dos relatórios mais afamados, existem artigos mais curtos que procuram fazer diagnósticos nas informações (razoavelmente enviesados porque acabam por basear-se na documentação oficial fornecida) e nas receitas (a fórmula é invariavelmente a decorrente das teorias do Capital Humano).

Este artigo relativamente recente (portugalcapital-humano.pdf) já apanha este governo a meio (é de Julho de 2006), mas para mim o mais interessante é que, embora se notem claras sintonias entre o que aqui se escreve e a acção governativa, depois igualmente se detectam outros passos em que a separação das águas terá a sua explicação. Isolei apenas três.

  • A primeira refere-se ao facto de se recomendar o reforço do 3º CEB (a ideia com que concordo de juntar os 2º e 3º CEB seria um caminho possível), o que não está a ser feito. Pelo contrário, a acção deslocou-se para uma tentativa de fundir os 1º e 2º CEB.

  • Por outro lado, aconselha-se a reavaliação de políticas passadas, para detectar a origem dos erros.

 

Ora isso entre nós é anátema. Se a coisa correu mal a culpa foi dos professores e já está resolvido, não vale a pena acharmos outros culpados, porque fica mal.

  • Por fim, existe ainda a proposta de incentivar os docentes no seu desempenho de uma forma positiva. A única certa e compatível com um país civilizado, aliás.

Como sabemos cá optou-se pela solução inversa, por causa dos trocos que depois se desbaratam em outras coisa. Mas também já estamos habituados a isso.