A rábula de ontem, com António de Oliveira Salazar a vencer por larguíssima margem Álvaro Cunhal e Aristides de Sousa Mendes (os do pódio), na escolha para O Maior Português de Todos os Tempos, tem elementos que para mim não são especialmente inesperados ou sequer perturbadores, antes revelando muito sobre aquilo que somos. E isso não muda muito se acreditarmos que a sondagem foi ou não condicionada por estratégias de votação concertada.

Nas leituras de Eduardo Lourenço e José Gil sobre Portugal e os portugueses encontramos boa parte da explicação para esta mistura de saudosismo e memória curta, de retórica em prol da liberdade mas ânsia da segurança providenciada pelo autoritarismo (não confundir com autoridade), de desenrascanço individualista e fascínio por figuras salvíficas e regeneradoras.

Não acredito que existam mais de 40% de salazaristas em portugal, mas acredito que talvez existam 80% de portugueses que viveriam em mansidão uma situação de ditadura suave. Para os que acham que o affair Salazar é apenas o resultado de uma manipulação feita por um grupo de activistas – mais eficaz do que aquele que levou Cunhal ao 2º lugar – eu faria notar que nos 10 seleccionados a maioria correpsonde a figuras a oscilar entre o ditador, o proto-ditador e o governante mais ou menos sanguinário: se nos afastarmos do século XX, seria bom notar que o Marquês de Pombal ou D. João II não foram meninos de coro. Que mesmo o meu estimado Afonso Henriques, apesar da desculpa dos tempos de então, estava longe de ser homem de bom feitio.

Claro que depois a selecção final apresentava os vultos dos Derscobrimentos da ordem, no fundo os pais da globalização, e os poetas maiores de um país que se diz de poetas porque gosta de se singularizar por uma cultura que a maioria desdenha.

Mas o que me interessa é que a vitória de Salazar, sobressaltos epidérmicos à parte, se for encarada sem traumas e medos significa várias coisas, todas relativamente importantes e muito interessantes para nos revermos ao espelho, pois não é credível que na Alemanha, Itália ou França, que têm movimentos de extrema-direita bem mais populares e activos que nós, Hitler, Mussolini ou Pétain vencessem um concurso deste tipo.

  • O apagamento gradual da Memória-História tem custos destes. Assim como a sua construção, quando percepcionada como facciosa, tende a despertar movimentos de recusa. Como incipiente elemento da comunidade de historiadores – nem sei se mereço tal designação e conheço mesmo que ache que a não mereço – sou obrigado a reconhecer o péssimo trabalho feito nesta matéria por muitos daqueles que partilham a minha formação e em especial aqueles que trabalham em História Contemporânea. Virados para a auto-justificação do seu passado e para a demonstração militante dos malefícios do Estado Novo, raramente ajudaram a compreender porque é que ele, mais do que acontecer, permaneceu. Empolar episódios muito afastados no tempo de contestação e demonizar o adversário de forma pouco reflectida são formas erradas para tratar estas questões. Se tentassem compreender os fenómenos em vez de os tentar demonstrar, dando como adquiridos certos aspectos apriorísticos, entre os quais uma generalizada reprovação política e moral, talvez conseguissem um melhor resultado. Por outro lado, também é verdade que o esforço que nas últimas décadas se fez por diminuir a relevância académica e social da História – sendo evocada apenas para questões comemorativas e de instrumentalização política – por parte do poder político acaba por deixar o passado como algo distante e “morto”, como se não fosse útil para compreendermos os nossos dias. O que está obviamente tão errado como tentar encontrar na História lições de eterno retorno.
  • Como povo os portugueses toleram bem uma ditadurazinha, em especial se a percepcionarem como “benigna”, em nome da “salvação da Pátria”, justificada pelo combate aos “abusos” e principalmente direccionada contra os “outros”. Salazar não governou Portugal 40 anos derrotando sucessivas conspirações para o afastar e oprimindo um povo esmagadoramente hostil à sua acção. Essa teoria, muito boa para nos lavarmos e desculparmos nela, é francamente curta. A verdade é que Salazar governou Portugal com uma aquiescência e complacência gerais, apenas sendo perturbado pelas franjas políticas e sociais que ele mais directamente reprimiu ou que, por imperativo ético, se lhe opuseram por questões de princípio. O português suave foi-se deixando ficar, emigrando de forma resignada para tentar viver melhor ou tentando organizar a vidinha cá dentro, e só começou a despertar quando as coisas azedaram e a guerra bateu à porta. Não houvesse Guerra Colonial e tivesse chegado Salazar mais novo ao poder e o Estado Novo teria perdurado bem mais uma década.
  • Este tipo de fascínio mórbido pela figura de Salazar, que um habitualmente detestável e arrogante Jaime Nogueira Pinto soube pincelar com as tonalidades certas para o nosso momento histórico, deriva com naturalidade da pequenez dos políticos que se lhe foram sucedendo, com destaque para os últimos 15 anos, cada vez mais cheios de gente sem carisma fora do ecrã televisivo, sem percurso pessoal e profissional relevante, sem projecto que não o carreirismo, sem qualidades para além da ascensão nos aparelhos partidários. A crescente abstenção foi sendo um sinal que muitos quiseram ler de forma errada, desde a eplicação da abstenção “técnica” devida à não limpeza dos cadernos eleitorais até à abstenção por comodismo e apatia. Mas o problema mais fundo é que muitos portugueses deixaram de ver nos políticos figuras modelares com sentido de serviço ao Estado (boas ou más, não interessa agora esse juízo moral), mas meros figurantes ocasionais em trajecto para algo que melhore a sua própria vida, sacrificando qualquer coerência em por de interesses particulares. Daí igualmente o fascínio por Cunhal, reflexo mimético de Salazar. O cinzentismo, embora com algum receio, fascina-se pelas cores fortes, assim como desde os meus tempos adolescente as meninas bétinhas perfumadas se embeiçam por punks ou metaleiros mal-lavados. Guterres e a fuga do pântano e Durão Barroso e a fuga da tanga foram apenas os epígonos da pequenez de uma classe política nacional, cheia de pseudo-génios sebastiânicos (Vitorino, Borges), de egos inchados sem capacidade de auto-crítica (Santana, Portas, Carrilhos, Soares jr), de gente que se cala em troca de um passeio régio pela Europa (Ferro Rodrigues, Cravinho, mesmo o Soares sr, estando por saber se a sua queda em desgraça não começou no dia em que quis ser Presidente do Parlamento Euopeu) ou que adere a toda a Situação desde que renda lugares de algum destaque (aqui os que restam não cabiam num parênteses civilizado) ou um futuro lugar num grupo económico (seria um parênteses ainda maior, com muitos ex-cunhalistas à espreita).

Portugal é o que é e nós somos o que somos. Há quem me critique por parecer fatalista, por aderir com aparente facilidade ao fado do portuguesismo mítico, à aparente inevitabilidade dos condicionalismos ditados pela mentalidade portuguesa.

Eu cada vez acho mais que apenas mudamos a fatiota e qualidade dos automóveis e algumas casas. Vivemos uma aparência de evolução, mas cá dentro continua o bom e velho portuguesinho que ao fim de décadas ainda escarra no chão – agora acompanhado pelo cãozinho defecante – só dá o litro de chibata no lombo, sendo que encara isso com toda a naturalidade, até o momento em que acha que a chibata lhe anda a bater mais a ele do que aos outros. Desde que a chibatada pareça bem espalhada, a malta continua a dar ao remo nas galés sem se revoltar e/ou cansar. O que de certa forma nos explica Sócrates e a sua visível popularidade nas sondagens…