Quinta-feira, 8 de Fevereiro, 2007


formacao.jpg

Tem o seu quê de paradoxal, andarmos nas encolhas em matéria de gastos com a Educação e afinal existir milhares de milhões para a Formação Profissional, a área imediatamente vizinha.

E isto tem muitos aspectos curiosos desde o longo historial nebuloso da aplicação feita nos últimos 20 anos dos dinheiros geridos pelo Fundo Social Europeu (e olhem que eu frequentei logo em 1987 um dos primeiros cursos para licenciados financiados por estes dinheirinhos e as instituições formadoras e os formadores eram já então regiamente pagos), com todas aquelas estranhezas que deram em arquivamentos judiciais oportunos para não embaraçarem ninguém (Partex, UGT, and so on…), aos moldes ainda pouco evidentes sobre como vão ser aplicadas estas novas paletes de dinheiros europeus.

Em matéria de historial, desde meados dos anos 80 que os dinheiros europeus para a Formação Profissional serviram sempre muito mais às supracitadas entidades formadoras e respectivos formadores do que propriamente aos formandos. Aliás, mal se percebe que após duas décadas de chuveirinho ainda estejamos tão mal qualificados como o secretário de Estado admite nesta entrevista ao Público («o nosso défice mais profundo é o das qualificações e das competências que as pessoas sabem», a expressão não é a mais feliz, mas todos entendemos o sentido). Afinal o que se passou? Será que como Medina Carreira afirmou há alguns meses muito dinheiro foi para “aldrabões”? É que os resultados práticos foram muito escassos.

Mesmo em termos do próprio PRODEP, ao nível da formação de professores, muitas verbas serviram essencialmente para financiar “certas e determinadas instituições” (acredito que há micro-sindicatos que se criaram e alimentaram só disto, pois associados devem ser 27, 23 dos quais formadores e 4 distraídos) e para alimentar redes de formadores dependentes dos Centros de Formação de Professores, ano após ano ficcionando Acções de Formação sempre com os mesmos materiais, mas com destinos estivais de férias tropicais sempre variáveis.

Mas agora diz-se que é para ser a sério.

Como se não tivesse sido dito o mesmo em todos os outros quadros comunitário de apoio!

E o mais interessante é afirmar-se que vai haver uma avaliação das entidades formadores (com que efeitos? feita por quem?) e que o FSE vai «concentrar recursos nas entidades que tiverem mais capacidade para entregar resultados». Mas que resultados são esses, como são definidos e por quem? E como se avalia isso? Pela inserção dos formandos no mercado de trabalho para além dos estágios subsidiados? Ou apenas com base em relatórios palavrosos e imaginativos, mas completamente deslocados (e descolados) da realidade?

E já agora, os formadores “certificados” continuarão a sê-lo como têm sido?

Só por mera curiosidade – que eu não tenho interesse directo nisso, pois nunca fui formador, nem me candidatei a sê-lo – com as incompatibilidades existentes em matéria de ECD, será que os docentes “oficiais” estão arredados do negócio ou a coisa é compatível com aquela determinação que lhes permite exercer «actividades complementares da docência»? É que em caso contrário, não sei bem onde será recrutado tanto formador para dar tanta formação, pois mesmo que a maior parte seja de carácter tecnológico, há sempre matérias incontornáveis (Inglês, por exemplo), onde não sei se os formadores de qualidade andarão por aí aos montes, desempregados ou compatíveis com a função.

Não sei se sou demasiado desconfiado, se sou demasiado descrente nas virtudes nacionais em matéria de gestão da dinheirama comunitária; o que sei é que, pelo passado da coisa e pelo conhecimento directo que tive de muito dinheiro gasto na satisfação das necessidades de formadores e entidades formadoras e pouco aproveitamento por parte dos formandos, tenho seriíssimas dúvidas em relação ao sucesso deste mega-pacote para a Formação Profissional, pelo menos se medirmos o sucesso pela efectiva qualificação funcional da população (o que é diferente da mera certificação diplomada), pelo aumento da sua produtividade e pelos ganhos em termos económicos e não apenas pela ostentação da troca bianual de carros de alta cilindrada até 2013, do belo bronze caribenho ou das recordações exóticas do sueste asiático dos sempre ávidos formadores do costume.

Porque se continuarmos a bela obra dos últimos 20 anos, continuaremos sempre divididos entre um grupinho de (formadores) chico-espertos desenrascados e um enorme resto de (formandos) desiludidos curso após curso.

Sei que este não será o quadro justo de tudo o que se tem passado na área da Formação Profissional, mas que tem representado uma boa parcela do que se tem passado, lá isso tem.

livro.jpglivro2.jpglivro4.JPG

A partir do livro do Jean-Claude Michéa algumas leituras críticas do estado actual da sociedade e das pressões formatadoras e censórias sobre o pensamento moderno.

Chegados e digeridos, logo se seguirão algumas notas de prova.