No início da década de 90 quando leccionava numa Secundária não muito longe da minha actual Escola, um colega, pessoa de modo dócil, via as suas aulas constantemente boicotadas por um grupo restrito de alunos de uma turma do 9º ano (14-16 anos) que o procuravam intimidar e impediam de dar normalmente uma aulas. Num dia de maior abuso, esse professor mandou os alunos sair da sala e eles recusaram. Perante isso, disse que seria ele a abandonar a sala por não estarem reunidas condições para dar a aula. Quando tentou sair barraram-lhe o acesso à porta. Quando procurou afastar um dos alunos, foi agarrado pelo pescoço e pontapeado. Confusão instalada, o professor conseguiu sair da sala e denunciou a situação. Só que o aluno em causa acusou o professor de agressão, embora fosse este que tinha as marcas físicas do sucedido. Num piscar de olhos, já havia queixas para a IGE investigar o caso. Gerou-se uma onda de solidariedade pelo colega, correu um abaixo assinado. Grande parte do corpo docente da Escola não assinou, porque não sabia ao certo o que acontecera, porque não queria chatices. A coisa só não deu mais ondas, porque a inspecção teve o bom senso de arquivar a queixa. O docente em causa desapareceu da escola, com atestado mais do que justificado.

Por estes dias que correm, numa outra Secundária destes arredores. Novamente um professor nem sequer especialmente frágil ou cordato. Também uma turma de 9º ano, só que desta vez com protagonistas femininas. Indisciplina recorrente, com atitudes repetidas de distúrbio da aula. Atitudes desculpabilizantes das EE’s, que acham que “é próprio da idade“, sorrisinhos e “nós fazíamos bem pior”. Em dia de maior caos, uma ordem para sair da sala. Recusa da aluna, desafiando o docente a obrigá-la e declarando que se ele lhe tocasse o acusava de violência e tinha a carreira estragada. E a coisa fica por ali, num equilíbrio instável, no qual o difícil é não perder a face perante uma turma. Que fazer? Como viver as aulas a partir de então? Fazer participação e enfrentar novo desafio, sem qualquer garantia de uma punição exemplar ou de uma intervenção familiar consequente? A opção é por fingir que nada aconteceu. Relatar a ocorrência em termos particulares à DT, “só para que saibas”. E algo vai definhando por dentro.

Mas o que nos vale é que senhores sociólogos observadores da indisciplina nos explicam – a nós que andamos por aí, certamente sem saber o que vemos e ouvimos – que nada disto é generalizado, nada disto é real, são coisas da vida, afinal o sistema educativo funciona.

E ficamos tão, mas tão mais descansados…

(…e nada disto se passou comigo, felizmente, mas apenas perto da minha vista, infelizmente…)