Terça-feira, 20 de Fevereiro, 2007


Desculpem lá a digressão pelo quotidiano comezinho, mas desta vez apetece-me descer à terra e concretizar as amarguras e agruras. 

Só para contrariar o mito de que os professores são uma malta cheia de férias e que no Carnaval anda por aí a saracotear-se em tudo o que é Corso, levei parte desta “interrupção lectiva” a rever as avaliações feitas na semana anterior que, por sua vez, já eram uma segunda via da avaliação feita há duas semanas.

Eu explico por miúdos: terça-feira, 5 de Fevereiro foi dia de teste de HGP conforme marcado na primeira aula do período (desde que arranjei um calendário estou super-organizado, uma coisa fabulosa). Para não me estender muito na prosa, vou concentrar-me nos resultados da minha estimada turma H do 6º ano, a recordista em planos de recuperação no final do 1º período, “apenas” 13 em 17 possíveis. Lançando a rede o mais fina possível tinha conseguido pescar uma dezena de classificações positivas, sendo que nenhuma delas acima do chamado bonzinho.

Iniciado o 2º período seria de esperar um qualquer choque – tecnológico, não, mas para aí uma qualquer outra varidedade – que fizesse a turma elevar um bocadinho o rendimento, que é baixo principalmente graças ao que se designa em termos científicos como “desleixo“: ninguém se preocupa com nada, tpc’s nem vê-los, os cadernos de duas em duas semanas têm o aspecto de terem sofrido danos colaterais de uma guerra desconhecida, contactos via caderneta com os encarregados de educação são meros manifestos de boas intenções.

Mas como há sempre esperança – dizem, que eu já começo a ter as minhas dúvidas – lá fiz o meu testezinho sobre uma parte curtinha da matéria, dada com algum cuidado por saber que é algo chata e abstracta para miudagem desta idade, mas que lá se vai fazendo. Refiro-me, obviamente, ao período entre o Bloqueio Continental e o fim das Guerras Liberais, trinta anitos de transição do absolutismo para o liberalismo, muita confusão e teorização que procuro aligeirar o quanto posso. É, por via de regra, uma matéria que dá resultados abaixo da média nas avaliações, mas nada de aterrorizador na maior parte dos casos. Desta vez, até adaptei a ficha ao manual e usei exercícios já feitos na aula.

Triste sina: dezasseis em dezassete almas caridosas ficaram-se pela negativa e um iluminado chegou aos 55%. Isto comigo a dar um bónus de 10% a toda a gente.

Entre a fúria e a dúvida, avisei-os na aula de dia 7 que repetiria a ficha na semana seguinte, sem grandes alterações. Corrigi as anteriores, entreguei-as e fiquei à espera de alguma reacção, visto que os meus raspanetes por vezes são a modos que ásperos.

Semana seguinte: 3ª feira, 12 de Dezembro, lá aviso na aula de Estudo Acompanhado que quem quiser tirar dúvidas é aproveitar que daí a 2 horas lá vem ficha. Dezasseis olhares incrédulos (um aluno faltava) e manifestações diversas de que eu estava a mentir, assim mesmo, sem peias, o professor é “mentiroso“, toma lá e embrulha que é para aprenderes como se deve tratar quem pensa que sabe fazer bluff.

Pronto, ok, tudo bem. Não se fala mais nisso, às cinco horas voltamos a encontrar-nos, mas olhem que não me lembro de vos ter mentido antes em nada.

Chegadas as 17 horas, após entrada em tropel atrasado que os vinte minutos não chegaram para o lanche e a ida ao WC – ó professor, vá lá, deixe-me sair que estou mesmo à rasquinha, ainda me mijo toda (sim, era uma rapariga) – senta-se toda a gente expectante. E a seguir, perante a evidência da nova ficha quase igual à anterior, o coro de comentários sobre afinal ser verdade a promessa que eu fizera cinco dias antes e de novo ao início da tarde.

Claro que estavam todos tão preparados como na semana anterior e nada tinha ficado retido da correcção da ficha, nem um olhar.

Da positiva solitária passei para um par delas – se encarar a coisa pelo lado positivo, aumentei em 100% o sucesso escolar da turma com a minha estratégia brilhante –  sendo que estas duas são de alunos que antes tinham ficado pelos quarentas por centos enquanto o farol da semana anterior, que achara a sua missão cumprida até ao próximo teste, se afunda irremediavelmente.

maria2.jpgMas uma coisa quase todos fixaram: a futura D. Maria II esteve prometida em casamento ao tio e morreu nova e gorda. Isso quase todos fixaram e decidiram partilhar comigo fosse no espaço da questão onde o assunto era vagamente relevante – as condições da abdicação de D. Pedro IV em 1826 – fosse em outros, como a definição de Constituição ou as consequências da Revolução Liberal de 1820.

Mas não devo desesperar pois há sempre margem para melhorar. Eu, claro, porque o erro de tudo isto foi meu, a causa da hecatombe na avaliação só pode ter sido mesmo minha. Preciso de descer mais até ao nível dos alunos, como há quem goste de sublinhar ou de citar outro alguém. Caramba, quando será que passarei a dar o aparecimento do liberalismo político em Portugal apenas com base nas intrigas amorosas e matrimoniais ou nas características físicas dos protagonistas?

Morrissey, There’s a Light that Never Goes Out