Sábado, 17 de Fevereiro, 2007


De acordo com citação recolhida no Sol pelo Miguel Pinto do  outrÒÓlhar, a nossa sempre estimada e coerente Ministra da Educação justifica em parte o desaparecimento das provas globais – cujo mérito, verdade seja dita, era reduzido devido à forma como estavam concebidas e têm sido praticadas – com o facto de, sendo «localmente construídas, são localmente viciadas».

Este tipo de argumentação, com tudo o que de obviamente infeliz contém tanto em termos de pensamento subjacente como da já proverbial falta de tacto, é perfeitamente coerente com a sua forma de encarar os professores de forma enviesada, preconceituosa e desconfiada. Os exames nacionais, quase todos os anos polvilhados de erros, não lhe levantam reservas; as tlebices de cientificidade mais do que contestada por professores do ensino superior e intelectuais de nomeada (note-se que não refiro de professores do ensino básico e secundário, que esses são naturalemente irrelevantes) não parecem suficientes para sair a tal prometida portaria; o grande porblema são as provas globais, localmente construídas pelos professores, esses manifestos viciadores dos instrumentos de avaliação. Só não percebo o que MLR entende por viciar tais provas; se o problema é a manutenção de altos níveis de insucesso escolar, suponho que o vício dos docentes será fazer provas demasiado exigentes. É que se é o contrário – provas demasiado acessíveis – é toda uma linha de argumentação rodriguista que fica em cheque.

Mas se é coerente na sua visão distorcida da acção dos docentes, esta desconfiança quanto ao valor das provas globais, por serem «localmente construídas» parece ser estranhamente paradoxal quanto à crença afirmada nas virtudes regeneradoras dos concursos locais (e aqui Miguel Pinto acerta em cheio). Se localmente os docentes viciam provas de aferição, como se explica que depois os conursos para contratação directa sejam virtuosos?

Ou será que os concursos, como são promovidos pelos CE’s – que MLR tanto aparenta querer arregimentar para o seu lado, parecendo acreditar que são todos da maior transparência e lisura de processos, apesar de terem sido eleitos com base num sistema que considera ser errado e não meritocrático – serão sempre concursos exemplares e que as provas de aferição, por serem feitas pelos malfeitores dos professores rasos, são naturalmente viciáveis e viciadas?

É que este tipo de raciocínio (?!), que se traduz por regra numa visão amesquinhante dos “outros”, revela mais sobre a própria forma de ser e pensar de quem o desenvolve, do que propriamente acerca daqueles sobre quem incide.

Ora como lá diz o ditado, quem não se fia…

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(c) Antero Valério

… talvez seja mesmo útil que levem a sério e a mal.

Há certas coisas que me confundem em alguns discursos sejam eles  ditos “científicos” ou meramente panfletários sobre a Educação. Por um lado critica-se a sobrecarga curricular e dos horários dos alunos, que os deixam sem tempo para brincar e ser crianças e jovens de forma plena. Mas por outro lado clama-se pelo preenchimento de todos os horários livres dos alunos com mais e mais actividades na escola, como se essa fosse a solução para o insucesso escolar. E o mais estranho é que estas duas faces do discurso partilham muitas vezes os mesmos emissores. Depende do dia, do público e das circunstâncias. A coerência, é claro, nem sempre é bem-vinda.

Se algo me restou na memória dos tempos de estudante, e essa é uma recordação partilhada por muitos antigos ou actuais colegas, é que a Escola é um pouco de tudo, incluindo a instrução socializadora, mas igualmente a socialização pura e simples, a das brincadeiras e dos afectos. Porque a Escola deve ser trabalho árduo, mas igualmente pausa lúdica.

  • Ao contrário dos que defendem uma Escola onde o saber deve ser obrigatoriamente uma actividade permanentemente lúdica e estimulante para os alunos, eu acho que existem momentos que devem ser encarados quase exclusivamente como de trabalho e esforço, onde não é necessário ou indispensável que esteja presente um elemento de prazer. Há momentos de obrigação e dever. Não apenas de descoberta prazenteira.
  • Mas também ao contrário dos que defendem uma Escola onde todo o horário livre deve estar ocupado com actividades ditadas superiormente e de onde devem ser expurgados todos os acidentes inesperados, considero que é essencial que a Escola saiba que é necessário dosear o trabalho com momentos de lazer despreocupado, de convívio o mais descontraído possível, sem a omnipresença dos professores.

Se devem existir momentos e espaços de transição fluida entre trabalho e lazer, onde ambos coabitam de forma pacífica, também é essencial que fiquem claramente definidas as esferas onde é predominante uma dessas actividades e que essa diferenciação seja clara.

Só um planeamento devidamente doseado de tudo o que a Escola pode oferecer, de trabalho e de pausa, de esforço e brincadeira, de concentração e de despreocupação, permite retirar o melhor rendimento dos alunos. Uma excessiva complacência provoca alguma deficiente consciência dos objectivos a atingir, assim como um apertado rigorismo leva a uma pressão e desgaste prematuro dos alunos.

O que eu actualmente encontro nos alunos, em virtude de uma irrazoável propensão para preencher todos os tempos livres dos alunos, muitas vezes com actividades tidas como educativas, mas meramente redundantes, é uma alteração dos seus ritmos normais de rendimento escolar, fenómeno que não tem merecido o devido estudo, pois suponho que as conclusões seriam pouco favoráveis.

O alargamento dos períodos lectivos e a obsessão do preenchimento dos tempos vagos dos alunos, em especial na faixa etária pré-adolescente e adolescente que corresponde aos 2º e 3º CEB, está a provocar fenómenos de desgaste dos alunos, com reflexos naturais tanto no rendimento como no comportamento disciplinar.

Quem já deu uma dezenas ou mais de anos de aulas, aprendeu que existem períodos críticos ao longo do ano lectivo, com momentos fortes e fracos ao nível do desempenho e comportamento. Como estive um par de anos sem leccionar, sendo que esses anos corresponderam a um período rico em alterações nestas matérias, notei com alguma facilidade alterações em 2003 e 2006. No primeiro período o rendimento das turmas decaiu ainda em finais de Novembro e, já avançado o 2º período, ainda não conseguiu recuperar, muito pelo contrário. E ao nível do comportamento, também as atitudes disruptivas surgiram, de uma forma quase que de rajada, logo desde finais de Janeiro, bem antes do Carnaval.

São meras constatações empíricas, sem uma amostra ou fundamentação alargada. Mas têm alguma lógica em função das alterações verificadas no quotidiano dos alunos. Não digo que tudo devesse ficar como estava; nem afirmo que os “furos” são um bem absoluto. Mas têm as suas vantagens na descompressão da vida escolar das turmas, enquanto grupo que se reorganiza de forma diferente fora da sala de aula, e dos indivíduos, que nesses tempos procuram aprofundar as suas afinidades.

Quando se afirma que lá fora se trabalha mais nas escolas do que em Portugal, eu gostaria que isso fosse demonstrado sem sofismas. Porque as pausas lectivas a meio dos períodos, em especial do primeiro, são uma realidade em muitos países com resultados bem melhores do que os nossos. E são claramente úteis para todos os agentes envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Sei que entre nós são factores de perturbação na vida das famílias, que opinadores como MSTavares se apressam a fazer-nos lembrar, mas infelizmente essas perturbações são apenas sinal do nosso atraso e da forma errada de organização da nossa vida laboral e da falta de uma concepção diferente das pausas lectivas.

Porque as Escolas até poderiam continuar a funcionar e a acolher os alunos. Só que em outros moldes, de frequência voluntária, com uma oferta diferente de actividades, eventualmente até animadas por alguns docentes mas principalmente por outro tipo de profissionais.

A verdadeira autonomia das escolas deveria passar pela possibilidade de desenvolver uma forma criativa de organizar os currículos e o calendário escolar, sem uma pré-determinação rígida por parte da tutela que se limita a dar apenas a hipótese de gerir três ou quatro dias num ano lectivo. Definidos os objectivos a atingir, deveria existir efectiva liberdade de gerir o ritmo das aprendizagens, dosenado momentos-fortes de trabalho com pausas retemperadoras. Isso sim seria uma abordagem “liberal” da escola e promotora de efectiva autonomia.

Enquanto estivermos todos condicionados, em virtude de uma visão simplista e redutora das coisas, a trabalhar mais em quantidade, sem que isso se traduza em ganhos de produtividade, ficaremos encerrados num ciclo em que os ganhos serão nulos ou mínimos.

Para quem aprendeu rudimentos de modelos de desenvolvimento económico – e pelo menos um dos elementos do trio ministerial tem obrigação disso – sabe que existe a chamada lei dos rendimentos decrescentes que postula que, a partir de um determinado limite, a extensão de uma cultura acaba por implicar uma perda de produtividade. No caso da Educação acho que existe uma situação semelhante.

Nem sempre mais é melhor. Nem sempre sobrecarregar os horários dos alunos com aquilo que são actividades redundantes se traduz em qualquer ganho ao nível das aprendizagens e competências. Eles podem estar mais tempo nas aulas, mas não ficam mais competentes com isso. Apenas mais cansados, frustrados e contrariados.