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Obviamente, o problema está na opacidade da atitude José Sócrates em relação so seu trajecto pessoal e à forma como liberta informação só a muito custo, proibindo mesmo a divulgação de outra.

Toda a peça do Expresso de hoje é uma demonstração – para quem não tem nada a ocultar ou tempo a ganhar para algo – de um desnecessário secretismo e de uma aversão pelo desejo de saber se Sócrates, afinal, falou verdade sobre o seu currículo ou não e se entrou em esquemas facilitistas ou não na sua passagem pela Universidade Independente.

Entretanto, o que se vai sabendo é extremamente gravoso desde já: uma universidade que não mantém a documentação legal a que é obrigada, um poder político (na altura socialista) que não fiscaliza eficazmente o funcionamento do ensino privado e antes é por ele controlado (já o sabíamos há muito, pois na mesma época Marçal Grilo tinha como assessor alguém muito próximo da Moderna), pautas “verdadeiras” destruídas de acordo com um professor (então estas serão o quê?), um reitor que guarda consigo os dossiers de alunos destacados, documentos com datas e dados incongruentes, turmas-fantasma de meia dúzia de alunos com professores-fantasma, documentos lavrados ao domingo. Sei que eram os meados dos anos 90, em que no ensino superior privado havia de tudo e para tudo, mas há limites quanto ao que se pode admitir a quem quer governar um país e, para mais, surge com um discurso de regeneração e purificação do que está mal na Educação e Formação profissional dos portugueses. E ao que parece a ascensão e queda da Independente não será feita sem danos colaterais.

Talvez seja por conhecimento directo que José Sócrates duvide do sistema de ensino. Talvez por isso tenha procurado blindar o ME, colocando lá outro quase conterrâneo irascível da sua confiança e trajecto igualmente sui generis, para a sua investida contra os docentes. Mas deixou a porta semi-aberta do Ensino Superior e agora resta saber até que ponto isso lhe vai ser fatal.

Hoje a generalidade dos títulos em diversos periódicos começa a ser-lhe manifestamente adversa. São as nomeações pouco transparentes e os gastos excessivos dos gabinetes de acordo com dados do Tribunal de Contas (Sol, Público), é a questão do seu percurso académico (Expresso). Enfim, começa a esboroar-se nos media uma imagem fabricada nos e pelos media. Sócrates não é Cavaco, e não o é por esta ou aquela característica idiossincrática essencial, mas porque este último não foi uma mera fabricação dos meios de comunicação social. Sócrates, ainda mais do que Santana Lopes, é apenas algo que funcionou em função da imagem catapultada pelos media. Porque Santana tinha, apesar de todos os seus enormes  defeitos, um passado em nome próprio. Sócrates não, apenas era alguém que tinha aparecido em função de outrem e alimentado por facções do PS. E neste momento, um dos mundos que ajudou a fabricá-lo como homem de Estado providencial parece estar insatisfeito.

Se no duelo com os docentes, os media se mantiveram neutros ou favoráveis a Sócrates e isso foi fatal à classe docente, neste caso o duelo vai ser a muito breve prazo entre os media e Sócrates e o seu esforço por controlar o fluxo de informação. E é novamente um duelo desigual…

A vingança serve-se fria, só é pena que por vezes peque por tardia.