Não é hoje que vou para aqui importar a discussão relativa à matéria substantiva do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Não expressei aqui qualquer posição, embora seja relativamente fácil subentendê-la.

Por isso, vou-me deter aqui apenas na questão da afluência às urnas quando se trata de, individualmente, cada cidadão poder  ter algo a dizer sobre uma decisão concreta relacionada com a vida da comunidade. Sei que a votação foi bem superior à dos dois anteriores referendos; também sei que que o referendo é um instituto ainda novo num sistema democrático, ele próprio ainda imperfeitamente consolidado.

No entanto, como apologista entusiasmado do mecanismo referendário (mas não tanto das eleições tetranuais), não posso deixar de lamentar que ainda estejamos pouco acima dos 40% na ida às urnas para decidir de uma questão que tantos afirmam ser de consciência. Se assim o é, significa isso que quase 60% (certamente mais de 50%, mesmo excluindo os eleitores-fantasma) de portugueses não a tem? Ou apenas que são demasiado comodistas para se darem ao trabalho de assumir uma posição concreta sobre uma situação perfeitamente específica?

Se aquele que considero ser o melhor analista de sondagens do mercado (Pedro Magalhães) pelo meio-dia de hoje já se lamentava no seu blog com o facto de estar a chover, dando a entender que isso iria aumentar a abstenção, é porque realmente os portugueses não têm grande crença no funcionamento da democracia.

Se o referendo ou as eleições são no Verão, é porque está Sol e o povo vai para a praia, se são no Inverno é porque chove e faz vento. Acredito que na Primavera os pólens que andam nos ares desencorajem todos os alérgicos, asmáticos e hipocondríacos de exercer o seu direito cívico, enquanto no Outono deverá ser a mansa depressão típica da estação que desmotivará a deslocação até à mesa de voto.

Tudo serve como desculpa ou justificação, para o que é apenas uma enorme apatia geral perante uma intervenção activa na vida pública. Por isso se percebe que muitos políticos considerem que o depósito do voto de 4 em 4 anos é mais do que suficiente e que no resto do tempo têm carta branca para desdizerem o que bem entendem em relação ao que prometeram.

Aposto que muito boa gente se entusiasmou bem mais com o jogo de futebol, ontem, na Póvoa do Varzim do que com o resultado de hoje. Eu fiquei satisfeito nos dois casos, por isso não é daí que vem o meu desânimo.