Há certas coisas que me confundem em alguns discursos sejam eles  ditos “científicos” ou meramente panfletários sobre a Educação. Por um lado critica-se a sobrecarga curricular e dos horários dos alunos, que os deixam sem tempo para brincar e ser crianças e jovens de forma plena. Mas por outro lado clama-se pelo preenchimento de todos os horários livres dos alunos com mais e mais actividades na escola, como se essa fosse a solução para o insucesso escolar. E o mais estranho é que estas duas faces do discurso partilham muitas vezes os mesmos emissores. Depende do dia, do público e das circunstâncias. A coerência, é claro, nem sempre é bem-vinda.

Se algo me restou na memória dos tempos de estudante, e essa é uma recordação partilhada por muitos antigos ou actuais colegas, é que a Escola é um pouco de tudo, incluindo a instrução socializadora, mas igualmente a socialização pura e simples, a das brincadeiras e dos afectos. Porque a Escola deve ser trabalho árduo, mas igualmente pausa lúdica.

  • Ao contrário dos que defendem uma Escola onde o saber deve ser obrigatoriamente uma actividade permanentemente lúdica e estimulante para os alunos, eu acho que existem momentos que devem ser encarados quase exclusivamente como de trabalho e esforço, onde não é necessário ou indispensável que esteja presente um elemento de prazer. Há momentos de obrigação e dever. Não apenas de descoberta prazenteira.
  • Mas também ao contrário dos que defendem uma Escola onde todo o horário livre deve estar ocupado com actividades ditadas superiormente e de onde devem ser expurgados todos os acidentes inesperados, considero que é essencial que a Escola saiba que é necessário dosear o trabalho com momentos de lazer despreocupado, de convívio o mais descontraído possível, sem a omnipresença dos professores.

Se devem existir momentos e espaços de transição fluida entre trabalho e lazer, onde ambos coabitam de forma pacífica, também é essencial que fiquem claramente definidas as esferas onde é predominante uma dessas actividades e que essa diferenciação seja clara.

Só um planeamento devidamente doseado de tudo o que a Escola pode oferecer, de trabalho e de pausa, de esforço e brincadeira, de concentração e de despreocupação, permite retirar o melhor rendimento dos alunos. Uma excessiva complacência provoca alguma deficiente consciência dos objectivos a atingir, assim como um apertado rigorismo leva a uma pressão e desgaste prematuro dos alunos.

O que eu actualmente encontro nos alunos, em virtude de uma irrazoável propensão para preencher todos os tempos livres dos alunos, muitas vezes com actividades tidas como educativas, mas meramente redundantes, é uma alteração dos seus ritmos normais de rendimento escolar, fenómeno que não tem merecido o devido estudo, pois suponho que as conclusões seriam pouco favoráveis.

O alargamento dos períodos lectivos e a obsessão do preenchimento dos tempos vagos dos alunos, em especial na faixa etária pré-adolescente e adolescente que corresponde aos 2º e 3º CEB, está a provocar fenómenos de desgaste dos alunos, com reflexos naturais tanto no rendimento como no comportamento disciplinar.

Quem já deu uma dezenas ou mais de anos de aulas, aprendeu que existem períodos críticos ao longo do ano lectivo, com momentos fortes e fracos ao nível do desempenho e comportamento. Como estive um par de anos sem leccionar, sendo que esses anos corresponderam a um período rico em alterações nestas matérias, notei com alguma facilidade alterações em 2003 e 2006. No primeiro período o rendimento das turmas decaiu ainda em finais de Novembro e, já avançado o 2º período, ainda não conseguiu recuperar, muito pelo contrário. E ao nível do comportamento, também as atitudes disruptivas surgiram, de uma forma quase que de rajada, logo desde finais de Janeiro, bem antes do Carnaval.

São meras constatações empíricas, sem uma amostra ou fundamentação alargada. Mas têm alguma lógica em função das alterações verificadas no quotidiano dos alunos. Não digo que tudo devesse ficar como estava; nem afirmo que os “furos” são um bem absoluto. Mas têm as suas vantagens na descompressão da vida escolar das turmas, enquanto grupo que se reorganiza de forma diferente fora da sala de aula, e dos indivíduos, que nesses tempos procuram aprofundar as suas afinidades.

Quando se afirma que lá fora se trabalha mais nas escolas do que em Portugal, eu gostaria que isso fosse demonstrado sem sofismas. Porque as pausas lectivas a meio dos períodos, em especial do primeiro, são uma realidade em muitos países com resultados bem melhores do que os nossos. E são claramente úteis para todos os agentes envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Sei que entre nós são factores de perturbação na vida das famílias, que opinadores como MSTavares se apressam a fazer-nos lembrar, mas infelizmente essas perturbações são apenas sinal do nosso atraso e da forma errada de organização da nossa vida laboral e da falta de uma concepção diferente das pausas lectivas.

Porque as Escolas até poderiam continuar a funcionar e a acolher os alunos. Só que em outros moldes, de frequência voluntária, com uma oferta diferente de actividades, eventualmente até animadas por alguns docentes mas principalmente por outro tipo de profissionais.

A verdadeira autonomia das escolas deveria passar pela possibilidade de desenvolver uma forma criativa de organizar os currículos e o calendário escolar, sem uma pré-determinação rígida por parte da tutela que se limita a dar apenas a hipótese de gerir três ou quatro dias num ano lectivo. Definidos os objectivos a atingir, deveria existir efectiva liberdade de gerir o ritmo das aprendizagens, dosenado momentos-fortes de trabalho com pausas retemperadoras. Isso sim seria uma abordagem “liberal” da escola e promotora de efectiva autonomia.

Enquanto estivermos todos condicionados, em virtude de uma visão simplista e redutora das coisas, a trabalhar mais em quantidade, sem que isso se traduza em ganhos de produtividade, ficaremos encerrados num ciclo em que os ganhos serão nulos ou mínimos.

Para quem aprendeu rudimentos de modelos de desenvolvimento económico – e pelo menos um dos elementos do trio ministerial tem obrigação disso – sabe que existe a chamada lei dos rendimentos decrescentes que postula que, a partir de um determinado limite, a extensão de uma cultura acaba por implicar uma perda de produtividade. No caso da Educação acho que existe uma situação semelhante.

Nem sempre mais é melhor. Nem sempre sobrecarregar os horários dos alunos com aquilo que são actividades redundantes se traduz em qualquer ganho ao nível das aprendizagens e competências. Eles podem estar mais tempo nas aulas, mas não ficam mais competentes com isso. Apenas mais cansados, frustrados e contrariados.