Domingo, 11 de Fevereiro, 2007


Não é hoje que vou para aqui importar a discussão relativa à matéria substantiva do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Não expressei aqui qualquer posição, embora seja relativamente fácil subentendê-la.

Por isso, vou-me deter aqui apenas na questão da afluência às urnas quando se trata de, individualmente, cada cidadão poder  ter algo a dizer sobre uma decisão concreta relacionada com a vida da comunidade. Sei que a votação foi bem superior à dos dois anteriores referendos; também sei que que o referendo é um instituto ainda novo num sistema democrático, ele próprio ainda imperfeitamente consolidado.

No entanto, como apologista entusiasmado do mecanismo referendário (mas não tanto das eleições tetranuais), não posso deixar de lamentar que ainda estejamos pouco acima dos 40% na ida às urnas para decidir de uma questão que tantos afirmam ser de consciência. Se assim o é, significa isso que quase 60% (certamente mais de 50%, mesmo excluindo os eleitores-fantasma) de portugueses não a tem? Ou apenas que são demasiado comodistas para se darem ao trabalho de assumir uma posição concreta sobre uma situação perfeitamente específica?

Se aquele que considero ser o melhor analista de sondagens do mercado (Pedro Magalhães) pelo meio-dia de hoje já se lamentava no seu blog com o facto de estar a chover, dando a entender que isso iria aumentar a abstenção, é porque realmente os portugueses não têm grande crença no funcionamento da democracia.

Se o referendo ou as eleições são no Verão, é porque está Sol e o povo vai para a praia, se são no Inverno é porque chove e faz vento. Acredito que na Primavera os pólens que andam nos ares desencorajem todos os alérgicos, asmáticos e hipocondríacos de exercer o seu direito cívico, enquanto no Outono deverá ser a mansa depressão típica da estação que desmotivará a deslocação até à mesa de voto.

Tudo serve como desculpa ou justificação, para o que é apenas uma enorme apatia geral perante uma intervenção activa na vida pública. Por isso se percebe que muitos políticos considerem que o depósito do voto de 4 em 4 anos é mais do que suficiente e que no resto do tempo têm carta branca para desdizerem o que bem entendem em relação ao que prometeram.

Aposto que muito boa gente se entusiasmou bem mais com o jogo de futebol, ontem, na Póvoa do Varzim do que com o resultado de hoje. Eu fiquei satisfeito nos dois casos, por isso não é daí que vem o meu desânimo.

girl.gifboy.gifNa minha Escola foram criadas duas turmas de PCA’s (Percursos Curriculares Alternativos) de 6º ano para tentar enquadrar e trabalhar com cerca de duas dezenas de jovens entre a bi e a tetrarepetência, quase sempre causadas por falta de assiduidade, comportamento disciplinar altamente irregular e/ou (em alguns casos os problemas acumulam-se) abandono escolar.

O historial familiar e escolar de quase todos é de arrepiar as almas mais sensíveis e está nos antípodas de tudo o que certos opinadores que voam alto parecem supôr ser a vida de jovens entre os 12-15 anos. Claro que a maior parte dos problemas que apresentam não estão abrangidos por muitos dos discursos politicamente correctinhos que são despejados regularmente sobre a Escola Pública em defesa do combate ao insucesso escolar. São, em geral, jovens provenientes de contextos económicos desfavorecidos, mas principalmente de famílias completamente pulverizadas e esmagadas pelas condições de vida actual, as materiais e as outras, aquelas que produzem infelicidade e frustração exactamente pelo excesso de promessas e estímulos.

Uma das turmas desde o início que não conseguiu “funcionar”. A química não produziu a chispa desnecessária e o esforço dos meus colegas tem sido quase ionglório. A outra turma (felizmente para mim) “encaixou” nas primeiras semanas de aulas e desde então até início do 2º período foi-se aguentando sem problemas de maior, fazendo todos nós respirar fundo e ter, mais do que a sensação de estar a cumprir a nossa missão, retirar prazer da mudança verificada no comportamento dos alunos. Basta dizer que no final do 1º período era a única turma – embora reduzida a uma dezena de alunos, mas ao mesmo tempo exactamente por causa disso – sem qualquer risco de retenção com base na avaliação. O único caso problemático era o de um aluno com sistemática falta de assiduidade à primeira hora da manhã, pois mudou de residência e a rotina dos transportes alterou-se com resultados catastróficos para a pontualidade.

Entretanto, mesmo ao finalizar o 1º período soubemos que uma das alunas iria deixar de frequentar as aulas, pois a família decidiu mandá-la voltar para a Guiné. Era uma aluna tri-repetente e quando se veio despedir de mim vinha de lágrima no olho (já referi isso há um par de meses) e confessou-me que não sabia qual ia ser o seu futuro, para além de que no próximo ano lectivo deveria ser mandada para casa de familiares na Inglaterra. Foi a primeira má notícia.

As outras más notícias foram surgindo nas últimas semanas: devido a conflitos familiares, um outro aluno parece ver-se na necessidade de acompanhar a mãe numa mudança de residência para a zona a norte de Lisboa. A consequência imediata passa por ser a não frequência das aulas, pois a encarregada de educação afirmou ir procurar onde o matricular. O que ainda não fez. O aluno está completamente desorientado e recusa-se a ir, pois quer continuar na turma e não quer ir para uma escola desconhecida. Pretende ficar até final do ano em casa de familiares. A encarregada de educação parece não ceder. O miúdo responde que pretende vir todos os dias para a escola, nem que precise de sair de casa às 6 da manhã. O problema é o custo – elevadíssimo – do passe mensal, que o SASE não cobre, devido às regras sobre o pagamento de transportes para zonas fora da área de influência da Escola. Convocada pelo DT e Conselho executivo da Escola para debater a melhor solução para o aluno, a encarregada de educação não compareceu, apesar de estar em casa sem emprego, por alegadamente “não se sentir bem”.

No caso de uma outra aluna, já de si muito pouco motivada para as tarefas lectivas, embora sem problemas de absentismo ou comportamento irregular, é a vez de também a encarregada de educação – viúva, e quase por certo por razões laborais – se ir ausentar do país durante umas semanas. Quantas, logo se verá. A miúda vai ficar em casa de familiares. No dia em que a mãe partiu o seu comportamento alterou-se radicalmente, recusando-se a fazer a mínima tarefa e passando a responder “torto” a qualquer observação dos docentes. Para a convencer a comunicar comigo “a direito” e a fazer um guião de leitura foi preciso munir-me de uma quantidade de espírito zen que nem o dalai-lama consegue arranjar num dia solarengo. Até prova em contrário, parece que o problema irá arrastar-se durante a ausência da mãe.

Quanto ao outro aluno que mudou de casa e passou a chegar atrasado, a encarregada de educação, apesar de existir, é quase como se estivesse ausente, pois só compareceu uma vez na escola e sem efeitos práticos no controle da assiduidade do aluno que se levanta quando quer, sai de casa quando lhe apetece e chega à escola quando isso não incomoda a sua boa disposição. Em alguns dias confessa que esteve a ver televisão até altas horas da noite, pois agora já toda a gente trocou os gravadores de VHS por leitores de DVD. Já atingiu o limite legal de faltas e o DT sabe que as jusrificações que surgirem são fictícias e dentro de mais uma ou outra semana a retenção por faltas (assim como a quebra de rendimento em várias disciplinas por causa da falta de assiduidade) será uma triste realidade, por muito que nos esforcemos.

E assim de um nível de sucesso educativo potencial de 100% em Dezembro, passamos para o risco de 60-70% em Fevereiro, sem que o Conselho de Turma consiga ter qualquer tipo de controle sobre as circunstâncias da quebra. Mesmo comunicando tudo isto às restantes autoridades competentes (forças da autoridade, comissões de protecção de jovens em risco), os efeitos já se estão a começar a vislumbrar.

A culpa é dos alunos? Talvez num dos casos.

A culpa é dos docentes? Sou parte interessada, mas parece-me evidente que não.

A culpa é das famílias? Certamente que grande parte é, embora eu compreenda que os percalços da vida de cada um não são necessariamente desejados e que, na situação de instabilidade e volatilidade em que vivemos (e que os defensores da “modernização” tanto aplaudem), muitas coisas são quase impossíveis de evitar. É o país que temos, a sociedade que é possível ter, os percursos de vida que as circunstâncias condicionam.

Mas será que a tutela e muitos opinadores, mais ou menos bem intecionados, mais ou menos desligados de todos estes contextos, mais ou menos a planar nas nuvens teóricas, têm noção deste tipod e realidade, do que as provoca e de quão difícil é aos docentes lidarem com tudo isto?

Será que percebem que, ao que parece, alguns dos mais frustrados com tudo isto são aqueles que optaram voluntariamente por trabalhar afincadamente com estas turmas e que, quando parecem começar a ver os resultados desse trabalho recompensar os alunos, tudo vêem começar a desmoronar-se como um castelo de cartas, sem que quase nada possam fazer?