Sábado, 14 de Abril, 2007


Alguns órgãos de comunicação social vivem numa situação de aparente esquizofrenia, que só os mais ingénuos acreditarão ser mera pluralidade de opiniões. A situação é mais complicada do que iso. O Expresso é o exemplo mais flagrante. Na edição de hoje, na qual se revela que José Sócrates requereu equivalências a um reitor que não o era (eu bem dizia que aquela carta surgia sem sinais que validassem qualquer entrada nos serviços de uma universidade) mesmo sendo obrigados a reconhecer que as explicações de José Sócrates têm mais buracos que um camaroeiro dos antigos, são vários os opinadores que pedem à populaça para deixar o engenheiro em paz, que é preciso governar o país: Fernando Madrinha, Miguel Sousa Tavares e Nicolau Santos parecem tirar a regra e esquadro o mesmo tipo de l ógica pífia que nunca serviu para Santana Lopes. O Primeiro-Ministro explicou-se, e pelo mero acto de explicar-se a coisa está resolvida. Não interessa nada se a explicação é congruente ou sequer verosímil. Basta enunciar a explicação e pronto, deixemos isso que o país espera por álguém que o governe.

socuni.jpgMesmo se o Público divulgou novos elementos, que se juntam aos anteriores, motivando novas perplexidades. Como, por exemplo, é possível que existam documentos datados de 96 com referência a códigos postais então inexistentes.

Entre todos o que desenvolve argumentação mais caricata – e olhem que a disputa é acesa entre os três concorrentes – é Nicolau Santos, o mesmo que há semanas dizia que este não era assunto de que merecesse atenção e agora levou com o tema em duas primeiras páginas seguidas no jornal que ajuda (?) a dirigir. Na última coluna da sua prosa desta semana no caderno de Economia, com o título de “Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?”  lê-se o seguinte:

Há quem fale em falta de carácter ou traços de personalidade que só agora se tornam evidentes. E então? O que se faz? Sócrates não foi eleito pela personalidade, pelos cursos que tem ou não tem, mas pelas propostas que apresentou ao eleitorado e pelas quais foi sufragado. E daí lhe vem a legitimidade.

Mas este homem (Nicolau Santos) está bom da cabeça? Então as questões de falta de carácter não interessam nada – há que dar-lhe reler as suas prosas sobre Santana Lopes – e o que interessa é que Sócrates foi eleito pelas propostas que apresentou? E será que alguém acha que Sócrates está a cumprir as suas promessas mais tronitruantes? Os 150.000 empregos? O choque tecnológico? O não aumento de impostos?

Ó meu caro Nicolau Santos, eu acho que o uso prolongado de laçarote lhe terá reduzido a oxigenação do cérebro, porque se há matéria em que a legitimidade de Sócrates não está é exactamente no cumprimento das propostas apresentadas ao eleitorado. Aquelas com direito a outdoor, que ninguém foi ler as coisinhas miúdas de um programa eleitoral formulado de maneira a tudo por lá caber.

E se incumprimento das propostas eleitorais há muito que revela deficiências do carácter “político” que por cá passa por ser coisa diferente do carácter pessoal, agora percebe-se que mesmo em algo tão simples como a produção de um currículo há trapalhada sobre trapalhada e que mesmo o processo de construção desse currículo é uma peneira que não tapa Sol nenhum (então a UnI era mais prestigiada que o ISEL? e não se lembrava dos professores que teve na UnI, saendo que um já tinha sido docente no ISEL e se tornou elemento nomeado pelo governo de que fazia parte?), será que Nicolau Santos acha que esta é a pessoa certa para conduzir os destinos do país? Será que se importava de explicar exactamente no que se baseia para tal asserção? No currículo? Na frontalidade e transparência com que enfrenta as dificuldades? No rigor da sua acção?

Acredito que quem fez o possível por desbravar o caminho a Sócrates, que até ajudou na produção da imagem de alguém rigoroso e certo para o país, tenha dificuldade em admitir que ou apostou no homem errado ou foi redondamente enganado. Mas, por favor, se falta a coragem para admitir isso, ao menos que se calem, assobiem para o lado e não encubram o que é óbvio com argumentações que só desprestigiam e descredibilizam que as produz.

blog.jpgNos EUA foram coisas destas que, no caso de políticos como Trent Lott e John Kerry ou de jornalistas como Dan Rather, levaram a que em 2004 a blogosfera se tornasse um meio de comunicação e informação crescentemente mais credível em relação aos meios de comunicação social e aos jornalistas ditos e tidos como sérios. Leia-se a obra Blog-Understanding the Information Reformation that’s changing your world de Hugh Hewitt e, descontando-se o alinhamento partidário e ideológico assumido, perceber-se-ão duas ou três coisas essenciais:

  • O carácter dos políticos é relevante e tanto o é mais quanto as suas práticas conflituem com os princípios assumidos.
  • Os meios de comunicação tradicionais perdem credibilidade ao acharem que estão acima de determinados temas e só os cavalgando quando é impossível não o fazer, pressionados pela blogosfera.
  • Os jornalistas “de referência” deixam de o seu quando se refugiam em torres de marfim, reclamando-se de uma autoridade moral e superioridade de julgamento perfeitamente insubstanciadas, procurando iludir o óbvio em defesa de algo que custa a perceber e não é certamente o interesse público, esse conceito escorregadio e de uso demagógico.

grade1.jpgUm amigo recomendou-me este método de avaliar o desempenho de um blog ou site. A coisa é muito dinâmica, pois muda quase de minuto em minuto, o que impede comparações estáveis com os blogues nacionais de maior impacto, mas tem a sua graça.

Na categoria de blogues o Umbigo tem uma performance a rondar os 86-90/100, dependendo do momento o que significa um desempenho na ordem dos 90%, o que não está nada mal. Uma coisa interessante é que, descendo ao longo da página do diagnóstico, até quase ao fim, nos surgem as habilitações consideradas necessárias para ler o blogue, ou seja, o seu público normal ou alvo. No “nosso” caso a recomendação é um advanced degree, ou seja um PhD. O que é algo complicado pois reduz naturalmente a audiência potencial deste espaço, em especial ao nível dos decisores políticos. O que naturalmente explica muita coisa. Porque se por cá passassem e percebessem o que por aqui se escreve dos post aos comentários, muito se evitaria (agora estou a ser irónico, mas não sei se dá para notar pelo que faço este àparte)

Embora naturalmente com um ranking alguns pontos acima, o Abrupto só parece exigir que se seja um college graduate, o Causa Nossa exige o liceu e três anos de Universidade (cá já deve dar uma licenciatura nos tempos que correm, daquelas menos exigentes), o Quarta República só implica frequentar um ano de Universidade, o Glória Fácil apenas o 12º ano (tem a sua lógica), A Origem das Espécies apenas o 11º ano e o Bloguítica apenas 0 10º, o que já acho de maior espanto.

Portanto, se por cá passam regularmente, tendo o diploma em condições ou não, tendo feito a coisa por equiparação, equivalência ou mesmo a sério, isto significa que o vosso estatuto académico-blogosférico-intelectual é da ordem de um PhD. O que me parece natural e só justifica que cá continuem a voltar. Com jeitinho, ainda passo amanhã uns diplomas a quem pedir com muita insistência.

canudo.jpg

Cartoon do António no Expresso de hoje. Embora eu talvez colocasse o canudo em forma de nariz. Ou vice-versa.

prim2.jpgDe há 25 anos para cá que as séries televisivas Yes, Minister e Yes, Prime Minister são referências obrigatórias para toda a aminha tentativa de análise política.

Quanto aos dois volumes extraídos da segunda série são para mim como uma Bíblia que estimo e preservo desde que foram editados entre nós há cerca de 20 anos.

Sobre a Educação, o 2º volume tem um capítulo memorável onde podemos entre o volúvel e honourable James Hacker, o notável secretário permanente Humphrey Appleby e o circunspecto e literal secretário particular Bernard Woolley encontrar o mais rico sortido de citações, para os mais variados gostos e perspectivas, sobre tudo o que envolve e vicia o sistema educativo. Eu escolhi esta, um pouco longa, que inverte um pouco a nossa lógica da relação entre ministro e funcionário:

Humphrey recusava-se basicamente a admitir que o nosso sistema educativo era um desastre. Disse-lhe:
– As crianças aprendem disparates subversivos. Reina uma indisciplina toral nas salas de aula.
Humphrey não aceitava a verdade. Continuava a esgrimir argumentos baratos. por exemplo:
– Se reina a indisciplina total nas salas de aula, não sabem sequer que lhes estão a ensinar disparates subversivos. E de certeza que não os aprendem. De qualquer maneira, nenhuma cirança com dignidade acredita numa palavra do que o professor lhe diz.
Estava a ficar seriamente irritado com estas respostas gozonas e indignas.
– Nós temos a obrigação de os educar para a vida de trabalho e, durante tr~es quartos do tempo, eles sentem-se mortalmente aborrecidos.
– Pensava que passarem três quartos do tempo mortalmente aborrecidos era uma excelente preparação para a vida de trabalho – foi a resposta irreverente que deu.
– Humphrey – disse eu, com firmeza – elevámos a idade em que podiam abandonar a escola para dezasseis anos, a fim de que aprendessem mais. E estão a aprender cada vez menos.
De repente, deu-me uma resposta séria.
– Não elevámos a idade em que podiam abandonar a escola para permitir que aprendessem mais. Fizemo-lo para manter os adolescentes do mercado de trabalho e baixar os númros relativos ao desemprego.
Tinha razão.
Mas não queria meter-me nisso. Voltei ao resto da questão. perguntei-lhe se estava a tentar dizer-me que não havia nada de errado no nosso sistema educativo.
– Claro que não estou, senhor Primeiro-Ministro. É uma anedota. Sempre foi uma anedota. Enquanto estiver nas mãos dos vereadores, continuará a ser uma anedota. De qualquer maneira, cinquenta por cento deles são nossos inimigos. E os outros cinquenta por cento são o tipo de amigos que preferiríamos ter como inimigos.
Percebi finalmente qual a posição dele. Entende que a educação não vai melhorar enquanto estiver sujeita a todas aquelas futilidades parvas das câmaras. Comentou, aliás com razão, que nunca entregaríamos um assunto importante como a defesa ao poder local – se déssemos 100 milhões de libras a cada câmara municipal e disséssemos que nos defendesse, poderíamos deixar de nos preocupar com os Russos, teríamos uma guerra civil em três semanas. (Jonathan Lyn e Anthony Jay, Sim Senhor Primeiro-Ministro, 2º volume, pp. 248-249)