Sábado, 3 de Fevereiro, 2007


Antes de passar à parte II da análise de alguns aspectos relacionados com os níveis de insucesso e abandono escolar, ficam por aqui duas breves notas interligadas sobre as dificuldades da promoção do sucesso escolar entre os alunos.

A primeira passa pela minha crescente dificuldade, com o passar dos anos, para conseguir transmitir aos meus alunos a mensagem de ser indispensável tentarem obter os melhores resultados que lhes seja possível. Todos os anos, por várias vezes, tento explicar, em especial nas turmas de desempenho mais frágil ou aos alunos menos motivados para o estudo e a demonstração daquilo que (eventualmente) aprenderam, que nunca devem apontar para os 50-55%, ou o mítico nível 3- (uma das coisas que mais detesto na avaliação dos dias de hoje, resultado prático da necessidade de compatibilizar uma avaliação de “sucesso” com o remorso individual dos docentes, que necessita de um qualquer sinal exterior de que essa avaliação não é bem a sério), porque qualquer falha inesperada  implica a queda para uma avaliação insatisfatória, mas sim que devem sempre almejar os 90-100% e o nível 5 porque, mesmo falhando largamente o alvo, a margem é suficiente para se obter um bom resultado. O que venho verificando é que, cada vez mais, os alunos são impermeáveis a esse tipo de discurso e passaram a preocupar-se apenas em fazer os mínimos indispensáveis para obter uma classificação positiva e cada vez são menos os que se preocupam em ir além disso.

Por outro lado, é vulgar que em escolas que praticam a publicitação dos chamados quadros de mérito, os alunos (e mesmo alguns Encarregados de Educação) se oponham à divulgação dos seus nomes (e muito mais da sua imagem) devido às consequências negativas que isso tem para o seu quotidiano escolar e para o seu tipo de popularidade, pois tornam-se objecto de chacota dos que são mais fixes e populares, que fazem gala em demonstrar a sua despreocupação pelo rendimento escolar e um manifesto desdém por aqueles que antigamente eram conhecidos por “marrões“, “filhinhos da mamã” ou “bétinhos” e que agora recebem qualificativos ainda bem menos caridosos e bem mais vernáculos nos pátios escolares. É caricato mas é verdade, a excelência e o mérito acabam por tornar-se empecilhos e por estar longe de ser desejados pela generalidade dos alunos que prefere destacar-se por outro tipo de particularidades (o telemóvel mais recente, o aparelho de mp3 de maior capacidade, o corte de cabelo mais vistoso, para não entrar em outros campos ainda mais duvidosos).

Este não é um fenómeno novo e todos nós já o conhecemos no nosso próprio passado escolar?

É certo que sim, mas é igualmente de lamentar que essa mentalidade retrógrada e complacente com a mediocridade continue como se não tivessem passado 30 anos desde que com ela convivi pela primeira vez.

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A partir do A Educação Cor-de-Rosa descubro que a Associação dos Professores de Português dirigiu uma carta à Ministra da Educação (já agora, fica bem escrever por extenso o “Professora Doutora”, pelo que me ensinou um emérito professor coimbrão da velha e boa cepa) onde se enumeram as preocupações da dita Associação relativamente à implementação da TLEBS e aos efeitos da sua suspensão (ou não, já ninguém percebe).

Por aí nada de espantar. Já mais de pasmar – ou será que eu é que continuo algo ingénuo? – é a revelação dos imbrincados cruzamentos entre vários elementos dos órgãos sociais da Associação, os seus formadores “por encomenda” e, no caso da TLEBS, com membros do espaço GramáTICª da DGIDC. Quer-me a mim parecer que, apesar de me irem certamente fazer notar que tudo isto é natural atendendo à escassez de especialistas no assunto, este tipo de relações endogâmicas pode acabar em desnecessárias degenerescências. Porque é no mínimo paradoxal que uma Associação se entretenha a questionar o Ministério sobre o destino de uma iniciativa onde elementos dos seus órgãos directivos têm um interesse directo.

Pois é legítimo questionar o que está verdadeiramente em causa neste tipo de pedido de esclarecimento. Como há muito a Paula Lago tem vindo a afirmar em diversos comentários deixados em post do Umbigo, parece mesmo que tudo tem mais de negócio do que de outra coisa.

Lateralmente, não deixa de ser especialmente curioso que, depois de se anunciar que os exames do 9º ano de Língua Portuguesa só vão contemplar o que é comum à TLEBS que por aí anda e à velha Nomenclatura de 1967, agora surja anunciado que nos exames de português B do 12º ano afinal a TLEBS e algumas das suas especificidades sejam matéria destinada a avaliação (notícia do Público de ontem, por enquanto com link activo). 

O que parece é que neste momento a disputa em torno da TLEBS abandonou já o campo do debate em torno das questões linguísticas e/ou académicas, para se tornar um mero campo de luta pelo poder ou pela manutenção de posições dadas como adquiridas até há muito pouco tempo.

Perante isso, parece que a ideia é, em algumas áreas mais permeáveis à pressão, tentar instalar uma situação de facto consumado para tornar qualquer recuo o mais difícil possível.

Talvez seja uma estratégia eficaz, só me parece é que não será a mais transparente.

No Sol de hoje vem uma interessante peça sobre algo que muitos de nós conhecemos, mas que por vezes “parece mal” salientarmos, com o receio de sermos acusados de despeito, inveja ou qualquer outro pecadilho mais politicamente incorrecto.

Não é novidade, nem de perto nem de longe, que os concursos públicos para provimento de lugares nas Universidades e Politécnicos são normalmente delineados de forma a ajustarem-se a determinados “perfis”. De certo modo é a aplicação daquele princípio que o ME agora propala em relação aos docentes do ensino não-superior, de “direito à escolha” por parte dos estabelecimentos de ensino.

Por ter assistido a diversos casos mais do que tortuosos de ingresso na carreira académica com base em estratégias clientelares e de reforço de grupos de pressão no interior de alguns departamentos e instituições, raramente me aventurei por esses caminhos. Mandei um par de vezes o meu currículo no início dos anos 90 para instituições que publicitaram o interesse em criar uma “bolsa” de eventuais candidatos e por uma única vez me candidatei formalmente a um lugar aberto por concurso público numa Universidade.

Foi algures no início da segunda metade dos anos 90 e fi-lo porque o lugar em causa permitiria que eu e a minha cara-metade fossemos viver para perto da sua família, bem como no departamento para o qual existia a vaga já estava lá um antigo conhecido meu da Faculdade, de uma licenciatura anterior. Como se perceberá, vou passar em branco a identificação da Universidade, apenas salientando que fica bem longe dos principais centros urbanos, mas vou contar alguns detalhes que achei deliciosos da situação.

Resumindo, a certa altura do processo, eu e outros candidatos que igualmente conhecia, recebemos uma carta para a realização da entrevista da praxe que, pela distância da instituição e incómodo da deslocação, o responsável principal pela análise do processo marcou para Lisboa, explicitamente para o átrio da Fundação Gulbenkian na Av. de Berna.

Como adivinho já, acharão estranha a localização para tal efeito. Também achámos, mas lá aparecemos na manhã aprazada uma mão-cheia de candidatos, três de Lisboa, uma de Coimbra e outra pessoa já não me lembro bem de onde. Em vão, porque o entrevistador não apareceu nas horas seguintes. Contactada a instituição, foi-nos dado o contacto do alojamento onde ficara o putativo entrevistador. Ao fim do dia lá o apanhámos e inquirimos sobre o que se tinha passado. De forma atabalhoada tentou explicar que todos nos tínhamos enganado no local e que ele nos tinha esperado. De carta em frente dos olhos explicámos-lhe que não, não senhor.

E a contragosto lá foi marcada nova entrevista. A que já fomos apenas os três de Lisboa, se a memória não me falha. Mero pró-forma, pois todos percebemos que aquilo não serviria para nada. Uma das condições exigidas, apenas verbalmente, era que manifestássemos disponibilidade para, em termos de prosseguimento da investigação para o doutoramento (todos completáramos já o mestrado), fazermos um trabalho sobre a região onde se inseria a instituição. Acho que ninguém se recusou. Outra condição era que declarássemos que não nos viríamos embora para outra instituição académica mais “central” ao fim de poucos anos. No meu caso sublinhei que concorria exactamente para me fixar numa zona onde existia um enquadramento familiar.

E a entrevista foi pouco mais, para além de no  meu caso ter sido criticado por alguma dispersão de interesses. Já não estava bem disposto e não respondi de forma cordata, salientando que sempre preferia ter interesses variados do que especializar-me na ponta da asa da mosca e ficar sem perceber o que era um insecto.

Como deverão calcular, já estava tudo escrito nas estrelas e os candidatos lisboetas ficaram em 2º, 3º e 5º lugar do concurso e a coimbrã acho que ficou em 4º lugar. Em primeiro lugar ficou um candidato natural da cidade onde ficava a Universidade em causa, recém-licenciado e monitor no ano lectivo anterior. A sua média de curso (licenciatura) era inferior ou igual à de qualquer um de nós e para além disso não tinha mestrado.

Com carta que trazia a ordenação final dos candidatos vinham os critérios de seriação que ninguém conheceu no momento do concurso. O primeiro parâmetro era, e cito de memória para não ir buscar o papel que tenho algures, “ter publicado ou ter em projecto um estudo sobre a realidade local ou regional” da cidade/região XYZ.

Ao que parece alguns dos restantes candidatos melhor colocados decidiram impugnar o concurso, tendo-o conseguido com base nas irregularidades processuais. No meu caso – que tinha sido o feliz 2º classificado – limitei-me a escrever uma carta a demonstrar toda a incrível fantochada da situação, acrescentando que não impugnava nada pois nunca tive interesse em ser recebido à força num local onde não seja desejado. Só não gostava de passar por parvo e ficar calado.

Mas aprendi de vez como as coisas se passavam. E nunca mais dei para tal peditório, nem me obriguei a voltar a passar por procedimentos viciados à partida. Mas no fundo também acabei por achar que todos ficámos melhor assim.

Entretanto o meu simpático entrevistador já chegou a reitor da instituição em causa. Acho que nos cruzámos já em algum congresso ou colóquio, mas confesso que não o reconheci.

Entretanto, ainda hoje fico maravilhado como uma colega de curso de minha outra metade ter conseguido, poucos anos depois, ser contratada para a Biblioteca da Universidade de Harvard, com a responsabilidade pela selecção e compra de todas as obras nas línguas portuguesa e castelhana, nisso incluindo naturalmente toda a produção ibérica e da América Latina. Estava nos States há menos de um ano, após ter casado com um luso-descendente sem qualquer ligação à dita instituição. Concorreu, entrevistaram-na no local e data certos e um par de semanas depois estava a trabalhar.

Por acaso dela tive inveja, muita inveja mesmo. Já imaginaram o orçamento que ela tinha só para comprar os livros que achasse adequados ou necessários? Cá dava para alimentar um departamento universitário o ano todo, de salários a todo o tipo de material. A vantagem é que agora tenho pelo menos um par de livros meus na dita Biblioteca.