Quarta-feira, 27 de Dezembro, 2006


É verdade que o tempo, mesmo curto, nos vai amolecendo um pouquinho, mesmo se o não queremos admitir.

A primeira vez que fiz este teste (há coisa de um par de anos) fiquei quase no canto inferior esquerdo da quadrícula. Hoje não respondi tantos strongly agree/disagree e subi uns quadradinhos e o meu nível de libertário social desceu de quase 7 pontos para perto de 5.

Não deixa de ser curioso que, de acordo com as personalidades apresentadas como referência, fico quase entre o Dalai Lama, pessoa estimável mas cuja postura pacífica pensaria ter pouco a ver comigo, e o Nelson Mandela, um dos raros políticos que admiro pela persistência, resistência e sensatez.

Por este andar aos 70 anos estou transformado num centrista cinzento como o Romano Prodi. O que seria triste.

Experimentem também, porque há resultados curiosos. E não façam batota, respondendo o que acham ficar bem. E no caso da Educação respondam em abstracto, não a pensar em alguém ou algo que vos é mais ou menos próximo. Já vi muito conservador empedernido no discurso acabar do lado esquerdo e muito esquerdista de cravo no peito acabar do lado direito, o que em qualquer dos casos não é assim tão estranho.

Num artigo já com alguns, mas não muitos, anos, José Alberto Correia condensava assim a evolução das ideologias educativas em Portugal no último quartel do século XX: o pós 25 de Abril (1974-76) corresponderia a uma ideologia de base política democratizante; o resto dos anos 70 a uma ideologia de base jurídica democrática, os anos 80 a uma ideologia de base económica modernizante e a maioria dos anos 90 a uma ideologia de natureza organizacional de inclusão.

Confesso que neste início de século e milénio, não sei já onde nos encontramos: se estamos muito, muito á frente disto tudo, se nos perdemos algures numa amálgama de teorias.

Fonte: José Alberto Correia (1999), “As ideologias educativas em Portugal nos últimos 25 anos” in Revista Portuguesa de Educação, nº 12, p. 105.

Contra o sector público da Educação e contra a classe docente têm sido usados os argumentos e truques mais demagógicos e populistas que é possível imaginar, ou quase. Desde campanhas mediáticas em órgãos da comunicação permeáveis até à manipulação ou truncagem de estatísticas de tudo nos serviram um pouco. Tivemos uma Ministra a alienar com aparente agrado toda a classe em troca do virtual apoio da opinião pública ou mesmo a recomendar aos docentes sque soubessem ler, secretários de Estado a chantagear sindicalistas na praça pública, debates televisivos telecomandados, dossiers sobre a Educação publicados com dados errados ou seleccionados a gosto e inclusivamente distorção de escalas em gráficos, tivemos despachos, circulares e orientações de legitimidade mais do que duvidosa para tornar situações de facto, o que só poderia ser alterado com a entrada em vigor do novo Estatuto.

No entanto, se alguém riposta contra essas estratégias, denuncia as suas perversões ou critica a competência técnica de certas decisões e decisores, existe logo uma barragem que clama contra a “caricatura” das críticas, contra o corporativismo das reacções ou mesmo contra o que se considera ser uma fulanização da política. É o triunfo da defesa politicamente correcta das caneladas políticas do Governo.

Mas eu para o politicamente correcto nunca dei muito e muito menos gosto que me enfiem barretinas que não são à minha medida. E por isso não me incomoda nada devolver o mesmo tipo de ataque feito aos docentes como, por exemplo, o que é apontado como a falha da classe em combater o insucesso e o abandono escolar. Combate onde considero que a escola e os docentes têm um papel importante, mas não único ou sequer o suficiente para inverter a situação.

Por isso, vejamos o perfeito atestado de menoridade e incompetência explicitamente passado pela União Europeia à governação portuguesa nos últimos 10-12 anos. Em relatório sobre o desempenho a economia portuguesa, o nosso país é apresentado como o mau exemplo a não seguir pelos recém-chegados à União Europeia. Embora o texto se centre mais na última década, os dados usados remontam a 1992-93 para demonstrar o completo falhanço de Portugal em aproveitar a boleia dos subsídios europeus para se modernizar e o tempo das “vacas gordas” para fazer as reformas orçamentais necessárias a tempo, assim como para aumentar os seus níveis de produztividade e diminuir o desequilíbrio da balança comercial.

Neste pacote são arrasados de uma penada e em poucas páginas políticos e economistas da nosa praça, muitos dos quais agora parecem ter visto a luz depois de contínua cegueira. Olhemos para os nomes dos governantes que temos, assim como dos opinadores oraculares, e encontrá-los-emos a quase todos com cargos de responsabilidade elevada no período que agora se aponta como de descalabro e falhanço.

Mas há sempre aquele argumento interessante de terem aprendido com a experiência e de agora estarem verdadeiramente empenhados em remendar as asneiras feitas. Isso não me convence, pois a quase nenhum destes simpáticos senhores e senhoras ouvi ou li palavras de admissão dos seus disparates passados (será a minha veia negativa de não gostar de dar a outra face sem retribuição? pois sim, que seja!) e nada me faz crer que eles tenham aprendido algo certo no entretanto, sendo que no entretanto os ouvi dizer que antes tinham feito tudo bem.

Não sejamos hipócritas: Portugal não é um país de incompetentes a todos os níveis. Temos é um enorme défice de qualidade nas elites que se substituem no Poder e que transmigram alegremente entre os círculos do poder político e do poder económico (vejam-se os Dias Loureiros, os Pinas Mouras do cinzento centrão), défice esse que se torna ético e moral no plano das instituições mais elevadas do Estado, quando se conhece que o próprio Procurador-Geral da República que saiu era a fonte das notícias lançadas para a imprensa através de uma assessora pessoal que foi por ele sacrificada para se defender.

Não imputemos  à Educação de hoje a crise do país. Estes senhores não foram educados por mim, nem pela generalidade dos meus colegas. Se fossem talvez tivessem colocado o interesse do país acima dos interesses particulares  (partidários, de grupo e individuais) e não aparecessema gora a pedir sacrifícios a quem não foi responsável pelo afundamento geral em que nos encontramos.

Que eu saiba, não foi nenhum professor do Ensino Básico e Secundário que definiu a política orçamental do final do cavaquismo ao final do guterrismo, que enterrou dinheiro em IP’s mal desenhados e não na qualificação real da população, que preferiu exibir frotas automóveis de alta cilindrada em vez de investir na reconversão de uma estrutura produtiva globalmente arcaica e incapaz de enfrentar a globalização de que tanto se fala. Se o fosse talvez tivesse sabido fazer contas, talvez tivesse sabido avaliar a situação, talvez tivesse tomado em seu tempo decisões difíceis, não as adiando até se tornarem muito difíceis (principalmente para os outros).

Não me digam que este discurso é demagógico; mas mesmo que o seja, que se dane. Está à vista de todos quem tem deixado o país à deriva.

Foram os professores?
De acordo com a União Europeia parece que não!