head_scratch.gif1. Preâmbulo

Não gosto muito de trazer para aqui questões muito específicas do meu quotidiano escolar. Porque não gosto de vampirizar o dia a dia que vou tendo e muito menos relações com alunos ou colegas. Mesmo servindo de inspiração e/pu pretexto a alguns posts, não acho que esse seja o registo que mais (me) convém ou, pelo menos, que acho mais interessante num espaço deste tipo. Portanto, o semi-desabafo seguinte é mesmo só “semi” porque acaba por remeter para algo mais geral que são as atitudes dos docentes mas não só perante a avaliação e a forma como flutuam ao sabor do momento e da conveniência ocasional.

2. E um Esclarecimento

Faço parte de um núcleo algo específico de docentes, quase que ousaria entrar pelo conceito sociologês de sub-cultura docente. Faço, pois, parte do 1º grupo de docência do 2º CEB, aquele que lecciona Língua Portuguesa e História e Geografia de Portugal como modo de vidao. Um daqueles grupos, como o de Matemática/Ciências, que desdiz a argumentação valteriana do choque traumático da passagem do 1º para 0 2º CEB porque os alunos passam de um só docente para um por área. Eu dou por regra duas disciplinas e uma ou duss ACND. Mas isso são outras concersas. Ia eu escrevendo que pertenço, dentro desse grupo, ao conjunto de docentes que estão agora na primeira década dos “entas” e que tiraram o seu curso, normalmente de História, durante os anos 80 e que, ou o fizeram até 1985-86 e não tiveram direito a Ramo de Formação Educacional e foram obrigados a profissionalizar-se posteriormente pela Aberta (e não só…), sendo ultrapassados no acesso ao 3º CEB/Secundário pelos licenciados seguintes, ou que acabaram a licenciatura em 1987 ou pouco depois mas renegaram o dito Ramo e acabaram por fazer uma profissionalização em serviço tardia (no 2º CEB, contemplando a Didáctica Espécífica do Português e tudo o resto), após muitos anos de docência. De qualquer modo, e apesar das diferenças, ao longo destes últimos 10-12 anos tenho constatado que é um núcleo de gente com experiências de vida próximas, com muitos pontos de contacto, em especial por causa da identidade geracional que nos fez amadurecer já depois da confusão dos anos 70 e antes da desorientação dos anoss 90, sem desprimor para ninguém que se sinta atingido (estou muito consensual hoje, deve ser da interrupção lectiva…). Por tudo isto temos alguma facilidade de relacionamento, funcionamos com base em pressupostos com muitos elementos comuns, estamos quase todos na mesma fase da carreira e acho que isso nos dá um certo conforto em termos de organização e desenvolvimento do nosso trabalho (é quase como aquelas equipas que, de jogarem juntos há tanto tempo, já sabem para onde devem passar a bola mesmo sem olhar…), assim como da própria avaliação. E é aqui que chegamos ao essencial:

3. O Assunto, Agora Mesmo a Sério

Ora bem, cá chegámos ao que interessa. E o que interessa relaciona-se exactamente com a avaliação. Como em outras Escolas por onde passei, o 1º grupo do 2º CEB, com as naturais excepções, tem um funcionamento que eu consideraria. apreciativamente, como algo coerente. Na minha actual Escola, onde quase todos os QE’s estão entre os 42-45 anos (sou, pois, o benjamim…, exceptuando os dois colegas de QZP), verificou-se que no final do 1º período a avaliação em LP e HGP foi muito próxima, ficando a média ligeiramente abaixo dos 20% de insucesso (eu seu, eu sei, eu contribui para elevar uns pontos a de HGP, mas não se fala mais nisso). Os professores são quase os mesmos, com uma ou outra variação, as turmas têm perfis diferentes, assim como as matérias, mas a média da avaliação nas duas disciplinas variou menos de 1%.

Ora acontece que no 3º CEB se verificou que entre Língua Portuguesa e História a avaliação é muito díspare a ao mesmo tempo diferente da existente no 2º CEB: em LP no 3º CEB o insucesso é muito mais elevado (acima de 30% e quase a raiar os 50% no 9º ano), enquanto em História é muito mais baixo (menos de 10% no 7º ano, só subindo para os 20% no 9º ano). E esta é uma tendência que parece não ser nova.

Ora as conclusões diferenciadas a que alguns(mas) chegaram na análise da relação entre a avaliação desenvolvida nestas áreas entre o 2º e 3º CEB não deixam de ser curiosas: em Língua Portuguesa os docentes do 2º CEB foram acusados de laxismo, demasiado paternalismo e má preparação dos alunos para as exigências do 3º CEB. Em História, embora com um pouco mais de tacto, concluiu-se que os docentes do 2º CEB são demasiado rigorosos e exigentes na avaliação desenvolvida.

Note-se que se fala quase exactamente das mesmas pessoas, que trabalham em ambas as disciplinas com os mesmos alunos e com métodos similares, obtendo resultados equiparados no 2º CEB em ambas as áreas. E prescindo de explicitar outras acusações mais ou menos elegantes que foram atiradas para o ar.

O interessante é que quem procedeu a estas análises parece ter-se esquecido de ver o seu reflexo no espelho e prescindiu resolutamente de se interrogar sobre a questão fundamental: se no 2º CEB a avaliação tem um nível tão próximo nas duas disciplinas, porque é tão diferente no 3º CEB, onde uma disciplina tem o triplo ou mais de insucesso que a outra?

Se formos analisar os elementos em presença, descobre-se com alguma facilidade, através do que é comum e do que muda, a possível explicação para as situações. Sem querer apontar o dedo (mas fazendo-o na prática, nem que seja por omissão…) quer-me a mim parecer que no 2º CEB existe um trabalho que beneficia claramente de um trabalho devidamente articulado por pessoas com percursos profissionais semelhantes e uma atitude devidamente concertada. Não posso avançar mais porque, daqui a pouco, posso ser acusado de defender a homogeneização do corpo docente e de estar a legitimar a política de formação “generalista” dos futuros docentes,

Mas gostaria de pelo menos aqui deixar este relativo desabafo pois há momentos em que um tipo – e todo um grupo de colegas – se sente perfeitamente ensanduichado tanto por isto como por aquilo. Por um lado somos demasiado permissivos; por outro somos demasiado rigorosos. Mas será que o problema, atendendo ao exposto, estará principalmente em nós?