De acordo com citação recolhida no Sol pelo Miguel Pinto do  outrÒÓlhar, a nossa sempre estimada e coerente Ministra da Educação justifica em parte o desaparecimento das provas globais – cujo mérito, verdade seja dita, era reduzido devido à forma como estavam concebidas e têm sido praticadas – com o facto de, sendo «localmente construídas, são localmente viciadas».

Este tipo de argumentação, com tudo o que de obviamente infeliz contém tanto em termos de pensamento subjacente como da já proverbial falta de tacto, é perfeitamente coerente com a sua forma de encarar os professores de forma enviesada, preconceituosa e desconfiada. Os exames nacionais, quase todos os anos polvilhados de erros, não lhe levantam reservas; as tlebices de cientificidade mais do que contestada por professores do ensino superior e intelectuais de nomeada (note-se que não refiro de professores do ensino básico e secundário, que esses são naturalemente irrelevantes) não parecem suficientes para sair a tal prometida portaria; o grande porblema são as provas globais, localmente construídas pelos professores, esses manifestos viciadores dos instrumentos de avaliação. Só não percebo o que MLR entende por viciar tais provas; se o problema é a manutenção de altos níveis de insucesso escolar, suponho que o vício dos docentes será fazer provas demasiado exigentes. É que se é o contrário – provas demasiado acessíveis – é toda uma linha de argumentação rodriguista que fica em cheque.

Mas se é coerente na sua visão distorcida da acção dos docentes, esta desconfiança quanto ao valor das provas globais, por serem «localmente construídas» parece ser estranhamente paradoxal quanto à crença afirmada nas virtudes regeneradoras dos concursos locais (e aqui Miguel Pinto acerta em cheio). Se localmente os docentes viciam provas de aferição, como se explica que depois os conursos para contratação directa sejam virtuosos?

Ou será que os concursos, como são promovidos pelos CE’s – que MLR tanto aparenta querer arregimentar para o seu lado, parecendo acreditar que são todos da maior transparência e lisura de processos, apesar de terem sido eleitos com base num sistema que considera ser errado e não meritocrático – serão sempre concursos exemplares e que as provas de aferição, por serem feitas pelos malfeitores dos professores rasos, são naturalmente viciáveis e viciadas?

É que este tipo de raciocínio (?!), que se traduz por regra numa visão amesquinhante dos “outros”, revela mais sobre a própria forma de ser e pensar de quem o desenvolve, do que propriamente acerca daqueles sobre quem incide.

Ora como lá diz o ditado, quem não se fia…