amimage11.jpgQue não se pense a partir de um dos últimos posts que toda a minha vida de docente-avaliador são rosas perfumadas. Muito pelo contrário. Também tenho turmas “normais”, daquelas com que lutamos um ano inteiro para conseguir despertar uma centelha de adesão ou incutir regras básicas de civilidade e comportamento em sociedade.

Pois é. E esse é o trabalho árduo. Mesmo com apenas 17 alunos tenho uma daquelas turmas que fazem as delícias de qualquer docente, em especial no momento de ver a sua avaliação depender do sucesso dos alunos.

Para além de Estudo Acompanhado e de Aulas de Apoio de Língua Portuguesa, lecciono a dita LP e ainda a pobre e incompreendida História e Geografioa de Portugal, que acaba por ser o bombo da festa. Pois, tudo junto dá 11 horas por semana, é quase monodocência…

Se em LP os cinco tempos semanais e o apoio srvem para colmatar deficiências, repisar conteúdos, barafustar com os TPC’s sistematicamente por fazer e ensaiar estratégias de abordagem por vários lados, em HGP os três tempos semanais para despejar 400-450 anos de História de Portugal (é difícil que no 5º ano tenham ficado no fim do programa ou chegado mesmo à União Ibérica), condimentados com informação geográfica, não dão nem para fazer cócegas a nada.

O resultado, aliás à semelhança de outras disciplinas, tem sido catastrófico. Em 17 alunos há 13 planos de recuperação e, no caso de HGP, as 8 classificações de nível 2 no 1º período está prestes a transformar-se em 12 ou mais. A taxa de realização de trabalhos de casa (enviei 3 no mês de Janeiro, para serem feitos de 3ª feira para a 2ª feira seguinte, raramente mais do que copiar 3 respostas do livro) anda na ordem dos 25% (no melhor dia recebi 5 trabalhos feitos, nenhum deles completo). O trabalho de pretensa “pesquisa” (biografias de personalidades históricas) traduziu-se na mera impressão de diversos artigos da Wikipedia, alguns deles com complementos perfeitamente disparatados (a do Napoleão veio com uma página sobre doenças no século XX) e o retorno na data marcada foi de 50%.

A ficha de avaliação realizada ontem, sobre um tema muito específico e localizado acerca do qual se tinham feito duas fichas de trabalho preparatórias, deu à luz uma única “positiva”.

Claro que o problema é meu. Eu é que não estou a “alcançar” a coisa. Eu é que não estou a “descer” até aos alunos. Por certo que sim. Devo ser um sádico desgraçado que se alimenta do insucesso daas criancinhas ou, como nas palavras de uma antiga colega sempre muito condoída e politicamente correcta (daquelas que lecciona apenas o que lhe interessa no 5º ano e depois deixa os outros a “arder”, porque não acompanhava as turmas mesmo sendo efectiva, porque lhe dava jeito ficar sempre de manhã ), sou um malvado “elitista”.

Aliás, o que eu deveria era deixá-los ouvir música sempre que lhes apetece, ou estarem a enviar msgs de télélé uns para os outros para fazerem soar os toques mais estapafúrdios (na segunda feira, durante as revisões, era a imitar o som de uma alarme de carro). O que eu devia era ouvir como a turma no ano anterior era bem pior e consolar-me com isso. Ou não cortar os comentários sobre o modo como gozavam com alguns dos meus antecessores dos heróis de tão afamada turma de 5º ano. Ou deveria ficar impávido e sereno quando entram na sala de aula em marcha turbulenta, bem depois do agora silencioso “2º toque” de chupas e coca-colas nas mãos, ou mesmo de gelados acabadinhos de comprar para “experimentar” a reacção dos tontinhos dos profes.

Eu deveria consolar-me pelo facto da DT me comunicar que é quase inútil transmitir-lhe estes factos, visto muitos dos Encarregados de Educação ainda não terem aparecido na escola ou sequer terem procurado comunicar com ela. Deveria consolar-me por sistematicamente vários alunos alegarem que não têm cadeerneta, para que eu não envie recados para casa. Ou que perderam o caderno onde eu escregvi, alternativamente, o dito reacado. Deveria consolar-me por parecer ser quase o único preocupado com o sucesso educativo de 15 daqueles pré-adolescentes. Pois claro, se a minha avaliação depender disso estou bem tramado. Já no caso deles, sabendo disso, esperam alegremente que seja eu a “descer” e a satisfazer-me com umas migalhas de atenção e, com receio de chatices, eleve heroicamente e a pulso solitário o sucesso de todos eles.

Só que eu nem me consolo, nem sou dado a virar a cara a uma boa disputa. E no fim, ou sabem um pouco mais do que a obesidade da D. Maria II e o facto de ela ter sido prometida em casamento ao tio com idade de andar na escola primária (isso claro que todos fixaram, o detalhe à Hermano Saraiva), ou eu conformo-me com a avaliação negativa do meu trabalho, resultante do nível de insucesso dos meus alunos. Mal por mal já lá vai no segundo ano de congelamento…

Congelado por congelado, antes com a consicência tranquila.