Uma das regras que procuro usar quando discuto assuntos que envolvem questões de valorização do desempenho, como é o caso da classificação dos docentes ou mesmo da avaliação dos alunos, é de não procurar usar o rebaixamento do que o outro conseguiu como estratégia para fazer destacar aquilo que eu consegui.

Prefiro, como avaliado ou avaliador, que seja valorizado o que é conseguido, em vez de tentar baixar o valor do que foi feito pelos outros. Nos meus tempos de aluno da Faculdade ficaram-me cravados dois exemplos simbólicos dessa estratégia do mais vale baixar os outros do que subir-me a mim: num caso, uma colega que tinha obtido 13 numa frequência (a dispensa de exame era aos 14, bons tempos…), perante o seu insucesso, argumentava contra o mérito dos que tinham tido 15; ou seja, em vez de demonstrar que valia mais do que 13, preferia tentar baixar a classificação dos que a tinham ultrapassado. No outro caso, um professor que chegou longe, mas na altura era muito verdinho, pespegou a um aluno com o dito 13 porque achava que, apesar de ter um teste que merecia a tal dispensa, por comparação com um outro aluno que tinha tido 14, considerava que o outro deveria ter menos; em nenhum momento lhe pareceu ocorrer que, se calhar, um merecia 14 e o outro 15. Em ambos os casos, o traço comum foi a pequenez de visão dos protagonistas. A preferência pela mesquinhez.

A partir de então sempre me provocou uma certa de urticária quem se ocupa em desdenhar do alheio para se chegar mais à frente. No caso da grelha classificativa para o concurso para professor titular nota-se esse tipo de reacção de muitos docentes contra o que acham a sobrevalorização dos Mestrados (15 pontos) e Doutoramentos (30 pontos). Num fórum de discussão da Netprof esse é mesmo um dos temas tido como mais polémico.

Não vou negar que tenho interesse directo no assunto pois completei um Mestrado em História Contemporânea em 1995 e espero completar um Doutoramento em História da Educação dentro de um par de meses, se a arte e o engenho me permitirem a coisa. Portanto, aqui fica já assumida a minha declaração de interesses no tema. Não me estou a armar em inocente.

Dito isto, passo a demonstrar o que acho serem os erros fulcrais das argumentações que tenho lido sobre o assunto, usando o meu exemplo pessoal, sempre que acho útil e esclarecedor.

  1. Há quem considere que a obtenção do grau de mestre ou doutor não torna essa pessoa um melhor docente e que isso não deve ser mais valorizado do que as funções docentes regulares. Pode ser que sim, pode ser que não. Depende das circunstãncias. Pior acho que a pessoa não ficará ao alargar e/ou aprofundar a sua formação. Fiz o meu mestrado entre 91 e 95, acumulando com a docência enquanto contratado. Não beneficiei de qualquer licença. Fui professor com horário completo ou incompleto, conforme me saía na roleta do mini-concurso, fui Director de Turma, cumpri as minhas obrigações e, para além disso, fiz o tal Mestrado à moda antiga. Lembro-me de em 93-94 sair de casa ás 8 da matina, ir dar aulas na Arrentela toda a manhã e de Fiat 127 a chispar ir à hora de almoço A2 acima para assistir aos seminários em Lisboa até ás 6 da tarde e depois voltar para trás e recomeçar tudo no outro dia. Não merecerei ser compensado por isso? 15 pontos são muitos? Porquê? Não conta para o período agora em apreço, mas se fosse recentemente, as faltas dadas para fazer testes e apresentar trabalhos diminuiriam a minta pontuação da assiduidade. Acham que o saldo seria muito positivo? Será que ser presidente da Assembleia de Escola com 1 reunião por período vale mais? Ou ser DT? Tudo bem… Lutem pela valorização dessas funções. Não desdenhem do esforço dos outros. Se sou melhor professor por causa do mestrado? Não sei… não me compete a mim avaliar isso. Mas sei que aprofundei os meus conhecimentos e que adquiri técnicas de trabalho e epsquisa na minha área académica que se reflectem naturalmente no meu trabalho quotidiano. E certamente  que aprendi mais do que em acções com powerpoints sonbre o sexo dos anjos.
  2. Outra linha de raciocínio, que entronca na anterior, é afirmar que quem foi fazer um Doutoramento gozando de licança sabática ou equiparação a bolseiro, tem um bónus excessivo de pontos em relação a quem leccionou. Se já procurei demonstrar que se pode fazer um mestrado ou doutoramento e cumprir a generalidade das funções docentes, também me é fácil demonstrar que quem faz um doutoramento recorrendo ao instituto da equiparação pouco fica a ganhar no final em relação a quem leccionou. Basta saber fazer contas e não as fazer de forma parcial. Por cada ano de equiparação, o doutorando perde 6 pontos relativamente a quem leccionou (recebe apenas 1 ponto contra 7). Se usar os 5 anos de equiparação que eram permitidos até há pouco tempo, perde 30 pontos relativamente a quem leccionou, ou seja, no fim dos 5 anos o saldo é nulo. Será que o aumento da formação não equivale à prática lectiva? É uma visão um bocadinho curta e próxima da que actualmente o ME tem em relação á formação obtida fora do círculo da acções promovidas pela própria tutela e Centros de Formação. Mas o que interessa sublinhar é que após 5 anos de trabalho e pesquisa, embora não leccionando, a pessoa recebe os mesmos pontos que aquela que leccionou sem obter outro grau académico. Acresce ainda que se não for aprovada, a pessoa perde objectivamente 30 pontos. Voltando ao meu caso, gozei 3 anos de equiparação, pois nos dois primeiros anos em que a poderia pedir preferi leccionar uma turma de Currículos Alternativos de 2º ciclo, enquanto acumulava com a coordenação do espaço de TIC da Escola e a supervisão dos processos disciplinares (cargo oficioso, sem horas previstas no meu horário). Depois usei os tais 3 anos, durante a qual ficou por gozar uma licença de paternidade. Fiz investigação na área de concluência da minha área científica de origem (História) com a minha prática profissional (Educação) e produzi uma tese tipo cartapácio paga do meu bolso (800 euros de tipografia, mais 300 e tal de registo), na qual se integra uma análise da evolução do nossos sistema de ensino desde meados do século XIX, o que me permite perceber quando os secretários de Estado não percebem do que falam quando usam argumentos falacciosos, paguei bibliografia, deslocações e propinas do meu bolso, não falando do material informático, do portátil da praxe aos consumíveis. Tudo do meu bolso. Sem autorização para acumular, enquanto bolseiro, outra actividade remunerada. Se tivesse dado aulas tinha poupado muitos milhares de euros. No final, perco 18 dos 30 pontos por causa dos anos de equiparação. O meu saldo positivo em relação aos colegas é de 12 pontos, o mesmo que um mandato de representante de disciplina. É muito? Não, não acho. Não vou estar com atitudes hipócritas. Acho, sinceramente, que o trabalho que fiz me valorizou e amadureceu como docente. Quem acha o contrário é porque, certamente, há muitos anos se limita a mais do mesmo, ano após ano. Lamento muito, mas é a minha opinião. Se acham que o doutoramento está sobrevalorizado, porque não lutam por valorizar o que consideram subvalorizado (é o caso óbvio das Direcções de Turma e da pertença a Conselhos de Turma com turmas problemáticas) em vez de apontarem o dedo a quem investiu, física, intelectual e financeiramente, em tentar ir mais longe e contrariar a ideia de que os profes são uns acomodados, rotineiros e sem outra ambição do que a progressão automática?

Por isso, acho que alguns de nós, realmente acabam por fazer o jogo do Ministério ao apontarem os dedos entre si. Lutem por valorizar o que não está valorizado. Não procurem baixar o pouco que está mais valorizado. Alguém já se lembro de notar que, por semplo, não é valorizada a produção e publicação de trabalhos sobre a prática pedagógica ou de materiais didácticos?

É triste e algo provinciano apoucar o próximo, em vez de promover a obra feita. Para mim uma Direcção de Turma vale todos os pontos que puder ter 3, 5, 7, o que seja. Não me incomoda que sejam mais do que os previstos para um mestrado. Mas aflige-me que haja muito boa gente a quem complique os nervos que o trabalho dos outros seja recompensado. Em especial quando se foge à norma…