Domingo, 18 de Fevereiro, 2007


Na sala de aula, há vários erros que podemos cometer. E, como são vários, nós cometemos muitos. O primeiro é economizarmos o tempo e esquecermos a parte concreta, vamos directos para a abstracta. É o erro mais frequente. qual é o resultado? As crianças não entendem. Há um outro erro que é ficarmos pelo concreto e não nos abstrairmos, não avançarmos. E isto conduz a lugar nenhum. Há um terceiro erro, que é estar na sala de aula – e, desta vez, falo do lado dos alunos – e ter preguiça de se envolver num processo que exige esforço nessa passagem do concreto para o abstracto. Acredito que cada vez é mais difícil pedir isso às crianças. Porque os próprios meios de comunicação social vão na direcção contrária. As nossas crianças estão a ser alimentadas por informação superficial que não exige esforço, tem proveito imediato e que é compatível com uma certa preguiça mental. (Marcelo Viana, matemático e investigador que vai receber o Prémio Universidade de Coimbra, aqui em entrevista ao Público).

Se juntarmos a esta passagem uma outra em que declara que existe Matemática para tudo, menos para entender os seres vivos – algo que os cientistas medidores das quantidades educativas provavelmente nunca perceberão – temos aqui homem para seguir com atenção (e era giro que o Público indicasse os links correctos na sua peça e não se enganasse nos dois que insere na edição em papel).

Já sei que para certas correntes de opinião, até o fenómeno das mudanças climáticas é causado pela incompetência e falta de mérito dos docentes portugueses, a que alguns colegas normalmente designam como os “outros“, aquela turba de incompetentes, que deveria andar a lavar o chão dos sanitários públicos. Não é para ressabiar aqui nada, mas apenas reparo como essa forma de tratamento entre teóricos “pares” é completamente contraditória com as teorias pedagógicas perfilhadas em espalhadas aos quatro ventos em tom e pose profética. É que me irritam certas sobrancerias. Mas adiante que hoje é Domingo de Entrudo.

Só que por vezes a caricatura parece verdadeira: se o clima aquece deve ser porque os docentes portuguerses e do ensino não superior (é importante resalvar tudo isto para manter tudo claro) andam demasiado encrespados e agitados; se o clima arrefece, é porque a nossa massa cinzenta deve ser um autêntico bloco de gelo; se faz vento é porque espirramos; se faz chuva é poque não tapámos a boca com o lenço; se faz granizo, enfim…

Só que desta vez, não sei bem como dar a volta a este tipo de indicador da OCDE (o relatório completo, encontra-se neste espaço, pelo menos em língua castelhana), que indica que numa amostra de 24 países, Portugal encontra-se m 19º lugar em termos de bem-estar material infantil, sendo que esse indicador resulta da agregação de três factores: pobreza relativa de rendimentos (quantidade de crianças que vivem em zonas com rendimentos abaixo de 50% das médias nacionais), nível de desemprego familiar (peso relativo das crianças de famílais com os adultos desempregados) e pobreza declarada (nível de crianças que assumem a existência de poucos rendimentos na família, fracos recursos educativos e nº reduzido de livros no agregado).

Atendendo a que os faróis escandinavos que agora iluminam os nossos governantes nestas matérias da educação, formação e qualificação estão nos 4 primeiros lugares, eu ousaria – será que de forma perfeitamente irresponsável? – estabelecer uma qualquer variedade de relação ou conexão entre o bem-estar material das crianças e alguns indicadores educativos que nos atormental, como é o caso do abandono escolar. Eu sei que perto de nós também estão os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, que nos habituámos a considerar mais desenvolvidos do que nós, mas cuja sociedade sofreu fortes mutações nos últimos 25 anos que acentuaram imenso os fossos de carácter socio-económico, com um enorme aumento da pobreza desde os anos 80 quando os respectivos sistemas de protecção social foram revirados pela dupla Reagan-Thatcher, assim como também a Educação por ´lá deixou de apresentar as performances de outros tempos.

Mas se nos lembrarmos de relacionar estes indicadores todos (educação, vulnerabilidade económica e disparidade crescente de rendimentos) talvez cheguemos a um qualquer tipo de conclusão – preliminar, claro, o mais provisória que é possível, mera suposição se assim o quiserem os mais críticos – que não vai dar necessariamente à culpa dos docentes.

Ou será que estou a ver mesmo mal a coisa?