Há algum tempo que queria começar a fazer algo como a recensão das origens do discurso educativo politicamente correcto e pretensamente sofisticado do ponto de vista conceptual e terminológico que acabou por vingar na área das Ciências da Educação nos anos 90 e influenciou decisivamente alguns aspectos da nossa política educativa, acabando por culminar em muitas publicações do Instituto de Inovação Educacional quando esteve sob a tutela de Ana Benavente e inundando diversas outras colecções de editoras comerciais, visto terem público garantido nos corpos discentes de muitos cursos que se multiplicaram na área.

Para meu especial desencanto, encontro boa parte das raízes desse discurso numa parcela importante do que foi produzido na área da História da Educação nos anos 70 e, muito em particular, a partir do momento em que o discurso académico e “científico” se preocupou abertamente em demonstrar todos os malefícios e todas as distorções da Educação durante o Estado Novo, acabando por recusar em bloco tudo o que então existia como condição necessária e indispensável para recusar o regime antes existente.

Os princípios até seriam dos mais nobres, mas algumas consequências não foram as melhores, como um dos vultos mais promissores da época admitiu recentemente em crónica na revista Pública de 10 de Setembro de 2006. Maria Filomena Mónica, autora do sempre muito citado e elogiado Educação e Sociedade no Portugal de Salazar, admite agora que as teorias então em voga sobre a necessidade de usar a escola como instrumento de igualdade social, uma das quais admite ter abraçado, estavam (e estão) erradas, em especial aquela que lutou pela necessária igualdade de resultados dos alunos ainda mais do que pela igualdade de oportunidades.

Esta admissão do erro é interessante e rara, mas quase que uma exigência perante o que MFM mudou em termos de discurso entre os anos 70 e 90, para não falar na actualidade, onde se tornou um dos vultos mais destacados na crítica à criatura cuja criação apoiou e cujo desenvolvimento ajudou a alimentar com as suas teorias.

Mas, recentrando a questão no discurso produzido em meados dos anos 70 de rejeição absoluta da herança da Escola anterior, o que exigia a criação de um novo modelo, as críticas centraram-se em aspectos e princípios da Escola salazarista como o excessivo peso da Autoridade (muito do discurso da obra de MFMónica passa por esse tema), o seu carácter de mecanismo de Selecção Social (daí a menção à obra de Bártolo Paiva Campos) e, por fim, o seu papel limitador ao Desenvolvimento (e aí encontramos os estudos iniciais de Stephen Stoer), em especial económico mas não só, do país.

Daí se partiu para a tentativa de construção de uma escola que seria, não apenas diferente, mas o completo reverso da anterior. Daí a progressiva erosão de todos os sinais de autoridade e hierarquia explícita na Escola entre os diversos agentes envolvidos, incluindo nas salas de aula; a eliminação de tudo o que pudesse transparecer de mecanismos selectivos entre os alunos, daí tendo saído todas as teorias e práticas que visaram condicionar a avaliação dos alunos com base no seu desempenho; por fim, a nunca bem resolvida relação entre sistema educativo e sistema económico, porque apesar de “capitalistas” e “marxistas” concordarem na sua necessária existência, os segundos não queriam que a escola estivesse ao serviço dos interesses de uma sociedade ainda regida pelos critérios dos primeiros. Portanto, era necessário primeiro transformar a sociedade e a estrutura produtiva ou, pelo menos, que a transformação da escola fosse paralela a essas, para que Escola e Economia pudessem estar em sintonia para o Desenvolvimento, mas esse desenvolvimento não deveria ser o capitalista com as suas desigualdades perante os meios de produção.

E assim foi: diversos estudos apareceram a comprovar os malefícios da Escola Antiga e a urgir pela construção de uma Escola Nova. Só que, curiosamente, a segunda metade dos anos 70 e parte dos anos 80 saldou-se por uma razoável confusão e mesmo caos no funcionamento das Escolas, mas nunca se formalizaram legislativamente de forma explícita os instrumentos que poriam claramente em funcionamento esse novo modelo de Escola. Foi aí que as reformas de Sottomaior Cardia entraram em cena. A democratização da Educação aconteceu, aliás como já vinha acontecendo, de facto, desde os anos 60 de forma progressiva, mas os mecanismos selectivos na avaliação com base no desempenho e o ataque frontal à autoridade do papel do professor conseguiram sobreviver ao período de maior agitação, acabando a Escola por entrar nos anos 80 de alguma forma normalizada, embora sempre sob a crítica daqueles que achavam que ela não tinha sido verdadeiramente refundada após o 25 de Abril.

E foi durante os anos 80 que, depois das origens historiográficas apontadas, o discurso muito politicamente correcto misturando ideias dos anos 50 e 60, que se pensariam já ultrapassadas com uma nova retórica mais pós-moderna e atractiva, retornaria progressivamente, desabrochando em pleno nos anos 90 naquilo que se conhece como eduquês, descendência abastardada de alguma Sociologia da Educação anglo-saxónica dos anos 50 e 60 e de uma História da Educação nacional dos anos 70, tudo misturado com uns pózinhos de pós-modernismo terminológico e velhas solidariedades políticas.

Mas isso será assunto para explorar em 2007.