Terça-feira, 6 de Fevereiro, 2007


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(c) Antero Valério

Porque cada vez tenho mais dias de 10 horas de trabalho (quem me dera a boa e velha semana de 40 horas de trabalho semanal), entre aulas e afins, reuniões variadas, preparação de materiais didácticos e de avaliação (os de Língua portuguesa, com a montanha russa da TLEBS mudam a cada semana), habituei-me a fazer as fichas de avaliação nas aulas de 90 minutos de uma forma diferente na turma reduzida de PCA de 6º ano.

Feitas as revisões na aula anterior e após uma breve resenha dos objectivos, a ficha é logo distribuída e, à medida que os alunos a vão concluindo, passo imediatamente à correcção na própria aula, chamando para esse efeito as “vítimas”. Como a turma é relativamente homogénea em termos de ritmo de trabalho, não é raro que a dezena de fichas seja corrigida com toda a gente em redor, observando a correcção e sendo esclarecida sobre os erros ou omissões. Do mesmo modo, têm acesso à grelha de avaliação e ao seu preenchimento, com a vantagem de irem fazendo as contas ainda antes de eu fazer a soma final.

Este sistema dura desde o segundo mês de aulas de Língua Portuguesa e História e Geografia de Portugal e acabou por tornar-se uma das rotinas favoritas do grupo de trabalho. Todas as semanas há fichas de consolidação da matéria, com avaliação, em LP e pelo menos quinzenalmente em HGP. No primeiro caso foram feitas seis este período, ainda antes do teste formal da passada semana. Todos apontam, com rigor e por indicação do DT, as classificações na caderneta. Até hoje não houve qualquer problema. O mistério da avaliação que os fez ficar retidos entre 2 e 4 vezes no 2º ciclo foi desmontado e não há margem para contestação perante a transparência do processo. Os critérios são expostos de forma clara e isso invalida qualquer hipótese de conflito, pelo menos entre gente que se respeite mutuamente. O que felizmente acontece. Toda a gente sabe à centésima o que todos tiveram em que questão e porquê. Há uns quantos lamentos quanto ficam a 2-3 pontos percentuais da classificação mais elevada e o chamado gozo fininho em alguns casos de disputa pessoal pela nota mais alta, mas pouco mais do que isso. Em nenhum momento há desconfiança. Mesmo hoje em que na ficha de HGP mais de metade da turma teve a recompensa correspondente à confessada falta de estudo.

Comigo e com esta turma este sistema funciona na perfeição e propiciou um óptimo ambiente de trabalho. Se é um modelo transponível para todos os contextos e protagonistas? Obviamente que não.

2. As Famílias

Nos últimos tempos fomentou-se de forma artificial e instrumental – a quem isso beneficiará, cumpre-nos especular – uma oposição entre as famílias e os docentes, como se o interesse de ambos não fosse assumidamente coincidente. Houve quem quisesse fazer crer que enquanto as famílias se preocupam com o sucesso dos seus educandos, os docentes parecem estar desinteressados de tal, como que contribuindo activamente para o insucesso.

Esta é uma falácia facilmente desmontável, desde logo porque muitos docentes são igualmente pais e familiares de muitos alunos e só um ataque de esquizofrenia será capaz de explicar que pretendessem um sistema educativo que prejudicasse o sucesso dos seus próprios educandos. Para além de que as insinuações ou acusações declaradas relativamente ao aparente prazer estranho e perverso dos docentes se sentirem bem por terem elevados níveis de insucesso são, para além de injustas, estranhamente úteis para fomentar um conflito espúrio e de vantagem nula para os envolvidos, mas com interesse para terceiros.

No entanto, seria embelezar desnecessariamente a realidade afirmar que não existe actualmente algum desconforto e desconfiança de parte a parte, embora eu considere que essa é uma situação minoritária e muito específica de algumas franjas do universo das “famílias”, talvez não por acaso nas extremidades do espectro socio-económico e cultural. Assim como muitas famílias deixaram de ver o(a) professor(a) com a relativa reverência social que já existiu no passado e não apenas no Ensino pós-Primário ou, como agora, pós-Básico.

A massificação do ensino fez-se sentir tanto ao nível do alongamento da escolaridade de jovens provenientes de estratos sociais mais desfavorecidos e que antes abandonavam precocemente os estudos, assim como no plano da equivalente expansão do corpo profissional dos docentes. E esse alargamento quantitativo trouxe naturalmente fenómenos de, por um lado, relativa inadaptação ao mundo das rotinas escolares e, por outro, de descaracterização profissional.

Muitas famílias sentem-se não só intimidadas pelo espaço escolar, por não o terem frequentado e sentirem-no como estranho, assim como os docentes perderem parte da sua aura, não só por razões a explicar em próximo post como por se terem tornado cada vez mais familiares e mesmo vulgares para todos aqueles que, em outro vértice da estrutura social, deixaram de os encarar com o devido respeito.

Desta forma, temos famílias que se afastam das rotinas da Escola por não terem as ferramentas indispensáveis para ajudar os seus educandos e, por isso mesmo, se sentirem intimidadas, enquanto por outro temos outras que passaram a encarar a Ecola (essencialmente a pública) como algo esvaziado do seu anterior carácter selectivo e exclusivo, de igual modo, os docentes como uma classe profissional com menos peso simbólico na sociedade, o que faz com que encarem igualmente  com desconfiança (mas de outro tipo) o sistema educativo público, de cariz universal, e os seus agentes.

Num caso temos famílias onde o insucesso e o abandono são fenómenos concretos, em grande parte motivados por dificuldades materiais do quotidiano conjugadas com uma incapacidade para avaliar devidamente as vantagens de uma escolaridade de sucesso; no outro, temos discursos sobre o insucesso e o abandono escolar elaborados de fora do fenómeno, em jeito de crítica à Escola (pública) pelas suas insuficiências.

Felizmente, na minha opinião alicerçada em alguma experiência, a maioria ainda se encontra num largo espaço intermédio, para quem a Escola não é nem bicho-papão, nem patinho-feio, maioria essa que procura fazer o melhor possível, apesar das dificuldades de gestão do tempo que a vida contemporânea impõe a todos nós. Mas cujo “melhor possível” nem sempre é suficiente para contrariar alguns factores disruptivos e causadores do insucesso escolar dos alunos, como sejam a crescente percepção pelos alunos da relativa inutilidade de se esforçarem (pois verificam o aumento do desemprego qualificado e a ausência de uma recompensa devida pelo mérito), ou a ausência de exemplos sociais que incentivem a busca da excelência (os heróis de hoje são futebolistas, top-models e actores/actrizes de 3º escalão e não cientistas, médicos, escritores, arquitectos).

O combate ao insucesso deveria começar e acabar muita em casa, junto das famílias e por acção delas. A Escola é apenas o lugar onde as crianças e jovens vão para receber uma parte da Instrução. A família deveria ser o lugar onde elas estão e onde deveriam receber toda a restante componente formativa e educativa. O problema é que cada vez mais, por fenómenos sociais, laborais, económicos e culturais, as famílias deixaram de ser esse espaço privilegiado e as crianças e jovens passaram a estar mais na Escola durante o dia normal da semana do que em casa e a Escola foi obrigada a transbordar para um domínio que não deve ser o seu, pois não se pode substituir à Família. Isto pode parecer muito conservador, mas é mesmo assim.

E se é verdade que os tempos estão difíceis, isso não justifica tudo. Em especial não pode justificar o alheamento, a crítica sobranceira e muito menos uma quase completa delegação de funções das famílias na Escola.