Sexta-feira, 6 de Abril, 2007


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Rene Magritte (1964), Filho de Homem
(versão século XXI no BlogOperatório)

As equivalências e os termos assinados,
Que na ocidental raia Lusitana,
Por cursos nunca antes frequentados,
Passaram ainda além dos seis dias da semana,
Em betão armado e pré-esforçado,
Mais do que prometia a desfaçatez humana,
E entre gente bem mais douta edificaram
Novo currículo, que tanto sublimaram;

E também as notícias gloriosas
Daqueles feitos, que foram omitindo
A Lisura, a Hombridade, as Virtudes valerosas
Das corporações que foram destroçando;
E aquele, que por obras viciosas
Se vai da lei da respeitabilidade libertando;
Sobranceiro, entre pares, no plenário,
Cantarei, se a tanto me ajudar o engenho sanitário.

Inês Serra Lopes hoje na Sic-Notícias colocou o dedo em algumas das feridas óbvias da situação do momento e que transcende em muito um caso particular e uma única Universidade.

O ruído propriamente político da Oposição neste momento é nulo, não porque sejam todos muito politicamente correctos e não se queiram aproveitar da situação, mas sim porque há por aí muita licenciatura “oferecida” [sic] e em muitos quadrantes, pois Universidades houve que se especializaram nisso.

E é essa é uma enorme verdade: apesar de todos os seus defeitos, manipulações e distorções a generalidade das Universidades públicas são faróis de excelência e transparência perante o funcionamento de grande parte das privadas. E não se trata só dos favorecimentos ou não favorecimentos a alunos, acrescentaria eu. Trata-se igualmente dos corpos docentes, onde muito boa gente ganha dinheiro só por dar o nome e nunca leccionar, enquanto outros leccionam na base da colocação puramente clientelar.

E que dizer da coincidência do novo reitor (embora exista quem afirme desconhecer o facto) da Universidade Independente ser Jorge Roberto, um quadro de topo da Caixa Geral de Depósitos, que exerceu funções sobre a tutela de Armando Vara, um recém-licenciado da Independente e outrora governante que nomeou António José Morais – o tal que assinou as pautas de quatro disciplinas – para centralizar as adjudicações de empreitadas do Ministério da Administração Interna, sendo que este, enquanto docente, está neste momento sob processo disciplinar na Universidade Técnica, tendo já sido punido devido a absentismo.

Se ligarmos todos estes nomes, juntando-lhe eventualmente outro, relacionarmos os lugares por onde passaram e as curiosas ocorrências que foram acontecendo, encontramos o Portugal Político Provinciano Chico-Esperto no seu melhor. E mais não vale a penas adiantar senão que, por exemplo, apesar de trabalhar há 25 anos, na CGD, Jorge Roberto omitiu esse facto do currículo enviado à imprensa, no qual consta, porém, que tem gosto na prática da horticultura e do yoga. Porquê? Prioridades, certamente.

Dirão alguns que venha o primeiro impoluto nesta matéria atirar pedregulho aos telhados do vizinho sem medo de levar pela mesma medida.

Pois, minhas amigas e amigos, o problema maior é exactamente esse.

E o outro problema -nada menor –  é que são estas figuras que parecem exactamente como vestais ingénuas a rasgar as tristes vestes e a clamar por rigor e a exigir mérito aos outros.

E não vale a pena alegar que em Portugal há a obsessão dos canudos e dos senhores doutores. Isso já foi mais do que é. E se agora é mais isso resulta exactamente de certas parolices inscritas na mentalidade daqueles que deveriam ser exemplares nessa matéria, mas que optam por retocar – à boa e velha moda estalinista – as fotos do passado.

Só que como no filme do Woody Allen o objectivo não é apagar um qualquer Trotsky incómodo é colocar um Zelig onde nunca esteve.

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Após duas caixas tamanho XXL de fotocópias amontoadas, a zona a poente da minha secretária viu descer o nível de papel cerca de um palmo.

Entretanto, acho que apenas desloquei parte do problema com os livros, porque os mudei de lugar, subindo alguns do chão para um estranho amontoado nas prateleiras.

E estes são pouco mais de 10% dos meus problemas, porque esta é apenas meia-parede do antro.

A rendição às evidências é a melhor solução.

Ainda não será hoje. Ainda não será esta Páscoa. Ainda não será antes do Verão.

Que eu arrumo o meu escritório? Afinal só prometo isso há seis meses! O incumprimento ainda não me qualifica para qualquer cargo, mesmo menor, no poder executivo. Acho que vou esperar mais uns tempos.

A página 12 de hoje do jornal Expresso enterra mais uns pregos no caixão da biografia auto-glorificadora que José Sócrates quis fazer passar para o público em busca não se percebe exactamente de que aprovação. Até ao momento a teoria de Ricardo Araújo Pereira na Visão parece a mais lógica – JSócrates precisava de justificar a vinda para lisboa aos pais com a obtenção de um ou mais “canudos”, pois só assim teria a certeza que lhe continuariam a levar leite morno à cama.

Afinal os colegas de turma não se lembram de Sócrates nas aulas, nem do outro aluno que diz que se lembra dele nessas ditas aulas.

Pior: não se lembram de terem aulas com o professor (António José Morais) que assinou quatro das cinco pautas de cadeiras completadas pelo PM, sendo que esse professor passou, em segundo plano, aqueles dos chefes de gabinete e directores de intitutos, por duas vezes por governos do PS, saindo das duas vezes envolvido em polémicas estranhas: a da Fundação para a Prevenção e Segurança onde pontificava Armando Vara (si, também ele se licenciou pela Independente no ano passado) e depois a nomeação de uma empregada de mesa do Centro Comercial Colombo para um cargo razoavelmente bem remunerado no Ministério da Justiça.

Entretanto, Mariano Gago adiou a decisão sobre o encerramento ou não da Universidade Independente.

A mim tudo isto me parece uma infeliz conjugação de coincidências. Mas é claro que eu sou um bocadinho ingénuo e ainda ontem estava á espera que o colhinho da Páscoa triuxesse os ovinhos à minha filha.