Segunda-feira, 19 de Fevereiro, 2007


Como em muitas outras matérias, o governo procura também no concurso para provimento de professores titulares demonstrar como é muito moderno e tecnológico, obrigando todos os candidatos a serem-nos através de uma aplicação informática disponibilizada pela Internet (artigos 11º e 14º do documento em “negociação”). No entanto, a comprovação dos elementos constantes no dito formulário é feita mediante fotocópia simples da documentação, a menos que já se encontrem no processo individual do docente.

Posso estar meio baralhado com todas estas modernices mas, se o processo pretende ser todo electrónico, para que servem as fotocópias e de que modo é que elas se integram no processo de candidatura? Existe um formulário electrónico com os elementos apresentados pelo candidatos e outro com a pastinha das fotocópias? Percebo que quando um candidato concorre numa escola onde não está colocado, mas tudo o resto me deixa sempre com a sensação de tudo ser feito a pensar no imediato curto-prazo e sem uma perspectiva mais ampla e alaregada de futuro.

Veja-se o que aconteceu com o concurso nacional de professores. Levou-se um par de anos a acertar um programa que conseguisse gerir cerca de 100.000 candidaturas, o que para uma boa aplicação informática é coisa de amendoins. Quando estava tudo aparentemente afinado, quer acabar-se com o concurso e fica-se sem saber se a base de dados entretanto criada servirá para alguma coisa. Para o regime de contratações directas não serve, pois voltou-se ao sistema do bom e velho maço de papelada fotocopiada e autenticada debaixo do braço.

Como alguém que há quase 20 anos (mais exactamente desde os tempos do dBase III+, sendo que uma das minhas primeiras publicações em co-autoria já foi feita com o dBaseIV+ e levei boa parte dos anos 90 a tentar que um amigo me pusesse a funcionar uma outra base de dados já em Clipper), mal ou bem, procurou usar a informática para a criação de bases de dados com vista à seriação da informação (e tenho os livrinhos e artigos publicados para o demonstrar), confunde-me que não seja criada uma base de dados nacional e global não só de todos os professores integrados nos quadros, mas igualmente de todos aqueles que foram passando pelo sistema de forma mais ou menos episódica. O registo dos dados pessoais, académicos e profissionais funcionaria como uma base de trabalho semelhante à das Finanças – só que obviamente menos complicada, porque com muito menos indivíduos – que só seria alterada em caso de necessidade e poderia funcionar como uma plataforma para todas as necessidades de concursos.

Assim apenas se anda a duplicar informação. A aplicação informática para os concursos para titulares irá sobrepôr-se parcialmente à que já existe para efeitos de concurso nacional. No entanto, o conjunto das duas ainda não corresponderá à totalidade dos docentes em exercício. Para não falar na acumulação dos processos de candidatura à contratação directa pelas Escolas.

Afinal, o afamado Choque Tecnológico não poderia passar, na área da Educação, por uma uniformização dos dados recolhidos ou por recolher sobre os docentes, numa base em rede que pudesse ser acessível em todos os pontos do país e que facilitasse e agilizasse efectivamente os procedimentos administrativo-burocráticos?

Ou será que tal ideia é muito à frente, assim demasiado simplex? Ou será que tudo ficaria excessivamente transparente?

Afinal não somos só nós que andamos de candeias às avessas com os indicadores educativos. Em Espanha, os resultados dos últimos relatórios internacionais também andam a fazer mossas na opinião pública.

Na edição de ontem do La Vanguardia vinha uma peça (sem link acessível) sobre os múltiplos males da educação espanhola, sendo que a leitura não é linear. Quanto aos males estruturais apontam-se a diminuição do investimento no sector, o insucesso escolar e as deficiências nas aprendizagens realizadas de acordo com os dados do PISA.

Mas muito mais interessante, vinha uma pequena caixa de texto da autoria de Manuel Asensi Pérez, professor catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Universidade de Valência com vasta obra acessível, obde se reflecte sobre aquilo que para ele é a Pedagogia Pervertida, uma noção com um interessante potencial:

vanguardia.jpg

Utilizo a expressão pedagogia pervertida não para propôr uma preversão da pedagogia, mas sim para afirmar que ela já está pervertida. Isto pode soar provocatório, mas nada mais distante da realidade: é uma simples descrição de um facto de graves consequências. Mas, porque digo que a pedagogia está prevertida? Desde o momento em que descobrimos que a criança, o adolescente ou simplesmente o aluno não parecem existir mais do que para satisfazer as expectativas e as exigências dos adultos e dos pedagogos profissionais, aclara-se de imediato o sentido da preversão a que me estou a referir.
(…)
Assim, pois, a criança é um continente desconhecido que não resulta acessível. (…) Dito de outra maneira: o adulto inventa-o. Claro está, o que diz dele não corresponde à realidade, mas é o produto de uma efabulação que obedece a interesses ideológicos.

Se é verdade que Asensi Pérez entra em outras passagens por domínios de que discordo, este excerto corresponde quase na perfeição ao que penso de muitas efabulações retóricas sobre a Educação e a Pedagogia. Mais do que olharem para a Escola, para os alunos, para os docentes, para o quotidiano escolar, os seus ritmos, tempos e espaços, muitos políticos e pedagogos efabulam sobre a Escola e a Educação, projectando nas suas construções teóricas mais os seus fantasmas ou interesses pessoais do que um olhar que não pode ser neutro mas que poderia tentar entrar mais no que  lhe é exterior e cada vez mais estranho.

Ao ler certas obras, ao analisar certas teorizações, encontro nelas mais o autor aprisionado nas suas experiências pessoais de um tempo passado, do que uma tentativa de compreensão do que o rodeia. Se é certo que na Educação foram várias as coisas que não mudaram, é mais do que certo que muitas mais não mudaram nas cabeças de certos construtores dos discursos científicos e políticos sobre a Educação. Por agora não vou fulanizar, mas ler certos autores é como mergulhar de novo numa escola que já quase não existe e que em Portugal se foi desagregando desde os anos 70. Eu sei, pois andei por lá e apercebi-me das mudanças. Mas as análises são atraiçoadas pela memória e os diagnósticos são perturbados por dores passadas, sendo que os remédios propostos são quase como que ajustes de contas.

Talvez por ter experimentado uma vida escolar equilibrada entre as dificuldades de um  contexto espacial e temporal muito específico e a ausência de traumas profundos na minha relação com os docentes (odiozinhos especiais à parte, que não justificam generalizações abusivas) e a própria escola, assim como por ainda ter dentro de mim uma boa parte da criança que fui (e garanto que é uma criança não apenas em espírito, visto que neste momento pesa bem uns 20 quilos), tento compreender como pensarão e se sentirão os meus alunos em dados momentos, mas não procuro encontrar neles exactamente o que eu pensava e como me sentia e muito menos procuro (re)agir com eles como se estivéssemos numa situação de há 30 anos.

Porque não há pior erro do que tentar, abusivamente, extrapolar e considerar válido generalizar experiências e sentimentos pessoais para indivíduos e contextos diferentes. O nosso trajecto enaquanto alunos pode conduzir-nos em alguns troços como professores, mas nunca deve servir para projectarmos o nosso passado em todos os momentos do presente que nos vai surgindo.

E, sinceramente, há muitas visões da Educação e da Pegagogia – políticas ou “científicas”, já o escrevi – que me parecem mais espelhos dos seus protagonistas do que olhares sobre o mundo exterior.