Segunda-feira, 12 de Fevereiro, 2007


 

Tamara de Lempicka, La Dormeuse

Agora só se fala nisto. Ele é empreendedorismo para cá, ele é empreendedorismo para lá, quando não é empreendedorismo para acoli. Já tem definição na Wikipédia, com aquelas características muito especiais desta enciclopédia online, já tem espaço no site da Associação Nacional de Jovens Empresários (já agora tive 92 pontos no teste sobre as minhas competências como empreendedor e ainda descobri que os jovens empresários não sabem conjugar o verbo “haver”, como se percebe na questão 9, primeira hipótese), o IAPMEI parece entusiasmado, já há cursos sobre a coisa, na Universidade Nova têm até uma “visão holística” (?!) da coisa, e logo com três pilares, não esquecendo ainda que o sempre empreendedor Belmiro de Azevedo já escreveu sobre o assunto.

Mais recentemente o conceito saltou também para a educação não-superior com algum furor e já há projectos sobre a matéria na Direcção Regional de Educação do Algarve, nos Açores, enquanto o ME se entusiasma com a ideia de uma “escola empreendedora” e em Cascais se fazem projectos destinados à «criação de um ecossistema potenciador de Empreendedorismo» nas Escolas Secundárias (confesso que este é até ao momento aquele que me fez rir mais…). Há ainda muitas outras iniciativas espalhadas por instituições do ensino politécnico, estruturas regionais do ME e muito mais.

O empreendedorismo parece estar completamente in. O mais possível.

E eu, como normalmente ando out nestas coisas de modas e de fogachos, olho para a coisa e só encontro uma remodelação – “reconfiguração” está mais de acordo com o zeitgeist e é mais “tecnológico” – com muito verniz do bom e velho desenrascanço. Coisa em que o tuga é formado, diplomado, certificado e pós-graduado há mais de 500 anos.

Desculpem-me lá os mais crentes nas “virtualidades” (é uma palavra que normalmente é mal usada nestes casos) da coisa ou aqueles que me vão passar a considerar uma alma inerte, mas tudo isto me faz lembrar aquele exemplo clássico de empreendedorismo que passava por vender livros sobre como enriquecer em apenas x meses. É metade desenras…, desculpem, empreendedorismo e a outra metade banha da…, desculpem, estratégia agressiva de marketing para gente distraída.

Querem começar a ensinar a rapaziada a ser empreendedora? Então comecem por dar-lhes bons exemplos concretos de sucesso empresarial e mostrem-lhes como se faz, sem ser na base da rasteira ao fisco, da aposta em salários baixos e na subsidiodependência. Fomentem a criação de cursos de formação em áreas críticas da modernização tecnológica, ofereçam estágios, bolsas para iniciar negócios, tudo isso. Se afinal isso é o tal empreendedorismo, não era necessário uma palavra nova. Se é apenas para os ensinar a ser desenrascados, desculpem-me lá mas a maior parte deles já é. Não que isso sirva de muito, é claro, mas são. O que lhes falta são oportunidades e, muito em especial, a crença de quem em Portugal é o mérito e não o artifício que faz a diferença. Porque não é um Belmiro ou duas OPA’s que fazem uma Primavera empreendedora.

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Graças ao simpático convite do seu editor, J. Matias Alves, passei a colaborar mensalmente no Correio da Educação com uma prosa na casa dos 1200 caracteres. A primeira, espécie de resenha curricular e manifesto de intenções fica já de seguida e a partir de agora num arquivo específico do Umbigo. Como seria natural o primeiro texto tem um título incontornavelmente umbiguista.

A Escola Pública e Eu 

Se descontar uma fracassada semana passada num arremedo de “pré-escola”, entrei no sistema educativo público em Outubro de 1971, acho que numa quarta-feira, dia 6, e por lá tenho permanecido de forma quase ininterrupta, na situação de aluno, de docente ou na de ambas.

Já lá vão mais de 35 anos lectivos em que, se bem me recordo, apenas em 1989/90 não fui nem aluno, nem professor. Mas apenas porque trabalhei numa autarquia local, exactamente na área da Educação. E a partir desse ano colaborei cerca de uma década com um Grupo de Trabalho do ME que organizava visitas de estudo de escolas do interior do país, dos mais variados níveis de ensino e tipo de alunos, à zona de Belém.

Não é que a antiguidade seja um posto ou que a experiência só por si traga necessariamente valor acrescido à opinião de cada um de nós, mas eu tenho a falta de humildade suficiente para achar que talvez tenha uns vagos conhecimentos sobre a forma como a Escola Pública evoluiu nas últimas décadas, aquilo que mudou com excessiva rapidez e aquilo que permaneceu quase inalterado.

De qualquer modo, a minha vida tem sido marcada de forma indelével por essa mesma Escola Pública, que me formou em muito do que sou. E estou-lhe grato por isso. Não sei se fez um grande serviço, mas não encontro razões de queixa que ultrapassem a bondade dos serviços que acho que me prestou. E gostaria que o mesmo acontecesse com a minha filha. Embora não tenha a certeza se…

Por isso mesmo, penso que é essencial defendermos a Escola Pública e tentarei aqui demonstrar como o podemos fazer, destacando tudo o que ela fez e continua a fazer de bom.

Apesar de…