Quinta-feira, 28 de Dezembro, 2006


Aí estão, via António Carvalhal, a quem agradeço, novas sobre os exames nacionais deste ano lectivo.

No caso do de Língua Portuguesa para o 9º ano destaca-se a extrema prudência em não erigir a TLEBS como norma.

Interessante. Mas claro que a criatura vem de trás, este Ministério não tem nada, mas mesmo nada que ver com o assunto.

Um tema que tem sido recorrente em algum discurso sobre a necessidade de mudança educacional e de transformação da gestão e organização das Escolas é o da Liderança. Afirma-se a necessidade de lideranças fortes, dinâmicas, com projectos e capacidade de os implementar, mobilizando para isso os necessários recursos e vontades.

Na prática, o que isto tem significado na retórica ministerial é que uma liderança forte é uma liderança que implementa as políticas ditadas a partir da 5 de Outubro de forma eficaz e acrítica, sem qualquer conceder qualquer grau de reflexão ou autonomia aos docentes. E nada se define sobre o que se entende por Liderança, sendo que este conceito está longe de ser consensual nas diversas abordagens que sobre ele existem na área educativa.

Mas, a questão colocada nos termos acima formulados tanto pode ser aceite de forma pacífica como dar origem a observações irónicas do tipo “pois, o Hitler tinha todas essas qualidade e…”.

Ora o que a mim me interessa na questão da liderança não é necessariamente aquilo que a define, mas aquilo que lhe dá corpo e substância, ou seja a natureza do projecto e o tipo de meios usados para o implementar.

Uma liderança forte só porque é forte não tem interesse. A uma liderança dinâmica só porque é dinâmica aplica-se o mesmo. Tal como a mudança apenas pela mudança, já vimos o que tem dado ao longo destes anos. Mais importante do que tudo isso é existir um rumo e esse rumo ser claro e justo nos objectivos, digno e transparente nas estratégias e leal no recrutamento e mobilização das vontades.

Mais do que uma liderança forte, interessa saber ao serviço do que está essa liderança, qual é o seu projecto em concreto e como pretende levá-lo à prática. E isso, se está provavelmente no espírito de alguma literatura na área da Educação, não me parece encontrar-se nas aspirações da actual tutela, que apenas pretende lideranças locais fortes, mas ligadas através de uma fidelidade feudo-vassálica ao topo da pirâmide. Um pouco como na tropa, claro, para lançar mão de uma imagem tão usada durante o ano de 2006.

Nunca gostei de virar a cara a uma boa discussão, em especial se tiver ideias e argumentos lá dentro. Mas também nunca gostei de virar a cara a quem me tenta esbofetear repetidamente, sem se perceber porquê e com que razão.

Por isso dificilmente deixo sem resposta quem de mim discorda, procurando responder sempre num tom próximo ao que me interpelam. Se é para dialogar, tudo bem. Se é para a pedrada, também tudo bem.

Ora neste ano e picos de Umbigo e nestes seis meses de maior produtividade aprendi algumas coisas interessantes sobre o perfil de alguns dos seres que habitam a blogosfera apenas para ofenderem os docentes, seja todos em geral, seja alguns em particular, mesmo não os conhecendo.

Aqui por estas bandas poisaram apenas uns três ou quatro que me lembre. Um já quase faz parte da prata da casa, mas por estes dias deste estar em interrupção laboral, pelo que não aparece. Andará por um qualquer monte alentejano, a escorregar na neve ou a tostar nos trópicos. Outro desapareceu há uns tempos quando me decidi a inquiri-lo directamente por mail sobre aquilo que aqui pretendia e se porventura nos conhecíamos de algum lado para eu ter de suportar as suas parvoíces. Mais recentemente apareceu um terceiro que, como padrão de comportamento similar aos anteriores, gosta de usar nick – o que é mais do que legítimo – mas depois decide duvidar do nome próprio que os outros assumem, que não discute os temas e apenas procura ofender e que no seu espacinho bafiento exibe um perfil com tanto de pedantismo como de manifesta ignorância das regras mais básicas da literacia para quem se afirma ex-professor (???), para além de manter comentários sob restrições. Aliás é sintomático que quem abusa da liberdade existente na casa dos outros, depois coloca trancas nas suas portas e janelas. E, para camuflar, todos se afirmam ex-professores ou amigos de professores, sendo que eles ou os amigos é que eram bons e sairam da profissão porque os outros eram maus. Na maior parte das vezes ou é mentira pura e simples ou deixaram a profissão porque eram daqueles que só tinham das dez ao meio-dia para estar na Escola porque tinham outros negócios cá fora. E todos enfunam o peito com o facto de serem pais. Pois… esse é o tipo de argumento com que só apetece gozar, pois qualquer um, a não ser que seja estéril, pode sê-lo, pelo menos biologicamente. Já o resto, aquilo que interessa mesmo na paternidade, é mais difícil de lá chegar…

Como não sou, nem de perto nem de longe, criatura dada a oferecer a outra face, dei-me ao trabalho de visitar o tugúrio intelectual do tretas em causa e confirmei muito do que suspeitava ser um padrão de comportamento em algumas pobres almas perturbadas que não ultrapassaram qualquer trauma infanto-juvenil em relação aos professores que tiveram ou que desenvolveram uma qualquer neurose focada na classe docente por raões que uma razão sã desconhece.

Porque uma coisa é aparecer, contestar ideias, exibir argumentos contrários e tentar chegar a algum lado com o que se afirma. Outra coisa é aparecer em pose de bullying a tentar intimidar os outros com bacoradas alarves destinadas apenas a querer enxovalhar o próximo. Disso nem sequer estou farto, porque a menoridade cívica e ética de tais sombras não chegam para nada, apenas para mostrarem a sua pequenez e mesquinhez através de atitudes e actos.

Aqui todos são bem recebidos e tratados, desde que façam o favor de ter o mesmo tipo de comportamento. Caso contrário ficarão a latir sozinhos enquanto a caravana passa.

Ninguém nasce excelente. Toda a forma de excelência supõe a mestria de saberes, de saber fazer, de técnicas específicas. Fruto de uma aprendizagem de base, esta mestria é em geral conseguida e desenvolvida com o preço de um trabalho constante de treino ou aperfeiçoamento. Uma parte das aprendizagens de base que conduzem à excelência começa numa escola, por vezes desde a escolaridade obrigatória. Mas nenhuma escolaridade garante a escolência!

Uma formação escolar dá pelo menos as qualificações requeridas para se envolver decentemente na prática. A maioria dos grandes artistas, dos grandes profissionais, dos grandes campeões não se aproximam da excelência antes de se tornarem os seus próprios mestres. Se a excelência não é irremediavelmente solitária, ella situa-se em geral para além do que se pode ensinar. 

(Philippe Perrenoud, “Anatomie de l’Excellence Scolaire” in Autrement, 1987, p. 95, disponível também aqui, tradução minha sem grandes requintes)