Domingo, 4 de Fevereiro, 2007


Esta não pretende ser uma análise académica ou exaustiva dos fenómenos correlacionados do insucesso e abandono escolar, mas apenas uma digressão opinativa a partir do terreno. Não me socorro por isso de números ou de estudos sociológicos mais ou menos recentes – isso será outro tema – mas meramente da minha opinião, nascida da vivência e observação do funcionamento da Educação desde que enteri no “sistema”, já mlá vão mais de 35 anos, como alegre caloiro da Primária. Vale o que vale e, por isso mesmo, acredito que a visão que a seguir apresento sobre o papel dos protagonistas mais destacados na questão esteja longe de ser consensual, pois mais do que “culpados” procuro encontrar o que permenece ou mudou neste período.

Vamos lá então:

1. Os Alunos:

É problemático estabelecer comparações entre situações diferentes, mesmo quando procuramos a pretensa objectividade dos números. Se à vista desarmada nos parece que o nível médio dos alunos está a descer, essa é uma constatação que todas as gerações têm feito ao longo do tempo. Se nos munimos de números temos que, apesar de elevado, o insucesso escolar é hoje bem menor do que era há 20 ou 30 anos. Deveria ser menor, pois deveria, mas o abandono nem sempre é culpa objectiva de um único factor, assim como o insucesso também o não será. Mas foquemo-nos nos alunos: apesar da quebra demográfica, em termos relativos a escolaridade abrange muito mais alunos agora do que abrangia na década de 70 ou até mesmo na de 80. Essa extensão fez-se com base na obrigatoriedade da escolaridade até ao 9º ano e, de forma complementar, na tentativa de sensibilização da sociedade para as vantagens do prolongamento dos estudos. Ora tal extensão, com a necessária expansão quantitativa, manteve no sistema muitos dos que antes o abandonavam de forma mais precoce. Claro que as taxas de insucesso e abandono no Secundário tenderiam sempre a subir. Foi uma consequeência perfeitamente natural – mesmo se indesejável – de todo o processo anterior.

Por outro lado, tendemos a acusar os alunos de estarem hoje menos preparados com o 9º ano do que os seus avós com a 4ª classe. Este tipo de afirmação tem o seu quê de verdadeiro, mas igualmente de erróneo. É verdade que a maior parte dos alunos com um 9º ano acabado em voo rasante não sabe a tabuada, nem sequer sabe distinguir com clareza uma molécula de um átomo, ou o Miguel de Vasconcelos do Vasco Gonçalves (este exemplo é verídico e passou-se comigo). Tudo parece soar ao mesmo e, para além disso, parece não interessar nada. Mas também é verdade que sabem usar um computador em três tempos, dominam um complexo jogo de estratégia, antes de eu perceber como é que se abre a caixa do dito jogo, para além de que só de olhar distinguem qualquer modelo de telemóvel ou de leitor de mp3 a uma boa dezena de metros. Nem os pais, nem os avós conseguiam fazer isso com a idade deles. Antes de mais, porque esses são gadgets que nem existiam então.

O que isto significa é que houve um deslocamento radical das áreas de interesse dos jovens para aspectos que, de algum modo, podemos considerar acessórios em relação às necessidades do quotidiano. Para além disso, é visível que, embora não sabendo distinguir uma urtiga de uma beldroega, eles sabem como se dirigir a uma grande superfície e comprar comida pré-congelada. E isso dá para sobreviverem e descartarem, nesse caso considerando-os eles “acessórios”, aqueles conhecimentos que nós achamos serem fundamentais. Em boa verdade, de que me serviu saber as capitais de todos os países da Europa com 7 ou 8 anos? Agora não consigo pronunciar o nome boa parte dos nomes das capitais das ex-repúblicas asiáticas da URSS!

Ou seja, os jovens de hoje acedem e dominam, do ponto de vista da utilização, uma massa de informação incomensuravelmente maior do que aquela que estava sequer ao meu dispor. O problema, penso eu, é que essa informação acaba por ficar à superfície e “solta” por manifesta inexistência de “âncoras” que a prendam a algo de sólido. Significa isso que mais informação não se tem traduzido necessariamente num melhor desempenho escolar, quer porque muitas matérias curriculares não são percepcionadas como úteis ou interessantes, quer porque a sua aprendizagem passou a ser encarada como algo quase arcaico, em virtude do contexto em que se desenvolve. Num mundo com um único canal de televisão e sem internet, a informação transmitida por um professor tinha um potencial de atracção bem maior do que actualmente, quando se pensa ser possível aceder a tudo o que acontece numa aula com umas quantas pesquisas no Google.

O problema é que esse excesso de informação não foi acompanhado pela aquisição das necessárias capacidades de arrumação crítica de tudo o que é apreendido mas não compreendido.

Os jovens dispõem actualmente de imensa informação, mas essa informação é normalmente empilhada, acumulada e usada de forma extensiva e não raras vezes mesmo impressionante, mas sem que seja feita uma triagem prévia que permita estabelecer relações de sentido ou uma hierarquização do seu valor.

E é, na minha opinião, aí que radica o maior problema de muitos alunos que, para além de encararem o docente como um transmissor de conhecimentos como qualquer outro ou até menos cativante e “rápido”, sem qualquer tipo de autoridade específica (e aí a responsabilidade foi claramente de uma ideologia igualitarista na Educação que se traduziu numa retórica pública que diminuiu a figura dos professores), assimilam enormes massas de dados sem capacidade de os inter-relacionar e integrar em esquemas conceptuais agregadores e potenciadores de uma sua utilização posterior em boas condições. Quem conhece todos os modelos de telemóvel mas não sabe estabelecer uma relação de preço/qualidade, está longe de ter um conhecimento verdadeiramente proveitoso. Quem sabe pesquisar dezenas de páginas da net sobre a Teoria da Relatividade, mas não sabe ordenar a informação recolhida numa síntese lógica, dificilmente está em condições de compreender verdadeiramente o que pesquisou.

E o que hoje encontramos é isso mesmo: a conjugação de um olhar razoavelmente desinteressado de muitos alunos em relação à Escola, à sala de aula convencional e ao professor como transmissor de um saber (ou estimulador de competências, tanto faz, pois esse ainda é um conceito mais alienígena), uma autoconfiança desmedida com base numa percepção distorcida da massa de informação acumulada e a incapacidade funcional para gerir essa informação de forma crítica, selectiva e relacional.

E é nessa encruzilhada que uma geração nada e criada nos tempos do high-tech acaba por ficar, para além da utilização para efeitos de lazer e convívio social dessa informação enciclopédica arrumada de forma sequencial, desarmada para enfrentar a curto-médio prazo uma sociedade dominada exactamente por uma hiper-especialização decorrente do progresso tecnológico. Porque a alternativa é passar a ser uma mera peça indistinta de uma mão-de-obra com baixas qualificações, indiferenciada e mal paga.

school.jpgPelo menos para os 2º e 3º ciclos do Ensino Básico cuja separação há muito considero ser desnecessária e artificial.

Nada de muito original.

Uma carga horária de 30-32 aulas semanais com 50 minutos cada à “moda antiga”: 8-10 horas para as expressões ou “educações” (EV/EVT, Ed. Musical e Ed. Física) e 20-24 para as disciplinas teóricas (Português, Línguas Estrangeiras, Matemática, História, Geografia, Ciências Naturais/Biologia/Físico-Química). Nos 5º/6º ano, 10 horas para as expressões e 20 para as “teóricas”; a partir do 8º a distribuição a passar para 8 e 24 (também posso dar a minha proposta de distribuição por disciplinas).

Horários a funcionarem num regime de turnos com 25 horas (5 horas x 5 dias) durante a manhã ou tarde com as disciplinas teóricas e Ed. Musical (ou uma outra opção da área das Artes nos 8º e 9º ano) e o resto em contra-horário concentrado em apenas dois dias. Nos outros dias, sempre em contra-horário, um sistema de salas abertas/de estudo/ateliers/clubes/workshops, o que quiserem, de frequência livre, mas com a necessidade de cumprir um certo número de horas por período, estando esses espaços ocupados permanentemente por docentes ou outro tipo de técnicos especializados, especificamente designados para essa função e não `contrariados, com horas dispersas para ocupar horas ad hoc.

Desaparecimento das excrescências inúteis na forma como estão actualmente pensadas (Estudo Acompanhado/Área de Projecto/Formação Cívica). Turmas com um máximo de 24 alunos. Horários desenhados de forma lógica e regular. Permanência das turmas em uma ou duas salas apenas para a generalidade das aulas.

Reforma dos conteúdos programáticos de forma a distenderem-se pelos 5 anos deste ciclo de estudos e não a repetirem-se e sobreporem-se de forma desarticulada, evitando tentar concentrar matérias que precisam de uma aprendizagem consolidada em 2 ou 3 anos apenas.

Manutenção de um núcleo duro de docentes (4 a 6)  do Conselho de Turma ao longo dos cinco anos, com especial interesse no caso do Director de Turma.

Avaliação com critérios claros e transparentes, com objectivos claramente definidos não só para o ciclo de estudos mas para as suas diversas fases intermédias e sem uma carga burocrática asfixiante.

Exigência de colaboração das famílias/encarregados de educação na definição dos objectivos para as turmas e responsabilização pelo acompanhamento efectivo da vida escolar dos alunos.

Elaboração de projectos específicos apenas para as turmas com características especiais (alunos com NEE, aí incluindo os casos de risco de abandono ou de comportamento irregular).

Escolas equipadas com o material técnico e humano (em especial nas áreas da Psicologia Educional, Assistência Social e Animação Cultural) indispensável e pessoal auxiliar sem ser a conta-gotas.

Uma tutela que fizesse do discurso da Autonomia uma prática efectiva, em especial no plano pedagógico e do funcionamento corrente dos estabelecimentos de ensino, e não uma aplicação condicionada e regulada na base da meia-dúzia de circulares e pedidos de informação semanal.

Se vos parece que isto é pouco diferente das Escolas que já temos ou têm muita sorte (eu tenho alguma) ou então andam a ver mal o que os rodeia. Porque lá que deveriam ser assim, pelo menos em parte significativa, isso deveriam ser. Mas infelizmente são muitas as que não o são.

A questão do Estatuto Profissional dos Docentes fica para depois, para não se complicar já aqui a discussão, nele incluindo não só a regulação da progressão como os aspectos deontológicos da função.