Quarta-feira, 4 de Abril, 2007


Este artigo do DN de segunda-feira é apenas mais um texto numa linhagem com muitas décadas de textos, muitos deles académicos e resultantes de estudos sociológicos mais ou menos profundos que se dedicaram a demonstrar algo óbvio, mas que nem por isso deixa de carecer de demonstração: os alunos de meios familiares menos favorecidos do ponto de vista económico, social e cultural têm, em termos estatísticos, uma desvantagem comparativa assinalável em matéria de sucesso escolar e de duração da própria escolaridade.

Isso está escrito e reescrito desde as obras de A. H. Halsey até às de Bourdieu, passando por Christopher Jencks, Basil Bernstein, Raymond Boudon e tantos outros que sublinharam o papel da Escola como mecanismo de reprodução das desigualdades sociais no mundo capitalistas (Bowles e Gintis) ou como mecanismo inculcador da ideologia dominante (Althusser). E não me estou a esquecer de outros mais novos que apenas voltam a digerir o que os clássicos antes deles demonstraram.

Não há necessidade excessiva de repisar no molhado, embora exista sempre o interesse de recordar que a Educação não é a grande niveladora das desigualdades que muitos gostariam que fosse. (Mas também não é mera reprodutora de desigualdades e aí já chegaremos.)

Pessoalmente reconheço méritos a estas demonstrações e teorizações, mas também lhes encontro limitações causadas pelo seu excessivo determinismo social. Os constrangimentos existem, fazem-se sentir num plano geral, mas os indivíduos podem ter a capacidade de romper essas limitações.

Como alguns dos próprios autores sublinham (Bendix, Bourdieu, Boudon, só para ficar pela letra B), quando um determinado indivíduo ou família atinge determinado estatuto ou capital social e/ou cultural, é-lhe mais penoso sentir que a geração seguinte não atinge pelo menos o mesmo patamar de “sucesso” ou que não consegue ir mais além. Para quem é licenciado isto significa, em termos simplistas mas expressivos, que é mais “doloroso” que a descendência não atinja esse grau académico e interrompa os seus estudos. Comparativamente, quem não atingiu esse “capital” ou essa “certificação” não sentirá tanto desgosto se a sua descendência não chegar lá. Ou seja, a mobilidade nestes casos é sempre pressionada no sentido ascensional e parece ser sentida de forma naturalmente mais dramática quando o sentido é inverso (isto já é repetição do que escrevi por aqui há uns meses e é revisão da matéria dada).

A propósito dessa peça jornalista, no De Rerum Natura, Desidério Murcho elaborou um bom texto com o qual concordo nos principais aspectos e na linha lógica seguida, excepto num ponto relativamente fulcral.

A certa altura afirma-se que «o verdadeiro problema é este: a escola não sabe ensinar quem não vem ensinado de casa.»  Ora eu discordo frontalmente disto, colocado desta forma assim lapidar.

A minha experiência demonstra-me – e essa experiência acumulou-se na sua esmagadora maioria a trabalhar com jovens que não foram ensinados em casa e cujo desempenho na escola é acompanhado de forma muito deficiente – o inverso. A Escola sabe ensinar quem não é ensinado em casa e é exactamente nisso que ela desempenha, com todas as eventuais fragilidades, melhor o seu papel. E é, em especial no caso da Escola Pública, aí que está grande parte da sua relevância social.

Não significa isto que a Escola não acompanhe ou não deva acompanhar com atenção quem já vem ensinado de casa. Mas é função essencial da Escola – e não me digam que essa é uma função de inclusão ou aculturação ou socialização forçada e homogeneizadora (sim, já estou quase a ver as objecções do h5n1) exactamente ensinar aqueles que não são ensinados em casa.

Com maior ou menor sucesso, admito-o. Mas pelo menos com boa parte de sucesso. Bem mais do que a opinião publicada parece querer admitir e que a informação disponível nos meios de comunicação social deixa transparecer para a aopinião pública.

Mas se a teoria de DMurcho, assim naquela sua forma e fórmula simples, fosse válida, a sociedade não seria dinâmica e não existiriam movimentos ascensionais em termos educativos de geração para geração, incluindo nesse movimento as camadas mais desfavorecidas.

Eu sei que a minha experiência vivencial, também acumulada a partir desses meios desfavorecidos e com observação directa de numerosíssimos casos desde a infãncia de abandono e insucesso escolar, até seria tendente a aceitar como boa e válida a teoria da reprodução do insucesso, da pobreza, da exclusão. Mas a verdade é que não consigo aceitar esse determinismo puro e duro que, de algum modo, promove atitudes de resignação do tipo é assim porque não pode ser de outro modo.

Não, não tem necessariamente que ser assim. E só o é num plano geral de análise sociológica preocupada com as médias e os grandes números.

E a Escola – não sendo o grande rolo nivelador que certos eduqueses gostariam que fosse – também não é uma desnecessidade, nem é uma instituição incapaz de ajudar, pelo menos em parte, aqueles que mais dela precisam. Muitas vezes é exactamente a única esperança que permite quebrar o ciclo vicioso. E faz isso, exactamente ensinando aqueles que não chegam à escola já ensinados de casa.

É verdade, eu até já ensinei alguns deles.

Citação algo inspirada por um comentário do H5N1 e pela minha consequente resposta:

Eu venho aqui falar de um diálogo a que poucas vezes se faz alusão. Refiro-me à nossa conversa com os nossos próprios fantasmas. O tempo trabalhou a nossa alma colectiva por três vias materiais: o passado, o presente e o futuro. Nenhum desses materiais parece estar feito para uso imediato. O passado foi mal embalado e chega-nos deformado, carregado de mitos e preconceitos. O presente vem vestido de roupa emprestada. E o futuro foi encomendado por interesses que nos são alheios. (Mia Couto, Pensatempos, p. 10)

E sobre fantasmas e mitos do passado guardo para mais logo Fernando Pessoa, mas aquele que alguns fazem por esquecer.