Quinta-feira, 5 de Abril, 2007


And between ourselves, and the end at hand,
Save what you can

Gosto de ler, ver e ouvir sempre imensas invocações da opinião pública e dos seus humores para todos os efeitos e conforme as conveniências. políticos – como a nossa MLRodrigues –  que se escudam numa opinião pública pretensamente favorável para (des)fazerem o que (des)fazem. Há outros – como o nosso Primeiro e outros antes del, como o actual Presidente – que quando fazem algo que as sondagens desaprovam, afirmam que é assim que se demonstra coragem política e não cedência ao populismo.

A opinião pública é pau para toda a obra e objcto de muita confusão. Ora a opinião pública está longe de ser algo facilmente definível ou mesmo apreensível. Há a opinião publicada que é algo diferente e existem as sondagens, que são meras amostras recolhidas em condições muito particulares.

A discussão é antiga e a citação que vou usar tem quase 35 anos. É de Pierre Bourdieu, mas até é daqueles tempos em que ele não se importava ainda de ser quase facilmente compreensível por pessoas não sobredotadas no seu vocabulário muito particular. Neste caso, demonstra com alguma clareza que a “opinião pública” como muitos gostam de a evocar ou não existe ou é um conjunto de fenómenos muito diversos. E ainda hoje tem toda a razão.

De forma breve, eu quis dizer que a opinião pública não existe sob a forma que lhe atribuem aqueles que têm interesse em afirmar a sua existência. Afirmei que há de uma parte opiniões mobilizadas, opiniões constituídas, grupos de pressão mobilizados em torno de um sistema de interesses; e da outra parte há disposições, ou seja, a opinião em estado implícito que, por definição, não é opinião se por isso entendermos alguma coisa que se possa formular em discurso com uma certa pretensão de coerência. (…)  a opinião [pública] no sentido da definição social implicitamente admitida por aqueles que fazem sondagens de opinião ou aqueles que utilizam os resultados de sondagens de opinião, digo simplesmente que tal opinião não existe. (Pierre Bourdieu, “L’Opinion Publique n’Existe Pas” in Les Temps Modernes, nº 318, Janeiro de 1973, pp 1308-1309)

11.jpgPor isso vou actualizando o meu perfil aqui no Umbigo, não vá o demo tecer-me alguma partida e exigir-me prova documental do percurso académico. Coisa relativamente rápida, mesmo para alguém que empilha papel a esmo como eu. O mais aborrecido é fazer as digitalizações, mas mesmo isso se faz em alguns minutos. Não é preciso esperar pelo início da próxima semana. Não me critiquem se alguns papéis estão com um ar que tecnicamente se pode designar como encardido, mas é que precisei de os usar algumas vezes para ser admitido nos estabelecimentos de ensino onde frequentei os níveis académicos seguintes e, por exemplo, quando comecei a dar aulas, precisei de autenticar muitas vezes algumas cópias e vai daí os originais foram-se ressentindo. Mas continuam ainda legíveis. Acho que foram todos passados em dias úteis da semana, mas também é verdade que eu sempre andei na Escola Pública.

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(c) Antero Valério

«Em primeiro lugar, vejamos claro quanto à natureza da coisa justificada. Repetiremos o que já dissemos. Este opúsculo contém uma justificação completa da Ditadura Militar em Portugal presente. Com isso justificámos a Ditadura de hoje, em seus fundamentos. Não falámos, porém, particularmente dela. Nenhuma consideração particular importava ao noso argumento, que era geral. Provámos que é hoje legítima e necessária uma Ditadura Militar em Portugal: triplamente o provámos. Se esta, que o é, é composta como convém que seja, ou se se orienta como convém que se oriente, ou se substituirá como convém que subsista – tudo isso é estranho à nossa demonstração. Se amanhã a Ditadura Militar cair, não cairá com ela a justificação dela. O ser necessária uma coisa não implica nem que exista, nem que, existindo, subsista: implica tão-somente que é necessária.» (Fernando Pessoa, O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal, 1928, ed. 2007, pp. 57-58)

Pois. E o que acharia o génio de Fernando Pessoa sobre o que é necessário hoje? Será que a também “genial” Clara Ferreira Alves terá uma ideia?