Sexta-feira, 13 de Abril, 2007


image20193.gifReler uma tese escrita com o prazo normal encurtado por pormenores burocráticos, mais ou menos arbitrários, é como arrancar os dentes a sangue frio, pois cada cavadela, sua gralha malandra, que escapou à última e definitiva revisão que ficou por fazer. Não são assim tantas como isso, mas caramba que cada uma que é descoberta  dói que se farta.

Sei que é o mais natural, e assim há quem de forma bem intencionada me tente animar, mas isso não me serve de grande consolo.

Ontem vi de fugida excertos de um debate na RTP que voltou a abordar a questão socrática. Do que vi retive dois detalhes interessantes:

  • Paulo Rangel do PSD fez notar, e muito bem, que se os docentes do ISEL estiveram sem lançar as notas durante um ano, então o aluno José Sócrates não poderia saber que disciplinas tinha ou não concluído, quando apresentou o seu pedido de equivalências na UnI. Para além disso acrescentou que não concebia como uma instituição do Ensino Superior aceitava matricular um aluno sem qualquer comprovativo do percurso anterior.
  • Fernando Rosas do BE, e extremamente mal, retorceu-se no seu lugar dizendo que isso – a entrada sem apresentação atempada de certificados de habilitações – é muito normal nas Universidades.

O que me espanta enormemente (ou será que não?) porque eu fui aluno da licenciatura e mestrado da mesma Faculdade onde F. Rosas era, e é, docente aliás parece-me que ele entrou para aluno de mestrado mais ou menos quando eu entrei para a licenciatura, em 1983. E até fui mais tarde seu aluno exactamente num mestrado (História Contemporânea) na primeira metade dos anos 90 que exigia requisitos rigorosos para o acesso, em especial para alunos externos, que eram obrigados a apresentar currículos, certificados e fazer uma entrevista para serem seleccionados aqueles que preencheriam as 5 vagas para alunos não provenientes da FCSH.

Pelo menos enquanto andei por lá (entreguei tese em Outubro de 94, defendi-a em Maio de 95 e dei episodicamente uma aula ou duas num dos seminários do dito mestrado em anos seguintes), o funcionamento para o acesso aos mestrados sempre foi feito, pelo menos teoriaca e formalmente, desse modo. Se depois existiam factores, digamos que subjectivos, em algumas apreciações (lembro-me de casos de exclusão de candidatos, por meros feelings de que os responsáveis não se envergonhavam), ou se existiam retoques em notas incómodas (era necessário ter 14 em todas as cadeiras do 4º ano e nem todos os candidatos desejados o tinham, pelo que constava nos mentideros que certos acertos teriam sido feitos à laia de melhoria de nota) do percurso anterior, isso era toda uma outra dinâmica. Assim como o (não) lançamento de notas nas pautas afixadas (a tempo), mas meramente a menção de “aprovado” (ou algo similar) e admitido ou não para a fase de redacção e entrega de tese; ou mesmo quem aparecesse como tendo completado seminários onde nunca tinha comparecido ou onde não entregara os trabalhos requeridos.

Se é verdade que por esses tempos já existiam vários destes grãos na transparência da engrenagem, não deixa, porém, de ser igualmente verdade, que ninguém era admitido – em especial vindo de fora da instituição – sem apresentar a papelada toda a tempo e horas. Aliás, nem seria natural que assim não fosse. Se agora a rebaldaria se instalou é outra conversa e só o poso depreender das afirmações ou comentários proferidos que, repito, acho muito estranhas. Mas o caso socrático data de 95, não de agora.

Por isso mesmo acho estranho. Tanto as declarações de Sócrates, como a desculpabilização de Rosas.

Tanto mais que o nosso PM justificou a transferência do ISEL para a UnI com base no «prestígio» de que então a instituição desfrutava. É certo que tinha acabado de abrir, mas pronto, prestígio é algo que se pode ter logo à nascença. No entanto, para o merecer, até aos olhos dos seus futuros alunos, penso que práticas como a não verificação das condições de acesso dos alunos são estranhas, no mínimo. E contraproducentes, claro.