Agora só se fala nisto. Ele é empreendedorismo para cá, ele é empreendedorismo para lá, quando não é empreendedorismo para acoli. Já tem definição na Wikipédia, com aquelas características muito especiais desta enciclopédia online, já tem espaço no site da Associação Nacional de Jovens Empresários (já agora tive 92 pontos no teste sobre as minhas competências como empreendedor e ainda descobri que os jovens empresários não sabem conjugar o verbo “haver”, como se percebe na questão 9, primeira hipótese), o IAPMEI parece entusiasmado, já há cursos sobre a coisa, na Universidade Nova têm até uma “visão holística” (?!) da coisa, e logo com três pilares, não esquecendo ainda que o sempre empreendedor Belmiro de Azevedo já escreveu sobre o assunto.

Mais recentemente o conceito saltou também para a educação não-superior com algum furor e já há projectos sobre a matéria na Direcção Regional de Educação do Algarve, nos Açores, enquanto o ME se entusiasma com a ideia de uma “escola empreendedora” e em Cascais se fazem projectos destinados à «criação de um ecossistema potenciador de Empreendedorismo» nas Escolas Secundárias (confesso que este é até ao momento aquele que me fez rir mais…). Há ainda muitas outras iniciativas espalhadas por instituições do ensino politécnico, estruturas regionais do ME e muito mais.

O empreendedorismo parece estar completamente in. O mais possível.

E eu, como normalmente ando out nestas coisas de modas e de fogachos, olho para a coisa e só encontro uma remodelação – “reconfiguração” está mais de acordo com o zeitgeist e é mais “tecnológico” – com muito verniz do bom e velho desenrascanço. Coisa em que o tuga é formado, diplomado, certificado e pós-graduado há mais de 500 anos.

Desculpem-me lá os mais crentes nas “virtualidades” (é uma palavra que normalmente é mal usada nestes casos) da coisa ou aqueles que me vão passar a considerar uma alma inerte, mas tudo isto me faz lembrar aquele exemplo clássico de empreendedorismo que passava por vender livros sobre como enriquecer em apenas x meses. É metade desenras…, desculpem, empreendedorismo e a outra metade banha da…, desculpem, estratégia agressiva de marketing para gente distraída.

Querem começar a ensinar a rapaziada a ser empreendedora? Então comecem por dar-lhes bons exemplos concretos de sucesso empresarial e mostrem-lhes como se faz, sem ser na base da rasteira ao fisco, da aposta em salários baixos e na subsidiodependência. Fomentem a criação de cursos de formação em áreas críticas da modernização tecnológica, ofereçam estágios, bolsas para iniciar negócios, tudo isso. Se afinal isso é o tal empreendedorismo, não era necessário uma palavra nova. Se é apenas para os ensinar a ser desenrascados, desculpem-me lá mas a maior parte deles já é. Não que isso sirva de muito, é claro, mas são. O que lhes falta são oportunidades e, muito em especial, a crença de quem em Portugal é o mérito e não o artifício que faz a diferença. Porque não é um Belmiro ou duas OPA’s que fazem uma Primavera empreendedora.