Quinta-feira, 12 de Abril, 2007


You had something to hide
Should have hidden it, shouldnt you
Now youre not satisfied
With what youre being put through

Its just time to pay the price
For not listening to advice
And deciding in your youth
On the policy of truth

A vida pública e política portuguesa, na falta de coerência ideológica da maior parte dos protagonistas, está cheia de ismos personalizados. Depois de décadas de salazarismo, tivemos o marcelismo, daí partimos quase para o spinolismo, que acabou por ser cilindrado pelo gonçalvismo.

E por aí adiante.

Mais recentemente tivemos eanismo, soarismo, cavaquismo, guterrismo, e nem vale a pena continuar.

Em matéria de Educação, contudo, o imaginário do sector, a menos que me falhe alguma coisa óbvia, não ficou marcado por nenhum tipo de ismo ministerial, mas apenas pelo chamado benaventismo, que não vou explicitar muito, pois não apreciei o período e pode dar-me para a adjectivação. Basta dizer que foi o ponto alto do discurso sobre Educação que me recordo ser mais vácuo, embora infelizmente não inócuo, pois deu origem a algumas práticas que validaram comportamentos  extremamente irresponsáveis e desresponsabilizadores de alguns agentes envolvidos no processo educativo, ao mesmo tempo que se deu cobertura a uma razoável infantilização curricular do Ensino Básico.

Actualmente corremos o risco de sermos mimoseados com outro ismo, que veremos que parcialmente entronca no anterior, sendo que não será o rodriguismo, porque todos já teremos percebidos que o essencial da acção do ME passa pelas determinações de task-forces do Ministério das Finanças, por um lado, e pela rédea solta do secretário de Estado Valter Lemos por outro.

E é por aqui que parece passar o que se desenha como valtismo, corrente de acção política caracterizada por um total desconhecimento (para não dizer desrespeito) das regras fundamentais da ordem jurídica de um Estado de Direito, aliado a uma óbvia ânsia de continuar a infantilização da Educação Não-Superior, a qual que agora se desenha principalmente pela forma como se pretende limitar, condicionar, cercear, decapitar (etc, etc, etc) a formação dos professores, seja a de base, seja a que os ditos cujos pretendam obter de forma complementar.

Das limitações colocadas pelo ECD às faltas para efeitos de formação ao perfil aprovado de professor generalista para todo o Ensino Básico e Secundário (se para os seis primeiros anos a investida é mais demolidora, os restantes não irão ficar muito melhor), passando agora pelo activo desencorajamento do prosseguimento de estudos visando a obtenção de mestrados e doutoramentos, por via da limitação da concessão de equiparações a bolseiro, tudo o que passa ou sai da pena de Valter Lemos e sua equipa é no sentido de apoucar e menorizar os docentes como profissionais com um potencial científico crítico e reflexivo que ultrapasse a espuma das ondas. Com a desculpa da exigência de dois ciclos de estudos bolonhizados para se ser professor, que agora dão pelo nome de licenciatura e mestrado, preparamo-nos para ter direito à certificação da vacuidade académica.

O desejo de controlar a formação dos professores é evidente e dificilmente tem paralelo no passado mais ou menos recente. Talvez só mesmo quando o Estado Novo fechou as Escolas Normais nos anos 30 para reformular o ensino que lá se ministrava, do qual desconfiava por ser demasiado laico e republicano, se encontre um esforço tão concertado por transformar a classe docente num mero prolongamento administrativo-burocrático de um Estado que afirma querer promover a qualidade na Educação, mas que depois receia que essa seja uma qualidade demasiado fora de uma norma que se quer nivelada por baixo. Como dizia António José Saraiva (o pai, que cito de memória e com alguma liberdade, em entrevista já antiga) há quem só se sinta bem ao promover a mediocridade, porque assim há uma menor sensação de receio de ser ser suplantado ou de ser descoberta a íntrinseca falta de valor próprio.

A continuar assim, o valtismo acabará, apesar de desenvolvido num ambiente discreto de uma segunda linha governativa cinzentona, por ser um dos traços mais marcantes da Educação no início do nosso milénio. E será um traço negro, que se revelará difícil apagar. Porque há nódoas que quando caem num qualquer pano custam imenso a tirar.

Ontem o Umbigo bateu um recorde de entradas que tinha quase um mês (tinham sido 1776 no dia 22 de Março), com 1946, a rondar pela primeira vez os dois milhares.

Penso que a maior parte dos agradecimentos deve ser dirigida a quem nos desgoverna, por matéria tão gostosa (piscadela de olho ao CPCoelho) nos dar para segregar, pelo menos a mim, tanta bílis, escárnio e algum maldizer.

oficio.jpgJá não preciso, mas há quem esteja a meio dos seus trabalhos de mestrado e doutoramento. O senhor secretário de Estado Valter Lemos, alegando a mais triste das justificações – a ausência da aprovação de uma portaria que só depende do próprio ME e as afamadas “restrições orçamentais” – determina que só podem existir situações de equiparação a bolseiro se forem sem vencimento.

Afinal, aquela «nobreza» do acto de prosseguir e aprofundar estudos e procurar sempre novas qualificações ao longo da vida – o que muitos opinadores e o próprio Ministro Mariano Gago afirmam ser uma atitude «exemplar», a seguir e motivo de «orgulho» – no caso do ME só pode acontecer, se for sem vencimento. No entanto, é interessante que, não se prevendo excepções para a obtenção de graus académicos nas instituições universitárias do país, mesmo em casos de alunos já matriculados e com planos de estudos ou tese em decurso, se prevejam para projectos dependentes da FCT ou da Gulbenkian. O que não deixa de ser curioso.

Portanto, caro(a)s colegas, se fizeram, fizeram, se não fizeram estão pura e simplesmente tramados. A partir de agora ninguém deve passar a ter grau académico que faça sombra aos nosso governantes. A menos que sejam aquelas coisas à bolonhesa ou então americanices na base das seis-sete semanas de aulas por ano em Boston.

political.jpg

Pois é, Manyfaces, acho que estou mais ou menos no mesmo sítio que estava quando experimentei este teste há uns anos, apenas parecendo que estou ligeiramente menos libertário. No entanto, continuo algo escarranchado em cima do Dalai Lama, o que para ele deverá ser incómodo.