Quarta-feira, 7 de Fevereiro, 2007


math_teacher2.gifEm especial o desgaste psicológico, tão incompreendido por muitos dos críticos dos professores que parecem não perceber do que se fala.

Se há crítica que me irrita solenemente (na verdade há várias, tomara eu que fosse só uma…) é aquela em que se afirma que não deve ser docente quem não se sente em condições para se impôr numa sala de aula a 25 crianças e/ou (pré-)adolescentes.

É mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. E muito menos fazê-lo uma mão-cheia de vezes por dia. Ali, em frente de todos aqueles olhos, desempenhando o melhor possível performance a seguir a performance, na expectativa de obter resultados e sentir um feedback positivo.

Há muito boa gente, com gosto por ensinar e natural vocação para essa função que, infelizmente, tem naturais dificuldades em enfrentar uma plateia. É muito comum no início da carreira, assim como em todos os inícios de ano lectivo, mas muitas vezes o nó no estômago permanece para além disso. Conheço tantos e tantos casos, em que esse bloqueio, maior ou menor, só desapareceu ao fim de meia dúzia de anos ou mesmo de uma década.

Há quem não entenda a dureza de, em especial em início de carreira, enfrentar a cada novo ano, uma nova Escola, uma nova sala de professores, um novo conjunto de turmas. Digam o que disserem é necessária uma grande resistência psicológica e há quem faça das tripas coração para seguir em frente. Muitas vezes, o equilíbrio consegue-se, em outras acaba mais tarde ou mais cedo por romper-se.

Afirmar que essas pessoas não são competentes é uma tremenda injustiça. Mas há quem o faça sem rebuço ou pudor e o próprio ME actualmente valida essa atitude, ao forçar o afastamento das Escolas de pessoas com redução da componente lectiva por razões do foro psicológico, claramente causadas pela prática profissional, mas que ainda têm muito valor e muito podem oferecer às escolas em outras funções.

Nos primeiros dez anos em que leccionei como contratado, conheci oito escolas diferentes e milhares de alunos, quase sempre em regime de substituição, entrando já com o ano em andamento, sendo necessário conhecer espaços, rotinas e muita gente nova. Quantas vezes comecei a leccionar no dia seguinte a receber a carta da DREL a mandar-me apresentar na escola X. Um ano houve (1991/92?) em que leccionei 11 turmas de 9º ano, substituindo uma colega grávida desde o 2º período. Quase 300 alunos!!! No meu primeiro ano nas lides (1986/87) leccionei à noite turmas dos Cursos Complementares, em que todos os alunos eram mais velhos do que eu. Mesmo no 3º ano do Curso Geral os mais novos eram da minha idade.

Apesar de moderamente introvertido e não propriamente bem-falante, tenho a felicidade de não me sentir muito intimidado a falar em público. O nó no estômago desfez-se exactamente por essas alturas, quando acabava o curso, ao intervir em RGA’s hostis, tentando expôr argumentos em clima de insurreição. Mas nem todo(a)s têm essa sorte.

Há quem sofra atrozmente com todos aqueles olhares a examinar-nos. Só quem nunca leccionou é incapaz de perceber que uma turma é, a um tempo, um conjunto de indivíduos, cada qual com a sua individualidade e as suas idiossincrasias, mas ao mesmo uma entidade colectiva com um comportamento de grupo autónomo perante o docente. E que em muitos casos o processo de conhecimento mútuo pode ser atribulado. Algumas vezes é como tentar lidar com um rebanho calmo em prado aprazível, mas em muitos outros casos é uma espécie de rodeo com puros sangues bravios. Com a invenção descabelada das aulas de substituição no modelo incongruente que o ME arranjou, para além das nossas turmas regulares, podemos conhecer todas as semanas um novo grupo (ou dois) e de (re)agir em conformidade.

Se para mim o não é, para muito(a)s colegas isso é especialmente doloroso, fazendo crescer a ansiedade a níveis muito dificilmente suportáveis. Serão “piores” docentes do que eu? Obviamente que não. Isso seria considerar que para se ser docente serviria qualquer pessoa extrovertida e facilmente sociável, ou que esse deveria ser critério eliminatório no acesso à docência.

Será que na formação dos futuros docentes existem espaços disciplinares onde se procure prepará-los para esse tipo de situações? Claro que não, pois a exaltação pedagógica é essencialmente livresca e debitada por quem raramente passou por aquilo que descreve e que nunca aplicou as fórmulas que reputa de ideais e infalíveis.

Por isso muitas vezes os docentes são quase devorados no início de carreira. E outros vão sofrendo um enorme desgaste ao longo dela. Mas isso não é reconhecido pela tutela. Agora e cada vez mais os docentes são encarados como meras peças descartáveis, depois de mostrarem a fadiga própria do uso prolongado e intensivo. Quanto mais indiferenciados melhor, para que ninguém sinta que não pode ser substituído a qualquer momento, como numa linha de produção.

Resta-nos o consolo de saber que, apesar de tudo, a maior parte de nós acaba por ir sobrevivendo mais do que certas personagens, essas sim de esquecimento rápido.

ignorancia.jpgAtravés do Luís Ferreira e do Educação Crítica do Henrique Santos, que por sua vez tinha recolhido a indicação num blog espanhol, tive acesso à referência e parte do conteúdo desta obra de Jean-Claude Michéa, com o qual não concordo completamente, mas que tem passagens quase épicas do calibre da que em seguida longamente se transcreve, que nos pretende alertar para muito do que anda a ser feito no sentido de desintelectualizar e de apostar na generalização (leia-se vulgarização acrítica) da formação não só dos alunos como própria classe docente:

Estos polos de excelencia, con condiciones de acceso forzosamente muy selectivas, tendrán que seguir transmitiendo de forma rigurosa (es decir, en lo esencial, seguirán probablemente el modelo de la escuela tradicional’) no sólo los saberes sofisticados y creativos, sino también (cualesquiera que sean, aquí y allá, las reticencias Positivistas de tal o cual defensor del sistema) el mínimo de cultura y espíritu crítico sin el que la adquisición y el dominio efectivo de dichos saberes carece de sentido y, ante todo, de cualquier utilidad verdadera.

En cuanto a las competencias técnicas medias – la Comisión Europea estima que tienen “una vida aproximada de diez años, y que el capital intelectual se deprecia un 7% por año, lo que va unido a una reducción correspondiente de la eficacia de la mano de obra ” el problema es algo diferente. En definitiva, se trata de saberes desechables, tan desechables como los humanos que los detentan provisionalmente. (…). Un saber utilitario y de índole principalmente algorítmica, esto es, que no requiere forzosamente ni la autonomía ni la creación del que lo utiliza, es un saber que, en condiciones extremas  puede aprenderse solo, es decir, en la propia casa, ante un ordenador con el programa educativo correspondiente. Generalizando, en el caso de las competencias intermedias, gracias al empleo de la enseñanza multimedia a distancia la clase dominante podrá matar dos pájaros de un tiro. Por un lado, las grandes compañías (0livetti, Philips, Siemens, Ericsson, etc..) estarán destinadas a “vender sus productos en el mercado de la formación continua gobernado por las leyes de la oferta y la demanda”. Por otro, decenas de miles de profesores (es sabido que su financiación representa la parte fundamental de los gastos del presupuesto para la educación) se transformarán en algo completamente inútil y podrán, así, ser despedidos, lo que permitirá a los Estados invertir la masa salarial ahorrada en operaciones más rentables para las grandes compañías internacionales.

Por supuesto, quedan los más numerosos los que el sistema destina a seguir desempleados (o empleados de forma precaria y flexible por ejemplo, en los distintos trabajos basura) en parte porque, según los términos escogidos por la OCDE  “nunca constituirán un mercado rentable” y porque su “exclusión social se agudizará a medida que los otros sigan progresando”. Es ahí donde el “tittytainment” deberá encontrar su campo de acción. Efectivamente, es obvio que la costosa transmisión de los saberes reales y, por tanto, críticos, así como el aprendizaje de los comportamientos cívicos elementales o incluso, sencillamente, el fomento de la rectitud y la honestidad, no presentan aquí ningún interés para el sistema. De hecho, en ciertas circunstancias políticas, pueden llegar a suponer una amenaza para su seguridad. Obviamente, es en esta escuela para la mayoría donde deberá enseñarse la ignorancia en todas sus formas posibles. No obstante, no se trata de una tarea fácil y, hasta el momento, salvando algunos progresos, los profesores tradicionales no han recibido una formación adecuada al respecto. La escuela de la ignorancia requerirá reeducar a los profesores, es decir, obligarles a “trabajar de forma distinta “, bajo el despotismo ilustrado de un ejército potente y bien organizado de expertos en “ciencias de la educación”. Evidentemente, la labor fundamental de dichos expertos será definir e imponer (por todos los medios de que dispone una institución jerárquica para garantizar la sumisión de los que de ella dependen) las condiciones pedagógicas y, materiales de lo que Debord llamaba la “disolución de la lógica “: en otras palabras, “la pérdida de la posibilidad de reconocer instantáneamente la que es importante y lo que es accesorio o está fuera de lugar; lo que es incompatible o, por el contrario, lo que podría ser . complementario;  todo lo que implica tal consecuencia y lo que, al mismo tiempo impide”. Debord añade que un alumno adiestrado de tal forma se encontrará “desde el principio, al servicio del orden establecido, aunque su intención haya podido ser absolutamente contraria a este resultado. En esencia conocerá el lenguaje del espectáculo, ya que es el único que le será familiar: el lenguaje con el que le habrán enseñado a hablar. Sin duda, querrá mostrarse como enemigo de su retórica, pero utilizará su sintaxis`.”
En lo relativo a la eliminación de cualquier “common decency” es decir, a la necesidad de transformar al alumno en consumidor incívico y, si es necesario, violento, es una tarea que plantea infinitamente menos problemas. En este caso, basta con prohibir toda institución cívica eficaz y reemplazarla por cualquier forma de “educación ciudadana” popurrí conceptual más fácil de difundir porque, en resumidas cuentas, no hace sino reforzar el discurso dominante de los medios y el mundo del espectáculo. Así pues, se podrán fabricar “consumidores de derecho” en serie, intolerantes, pleiteistas y políticamente correctos. Por tanto, serán fácilmente manipulables al tiempo que presentarán la ventaja nada desdeñable de poder engrosar, según el modelo estadounidense, los grandes gabinetes de abogados,
 Naturalmente, los objetivos asignados a lo que quede de la escuela pública supondrán una doble transformación decisiva a más o menos largo plazo. Por un lado, habrá una transformación de los profesores, que deberán abandonar su estatus actual de sujeto a los que se supone un saber, para formar parte de los animadores de diferentes “actividades de valores o transversales”, de “salidas pedagógicas” o de “foros” de discusión (evidentemente concebidos según el modelo de los programas de debate televisivos); a fin de rentabilizar su uso, también serán animadores encargados de distintas tareas materiales o de refuerzo psicológico. Por otro, la escuela se convertirá en un espacio de vida democrático y alegre, a un tiempo guardería ciudadana –en la que la animación de las fiestas (aniversario de la abolición de la esclavitud nacimiento de Víctor Hugo, Halloween…)  podrá correr a cargo de las asociaciones de padres más descosas de implicarse, con la rentabilidad que conlleva- y un lugar abierto tanto a todos los representantes de la ciudad (militantes de asociaciones, militares jubilados, empresarios, malabaristas o faquires, etc.) corno a todas las mercancías tecnológicas o culturales que las grandes marcas, convertidas en colaboradoras explícitas dcl “acto educativo”, juzguen adecuado vender a los distintos participantes Pienso también que surgirá la idea de colocar en la entrada de ese gran parque de atracciones escolares algunos dispositivos electrónicos muy, sencillos para detectar la presencia eventual de objetos metálicos.”

amimage11.jpgQue não se pense a partir de um dos últimos posts que toda a minha vida de docente-avaliador são rosas perfumadas. Muito pelo contrário. Também tenho turmas “normais”, daquelas com que lutamos um ano inteiro para conseguir despertar uma centelha de adesão ou incutir regras básicas de civilidade e comportamento em sociedade.

Pois é. E esse é o trabalho árduo. Mesmo com apenas 17 alunos tenho uma daquelas turmas que fazem as delícias de qualquer docente, em especial no momento de ver a sua avaliação depender do sucesso dos alunos.

Para além de Estudo Acompanhado e de Aulas de Apoio de Língua Portuguesa, lecciono a dita LP e ainda a pobre e incompreendida História e Geografioa de Portugal, que acaba por ser o bombo da festa. Pois, tudo junto dá 11 horas por semana, é quase monodocência…

Se em LP os cinco tempos semanais e o apoio srvem para colmatar deficiências, repisar conteúdos, barafustar com os TPC’s sistematicamente por fazer e ensaiar estratégias de abordagem por vários lados, em HGP os três tempos semanais para despejar 400-450 anos de História de Portugal (é difícil que no 5º ano tenham ficado no fim do programa ou chegado mesmo à União Ibérica), condimentados com informação geográfica, não dão nem para fazer cócegas a nada.

O resultado, aliás à semelhança de outras disciplinas, tem sido catastrófico. Em 17 alunos há 13 planos de recuperação e, no caso de HGP, as 8 classificações de nível 2 no 1º período está prestes a transformar-se em 12 ou mais. A taxa de realização de trabalhos de casa (enviei 3 no mês de Janeiro, para serem feitos de 3ª feira para a 2ª feira seguinte, raramente mais do que copiar 3 respostas do livro) anda na ordem dos 25% (no melhor dia recebi 5 trabalhos feitos, nenhum deles completo). O trabalho de pretensa “pesquisa” (biografias de personalidades históricas) traduziu-se na mera impressão de diversos artigos da Wikipedia, alguns deles com complementos perfeitamente disparatados (a do Napoleão veio com uma página sobre doenças no século XX) e o retorno na data marcada foi de 50%.

A ficha de avaliação realizada ontem, sobre um tema muito específico e localizado acerca do qual se tinham feito duas fichas de trabalho preparatórias, deu à luz uma única “positiva”.

Claro que o problema é meu. Eu é que não estou a “alcançar” a coisa. Eu é que não estou a “descer” até aos alunos. Por certo que sim. Devo ser um sádico desgraçado que se alimenta do insucesso daas criancinhas ou, como nas palavras de uma antiga colega sempre muito condoída e politicamente correcta (daquelas que lecciona apenas o que lhe interessa no 5º ano e depois deixa os outros a “arder”, porque não acompanhava as turmas mesmo sendo efectiva, porque lhe dava jeito ficar sempre de manhã ), sou um malvado “elitista”.

Aliás, o que eu deveria era deixá-los ouvir música sempre que lhes apetece, ou estarem a enviar msgs de télélé uns para os outros para fazerem soar os toques mais estapafúrdios (na segunda feira, durante as revisões, era a imitar o som de uma alarme de carro). O que eu devia era ouvir como a turma no ano anterior era bem pior e consolar-me com isso. Ou não cortar os comentários sobre o modo como gozavam com alguns dos meus antecessores dos heróis de tão afamada turma de 5º ano. Ou deveria ficar impávido e sereno quando entram na sala de aula em marcha turbulenta, bem depois do agora silencioso “2º toque” de chupas e coca-colas nas mãos, ou mesmo de gelados acabadinhos de comprar para “experimentar” a reacção dos tontinhos dos profes.

Eu deveria consolar-me pelo facto da DT me comunicar que é quase inútil transmitir-lhe estes factos, visto muitos dos Encarregados de Educação ainda não terem aparecido na escola ou sequer terem procurado comunicar com ela. Deveria consolar-me por sistematicamente vários alunos alegarem que não têm cadeerneta, para que eu não envie recados para casa. Ou que perderam o caderno onde eu escregvi, alternativamente, o dito reacado. Deveria consolar-me por parecer ser quase o único preocupado com o sucesso educativo de 15 daqueles pré-adolescentes. Pois claro, se a minha avaliação depender disso estou bem tramado. Já no caso deles, sabendo disso, esperam alegremente que seja eu a “descer” e a satisfazer-me com umas migalhas de atenção e, com receio de chatices, eleve heroicamente e a pulso solitário o sucesso de todos eles.

Só que eu nem me consolo, nem sou dado a virar a cara a uma boa disputa. E no fim, ou sabem um pouco mais do que a obesidade da D. Maria II e o facto de ela ter sido prometida em casamento ao tio com idade de andar na escola primária (isso claro que todos fixaram, o detalhe à Hermano Saraiva), ou eu conformo-me com a avaliação negativa do meu trabalho, resultante do nível de insucesso dos meus alunos. Mal por mal já lá vai no segundo ano de congelamento…

Congelado por congelado, antes com a consicência tranquila.