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A necessidade de transmitir conhecimento e competências, o desejo de os adquirir são constantes da natureza humana. Mestres e discípulos, ensino e aprendizagem deverão continuar a existir enquanto existirem sociedades. A vida tal como a conhecemos não poderia passar sem eles.
(…)
Em contrapartida, tem-se defendido que a única forma honesta, verificável, de ensino, de autoridade didáctica, é por meio do exemplo. O professor demonstra ao aluno o seu próprio domínio da matéria, a sua capacidade de realizar a experiência química (o laboratório tem «demonstradores»), de resolver a equação no quadro, de desenhar com exactidão o modelo de gesso ou de carne e osso no atelier. O ensinamento por meio do exemplo é acção, e pode ser silencioso. Talvez devesse sê-lo. A mão do professor guia a do aluno no teclado do piano. O ensinamento válido é ostensível. Vê-se. A «ostentação», que tanto intrigou Wittgenstein, está profundamente implantada na etimologia: o dicere do latim, que começou por significar «mostrar» e só posteriormente «mostrar dizendo»; os termos token e techen do inglês médio, com as suas conotações implícitas de «aquilo que mostra». (Será o professor, em última análise, um «actor»?) George Steiner, As Lições dos Mestres, 2005, pp. 145 e 13.

Para mim o acto de ensinar na sua plenitude é extremamente complexo e transcende a mera transmissão de um saber, devendo transportar consigo também uma carga que leve o aluno a ter, se não prazer, pelo menos o interesse por conhecer, saber, descobrir mais.

[Esclareço desde já que não estou a dizer que eu sou um exemplo do que irei aqui (d)escrevendo. Escrevo mais na perspectiva de quem foi aluno durante cerca de 20 anos, de um modo ou de outro.]

Se é verdade que a docência é essencialmente Trabalho/Técnica, e nisso incluo o binómio conhecimentos/pedagogia e não apenas uma dessas facetas, é impossível negar que existe num(a) excelente professor(a), daquele(a)s que recordamos com nostalgia ao longo das décadas, uma pitada variável de Arte (que eu também poderia designar por vocação ou talento natural) e um pequeno pózinho de Magia (e aí eu entraria decisivamente pelo complicado conceito de carisma).

Trabalho e Técnica, pois, em grandes quantidades com duas partes de Saber por cada uma de Pedagogia (desculpem os puristas da arte de ensinar, sem Saber a transmitir nem sequer a Educação faz sentido), um pouco de Arte para ser possível transmitir aos alunos o prazer da aprendizagem e o estímulo para novas explorações e um poucochinho, um quase nada pois é coisa rara, de Magia para cativar a atenção e impregnar o espírito do espectador-ouvinte.

O (excelente, bom ou meramente mediano) professor será um actor?

Certamente que o é. E como na representação, existe muito trabalho, alguma técnica e os tais elementos especiais que existem ou não existem, não sendo possível adquiri-los por encomenda ou pela experiência, o talento e o carisma.

Pelo menos assim é assim que eu recordo aqueles que posso considerar terem sido os meus mestres (ou mestras, pois o uso do masculino é instrumental e não discriminatório, que nestes tempos do politicamente correcto já é preciso explicitar tudo para nos entenderem sem equívocos).

Se foram pouco(a)s? Foram! Mas não consigo esquecê-lo(a)s.

Mas não há sistema de avaliação, por mais minucioso (antes pelo contrário) que seja, que permita detectá-los e catalogá-los. Nem acredito que existam formas iluminadas de distinguir esses dos “outros”.

Só experimentando-os.