Quarta-feira, 11 de Abril, 2007


socratesafinainstrumento.jpgA entrevista foi o que se viu, muitos papéis já conhecidos, com todas as incongruências já faladas e outras que ficaram por falar. Percebeu-se que Sócrates ia com um guião para despejar, independentemente das perguntas que lhe fizesse. O som da voz do entrevistador era o tiro de partida para mais uma dose de “esclarecimentos” que até já previam esta notícia do Público Online colocada em linha às 19.36.

Fiquemos por algumas notas curtas, quase todas em forma de interrogação.

  • Com que então não falou antes para não fazer coincidir o seu depoimento com o processo sobre a UnI? Então o que achou de Mariano Gago na conferência de impresna sobre o encerramento da UnI ter levado a maior parte do tempo a falar do currículo do primeiro-Ministro?
  • Os professores do ISEL demoraram um ano a lançar as notas? Feche-se já o ISEL! Na minha experiência de Ensino Superior (8 anos até conclusão do Mestrado, decorridos entre 1983-87 e 1990-95, mais 5 agora em regime de trabalho essencialmente “autónomo”), não me lembro de pautas só serem lançadas no ano seguinte. Mesmo no mestrado que conclui, onde houve nebulosidades em algumas classificações, as pautas surgiram a tempo e horas para serem feitos certificados de habilitações (coisas diferentes de diplomas). Lamento, não é admissível que um mero certificado de conclusão das cadeiras de um ano demore um ano a ser feito, contra todos os prazos legais.
  • O regresso à Escola em idade adulta, para reforço de qualificações revela “nobreza de carácter” e deve ser valorizado? Explique lá isso à equipa do ME que decidiu penalizar fortemente quem ousar (ou ousou) fazer formação por sua alta recriação.
  • Afinal Sócrates sempre concluiu ou não concluiu o tal MBA? Fez o projecto ou dissertação final ou não? Uma coisa é frequentar, mesmo se com aproveitamento, um mestrado ou algo equivalente e daí mandar extrair certificado, outra é fazer tudo até ao fim e poder exibir o título correspondente.
  • E a tal graduação, pós-graduação, retro-graduação em Engenharia Sanitária, ninguém já fala dela, mesmo estando no Portal do Governo? 
  • Como já antes tinha sublinhado, os registos biográficos no Parlamento são feitos por mão do próprio deputado. Sócrates fez dois no mesmo dia? Ou emendou o que tinha feito anteriormente? Exactamente em que condições? Será possível ver o original?
  • Faz-se um requerimento ao reitor de uma Universidade, para pedir equivalências, sem colocar data? E tem-se o original manuscrito do requerimento, sem qualquer sinal de entrada nos serviços?
  • Nem uma palavra sobre os colegas de turma na UnI que afirmam nunca o ter visto nas aulas.

José Sócrates tem razão numa coisa: um aluno não é responsável pelas ineficiências dos serviços administrativos de uma Universidade, mas existem limites para a não verificação ou o não pedido da documentação comprovativa daquilo que se fez em tempo devido.

Por tudo aquilo que hoje disse e não disse, o nosso Primeiro-Ministro andou realmente num mundo académico bem diverso daquele que fui conhecendo a partir de 1983. É verdade que os trajectos são profundamente diferentes, as áreas de interesse e instituições nem se tocam, mas a forma como o PM apresenta o desempenho administrativo das instituições universitárias que percoreeu nos anos 90 (ISEL, UnI) é de molde a realmente ter muitas dúvidas sobre a sua qualidade.

Mesmo para terminar, não se percebem muito bem os remoques sobre o que é dito e escrito na blogosfera, em muitos casos por gente não anónima. Provavelmente estaria a pensar em coisas como as prosas de quem se assina simplesmente f. no blogue Glória Fácil. Na altura da campanha do referendo pela IVG a rapariga era um mimo de boas maneiras e requinte à mesa.

(a imagem usada é do Kaos)

Fica aqui a ligação para quem quiser consultar, mas desde já se destaca em complemento o diploma (Decreto-Regulamentar 32/2007 de 29 de Março) que regulará a Câmara Corporativa “baixa” do regime (a outra, a “alta” é o CNE), que dará pelo nome de Conselho de Escolas.

ce.jpgAtendendo às atribuições, método de eleição e tudo o mais, e não ivalidando análise mais ponderada, duas ilações se podem desde já retirar:

  • Os sindicatos enquanto interlocutores do ME para mais do que discussões salariais acabaram de ser vaporizados para os confins da galáxia. Portanto, se calhar andam a esgatanhar-se na Fenprof para ficarem com as migalhas do movimento sindical docente.
  • O Conselho dos 60 (o CE dos CE’s) será uma espécie de galeria dos intocáveis, tendencialmente formada por comissários do regime nas escolas e não de representantes dos professores, visto que o método de eleição é entre pares, sendo que esses pares nas suas escolas também passam a ser eleitos em colégio eleitoral de titulares.

Portanto, caro(a)s colegas, os tempos da gestão democrática das escolas (já sei que é causa de júbilo para alguns sectores) acabaram de morrer e o mesmo se acaba de passar com qualquer veleidade da larga maioria dos docentes poder fazer ouvir a sua voz. Isto, e muito em especial o afastamento da maioria dos docentes das eleições inclusivamente como eleitores, é contrário à Lei de Bases do Sistema Educativo, nomeadamente aos seus artigos 46º e 48º em tudo o que se refere à democraticidade dos processos eleitorais, mas já sei que ninguém se vai preocupar com isso.

A Educação e os seus agentes vão sendo gradualmente domesticados à moda do pensamento selvagem.

bilis.jpg

Alguém me explica se as linhas curriculares assinaladas a verde corresponderão a duas qualificações distintas ou a uma só, apresentada de forma dupla? Não seria melhor usar só uma linha já que… 

E já agora será que a referida equiparação, à data, corresponderia exactamente à mesma coisa, lá e cá? Porque eu conheço quem, em outras áreas académicas, tenha tido imensas dificuldades em fazer convencer as autoridades educativas nativas da equivalência entre um MeD americano e um Mestrado nacional pré-Bolonha.

Outras dúvidas menores, ficam à espera de melhor altura.

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Cant you understand

(…)
Words are very unnecessary
They can only do harm
Enjoy the silence

(e o vídeo até foi gravado em Portugal e tudo)

jac.jpgPara mim, e talvez pareça estranho, quem estará mais em exame esta noite na RTP1 vai ser José Alberto Carvalho quando entrevistar o Primeiro-Ministro.

Sócrates, como muito boa gente sublinhou, já terá pouco a adiantar ao que se sabe: ou insiste na teoria dos erros e “lapsos”, todos alheios, ou faz um mea culpa inesperado. Isso sim, seria de um político com os ditos cujos no sítio.

Mas como não o acho capaz desse tipo de coragem, o ónus da entrevista passa pelo que José Alberto Carvalho irá fazer. Aí se perceberão muitas coisas essenciais para a compreensão dos tempos que correm: até que ponto a entrevista foi “preparada”; até que ponto a televisão pública tem margem de manobra para questionar o poder instituído; até que ponto temos uma política comunicacional do Governo que dá mais importãncia à transparência ou ao controle da informação. Até que ponto podemos acreditar vagamente no que nos dão a ver.

Porque isso explicará também muita coisa sobre o passado recente deste Governo – e na área da Educação a aliança Governo/Comunicação Social funcionou quase na perfeição durante perto de 2 anos -, muito do que nos esperará durante a segunda metade deste mandato e ainda muito do esforço que seremos ou não obrigados a fazer para descodificar as mensagens comunicacionais com que somos e seremos bombardeados.

Se para alguma opinião pública parece ser Sócrates que irá ser escrutinado logo mais à noite, eu muito sinceramente acho que é em José Alberto Carvalho que estará a parte mais importante de tudo. O que perguntará e como, os silêncios que ficarão por responder e o tipo de contraditório que estará em condições de ir fazendo.

Ou seja, se o guião do evento está já predefinido, fechado e selado, resultando de um acordo de bastidores, ou se afinal existe ainda serviço público com um mínimo de autonomia.

Neste momento exacto, as minhas esperanças não são muitas.