Segunda-feira, 16 de Abril, 2007


Then if any one at all is to have the privilege of lying, the rulers of the State should be the persons; and they, in their dealings either with enemies or with their own citizens, may be allowed to lie for the public good. But nobody else should meddle with anything of the kind; and although the rulers have this privilege, for a private man to lie to them in return is to be deemed a more heinous fault than for the patient or the pupil of a gymnasium not to speak the truth about his own bodily illnesses to the physician or to the trainer, or for a sailor not to tell the captain what is happening about the ship and the rest of the crew, and how things are going with himself or his fellow sailors. (Platão, A República, online no site do Gutenberg project)

Agora só nos falta explicitar o que é o bem público. Julgo que, por definição, não pode ser um interesse privado.

Ainda não li o documento em si, ou as alterações que efectivamente irão ser feitas ao estatuto do Aluno, pois apenas acedi à versão para propaganda comunicacional.

Mas pelo que vejo comentado e pelo que ouço de quem andou pelas reuniões com a tutela, o que vai acontecer é o fim “formal”, “administrativo”, do abandono escolar porque a reprovação por faltas acaba por desaparecer graças a um malabarismo técnico que – aposto as minhas hipótese de titularização contra um bom prato de migas – irá siurgir nas próximas estatísticas oficiais.

O que vai acontecer é que, diferindo a reprovação (ou aprovação) dos alunos absentistas para um eventual exame final obrigatório, isso faz desaparecer artificialmente o abandono escolar durante o ano lectivo. E será fácil, muito fácil, transformar um malabarismo técnico-legislativo numa vitória de uma inexistente política educativa consequente.

Veremos como em 2009, a ser este sistema implementado já em 2007-08, alguém em nome do ME aparecerá a brandir gráficos, com escalas mais ou menos trabalhadas, a mostrar uma quebra na taxa de abandono escolar. Quebra essa porque, à boa e velha moda dos tempos do Estado Novo em que se afirmava que a prostituição não existia porque não era reconhecida como tal e não eram feitas estatísticas (este desvio justifica-ase em função de passadas investigações minhas nesta área, não se assustem…), o abandono escolar terá diminuído porque deixou de ser contabilizado como anteriormente.

Se tornamos impossível registar como abandono escolar o total absentismo escolar dos alunos, mantendo-os formalmente no sistema por via do tal exame no final do ano, claro que o abandono escolar deixará formalmente de existir. E o aproveitamento político e demagógico de tal ficção não se fará esperar.

Se estou errado, por favor expliquem-me, porque sinceramente espero mesmo estar errado

Porque acho que deveriam existir limites de decência quanto à manipulação dos dados sobre este tipo de fenómenos sociais, em especial aqueles que como o abandono escolar precoce são tão dramáticos e têm efeitos a longo prazo extremamente negativos para os indivíduos e toda a sociedade. E se nos preocupamos apenas com a cosmética estatística e nada com a substância, tudo isto não passa de mais hipocrisia retórica. 

A coisa ficou resolvida e agora já me sinto mais na mesma. Aliás, como antes. Saiu-me um peso das costas, mas continuo com 90 quilos.

O dia esteve solarengo, a A2 simpática, a bica e o pastel de nata em Letras sofríveis (apesar da visão de um velho inamigo académico na fila do bar), a arguição da tese talvez demasiado soft para o meu gosto quezilento, mas a professora Zília é uma simpatia.

Pronto, agora é voltar às aulas porque, verdade seja dita, essa acaba por ter sido a minha opção profissional voluntária e não algo para que fui empurrado. Entretanto, acabei por saber ou ver confirmada a informação que muitos colegas receberam já a simpática comunicação de que a partir de agora não há mais equiparações para ninguém por ordem da tutela. Querem mestrados e doutoramentos, mostrar que aderem ao lifelong learning, serem exemplos de uma busca pela permanente necessidade de aperfeiçoamento académico e de qualificação? Aquilo que a retórica do poder do momento tanto proclama?

É melhor irem ao Totta, porque só se for sem vencimento. E então é melhor fazerem um empréstimo.

Se a Ponte está entupida…