Sexta-feira, 2 de Fevereiro, 2007


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(c) Antero Valério, que se esqueceu do belo óculito e da barbicha meio desleixada num dos concorrentes, pois a rotunda barriguita e uma certa capilaridade pernal adequam-se aqui ao eu como uma luva. Não desfazendo em outros concorrentes, é mais do que claro.

Sempre que se discute a questão dos elevado nível de insucesso e abandono escolares há uma tendência para leituras lineares, muito ligadas a uma análise imediata das estatísticas, e razoavelmente emotivas e apaixonadas sobre o fenómeno. Existem leituras das mais variadas, desde as que procuram soluções unívocas e a chave-mestra que permitiria solucionar o problema até aos que preferem abordagens tão complexas e multifactoriais que acabam por se perder no caminho de saída do problema.

Por estranho que pareça, também eu não tenho a chave do sucesso generalizado garantido, aquele que ultrapassa as estatísticas e se transforma num sucesso efectivo, traduzido numa real literacia (e numeracia, já agora) funcional após a escolaridade básica, capaz de servir de alicerce para os níveis de estudos que se seguem.

Mas tenho algumas ideias sobre as causas do fenómeno e sobre alguns equívocos que lavram em “certas e determinadas” análises. Quem por aqui passa com alguma regularidade já sabe que acho que muitos dos factores que influenciam o insucesso e abandono escolar se encontram a montante e/ou ao redor da Escola, sendo inadequado ou mesmo injusto esperar que ela resolva todos os problemas de desigualdade e exclusão social que a transcendem. Uma escola é uma escola. Pode ser mais, mas enquanto estiver apenas equipada como uma escola dificilmente pode fazer mais. Se uma Escola tem 100 professores “regulares”, 2 pseudo-professores de ensino especial, 30 funcionários auxiliares, 1 psicólogo, nenhum terapeuta da fala, nenhum assistente social, etc, etc, é capaz de ser um pouco estranho que se esperem dela milagres mil.

Também é minha opinião de há muito, talvez aqui não devidamente expressa e talvez até um pouco a contracorrente do anterior post, que alguma da percepção que temos do insucesso e abandono escolares é causada por uma relação algo desproporcionada entre as expectativas da opinião pública e publicada e as capacidades de realização do sistema educativo que tende a atraiçoar tudo o que ele consegue por causa dos seus fracassos. A garrafa não está cheia, é certo, mas está bem mais cheia do que já esteve.

Não podemos abstrairmo-nos de dois aspectos essenciais para uma análise ponderada do fenómeno do insucesso escolar, mesmo no âmbito do sistema e não remetendo para factores externos: a nossa escola de massas tem efectivamente pouco mais de meio século (a captação para a escolaridade primária de mais de 90-95% da população em idade escolar é um fenómeno com pouco mais de 50 anos) e a massificação do ensino não-primário é coisa com apenas 30 anos; por outro lado, é difícil expandir a escolaridade em períodos de crise económica se o Estado não investir mais fortemente no sector durante os ciclos recessivos (a esse respeito é essencial, por exemplo, a obra Éducation et Croissance Économique en Longue Période de Sandrine Michel, Paris, L’Harmattan, 1999).

Portanto, andar a pedir a um sistema educativo ainda em fase de consolidação níveis de desempenho similares aos de sistemas consolidados há mais de um século é abusar um pouco da sorte e querer a Lua com dois saltos. Não sei se este é o vocabulário técnico mais adequado, mas afinal isto é apenas um blog.

O que nos falta muitas vezes é colocar em perspectiva histórica de média-longa duração a evolução dos nossos indicadores (e nesse aspecto Jaime Reis foi um percursor primeiro para o atraso económico e depois para o educativo). Agarrar em 10-15 anos, em especial sem matizar a análise dos indicadores educativos com os de natureza económica (parece que há quem se esqueça que estamos há quase 10 anos em recessão), e descabelar-se perante o aumento do abandono escolar no Ensino Secundário é manifestamente insuficiente. Lembremo-nos que, mesmo não sendo a massificação do ensino necessariamente uma causa de abaixamento da qualidade do ensino (ver a esse propósito a desempoeirada leitura deste fenómeno para o caso do Ensino Superior de Laurie Lomas), nas últimas décadas começaram a prolongar os estudos crianças e jovens de estratos socio-económicos que há 30 anos estavam completamente fora do sistema e cujas condições materiais de vida estão no no limiar (ou abaixo) da pobreza extrema, o que não significa necessariamente um mau desempenho escolar dos alunos, mas os torna muito mais vulneráveis a descaminhos como o abandono escolar para ingressar no mundo de trabalho de forma precoce. 

Talvez esqueçamos que vivemos num espaço e num tempo com características específicas, um trajecto muito específico, e uma história acumulada de proclamações voluntaristas e desmesuradamente optimistas na área da Educação permanentemente contrariadas por realizações medianas. Assim foi no século XIX quando o regime liberal instituiu apenas no papel a escolaridade obrigatória ou quando a República fez da Instrução Pública uma das suas bandeiras mais simbólicas; ou mesmo mais recentemente, quando a democratização do ensino se constituiu como uma faceta essencial do discurso sobre a democratização da sociedade. Em Portugal vivemos há mais de 150 anos numa representação mítica (Eduardo Lourenço) das nossas capacidades e numa construção política ou retórica da Educação (conceito explorado a partir de final dos anos 80 por Yasemin Soysal e David Strang).

Já era tempo para nos termos curado de tal hábito e da busca de fórmulas mágicas que se acredita ser possível corporizar pelo mero acto da enunciação, mas parece que sempre preferimos romancear a realidade e enroupá-las com belas palavras. E depois desculpamo-nos com o facto de sermos um país de poetas.

Será esta uma visão fatalista ou pessimista? Não penso assim, acho apenas que é uma visão realista que nos permite, pelo contrário, olhar com mais optimismo as realizações conseguidas e procurar encontrar o que funcionou bem e não concentrarmo-nos apenas no que correu mal para não reentrar permanentemente naquele ciclo infindável de procurar sempre mudar tudo e, nessa volúpia da mudança, deitar fora o que está mal, o que está menos mal e até o que está bem.

(continua amanhã… na parte II os protagonistas da “história”)

Mais logo, depois da janta, uma incursão semi-polémica acerca de o tema já parcialmente abordado no post anterior: o que explica a sensação crescente que temos de insucesso escolar e de ineficácia educativa?

  • Será algo real ou apenas um problema de (falta de) perspectiva?
  • Resulta da massificação do ensino?
  • Os principais “culpados” são os factores “estruturais” (currículos, modelo organizacional da escola, falta de meios) ou os protagonistas (alunos, famílias, professores, tutela)?

Com o estômago cheio sempre pensei melhor (mesmo se digito mais devagar), portanto é possível que venha a conseguir escrever algo com um mínimo de sentido, ou falta dele, dependendo das opiniões…