Sexta-feira, 22 de Dezembro, 2006


Estamos em quadra natalícia, de alegado repouso (pois, pois, amanhã ainda vai ser correria…) e convivência familiar.

Por isso, o Umbigo não fecha portas, pois também isto é um ponto de agradável convívio pelo menos para mim, mas vai entrar em serviços mínimos.

De qualquer modo ficam aqui desde já os primeiros votos de um óptimo Natal a todos aqueles que partirem para longe da blogosfera (e para os outros também).

PJ teve a gentileza de me enviar esta pérola veiculada, ao que parece, no Público de hoje, de acordo com a referência que me foi dada:

Sem uma cultura que valorize o trabalho, a seriedade, o rigor, o esforço, o sacrifício, Portugal cada dia que passa se vai afundando mais. E para ajudar à missa, o ensino − que podia ser um factor determinante de aculturação − é uma vergonha e nada faz pela criação dessa nova cultura essencial à nossa sobrevivência num mundo cada vez mais competitivo. Pelo contrário, os professores são agentes activos para reforçar o arcaísmo e para destruir o que se possa ir formando de massa crítica de modernidade na sociedade portuguesa.”(José Miguel Júdice, Público, 22/12/06, p. 6)

 

Isto é aquilo que eu chamo uma bojarda, uma atoarda ao nível de um qualquer henriquino de vão de escada.

Não é que não aprecie JMJ em muito do que diz e afirma. Até sobre hotelaria, de que se tornou um emérito empresário, mostrando toda a sua multiplicidade de dons.

Só que este tipo de discurso, sem qualquer sustentação demonstrativa e com base na generalização, é de uma enorme boçalidade.

Não percebo se ele estará a pensar em algum colégio privado onde a capacidade de intervenção dos alunos é nula na condução de uma aula ou onde a criatividade só é bem-vinda se devidamente enquadrada.

 

Pelo vistos, o arcaísmo de Portugal e todos os males da Nação são culpa dos professores.

Claro que nada se deve à Justiça, sector de grande nível em Portugal, berço de todas as virtudes, área de actividade impoluta que nos últimos anos nada tem contribuído para enlamear todo o país em casos duvidosos sobre casos duvidosos, com a activa participação da classe profissional de que JMJ foi bastonário. Aliás, a classe dos advogados tem-se sempre destacado exactamente pela seriedade e rigor como se tem comportado nos últimos anos.

E exactamente durante o seu mandato.

 

E que tal se JMJ se visse primeiro ao espelho, assim como à sua classe profissional e à sua própria obra pessoal, antes de atirar pedras aos outros e de fazer generalizações abusivas deste tipo?

 

Neste caso, a prudência ficar-lhe-ia mesmo bem. Para não falar em decoro.

Paideia, um blog recente de Idalina Jorge e a sua reflexão sobre as provas de aferição.

… na sequência do conhecimento das decisões judiciais sobre a legitimidade do pagamento, como horas extraordinárias, das aulas de substituição, lá me entusiasmei eu com aquela ideia peregrina que se estivéssemos num país daqueles muito frios e apresentados como modelo, já esta equipa ministerial teria sido posta a andar. Aliás, juntando com a outra decisão judicial sobre a necessidade de repetir exames ad hoc por causa do despacho do Secretário de Estado Valter Lemos e não esquecendo as declarações da própria Ministra sobre anteriores decisões judiciais de um Tribunal dos Açores, isto seria mais do que motivo para cobrir de alcatrão e penas o trio e enviá-lo de volta para os seus lugares de origem.

Ou melhor, num desses países, os governantes que vissem tão claramente desautorizados pelos tribunais os seus repetidos desmandos e abusos jurídicos, teriam ido pelo seu próprio pé depenar uns quantos galináceos e de saco de penas debaixo do braço iriam voluntariamente para dentro do barril de alcatrão, qual história do Lucky Luke, não faltando mesmo o quarto elemento dos irmão Dalton se à minsitra e secretários de Estado, acrescentássemos o Primeiro-Ministro.

Só que por cá nada é assim, claro. Como escrevia o PJ e muito bem eu é que fossilizei a minha visão do mundo, da ética poílitca e da chamada vergonha na cara, conceito que não sei se tem cobertura académica mas que ainda há alguns tempos tinha validade.

Mas pensando bem, como vai no título, até acho que será melhor que o trio permaneça e continue, de tropeção em tropeção, a demonstrar a sua visão muito particular do quadro legal em que se movimenta e o desrespeito em que tem a ordem constitucional e legal do país quando atrapalha as suas más decisões e acções.

Se o ministério de Maria do Carmo Seabra foi particularmente patético, concentrando em poucos meses dislates ridículos, este ministério de Maria de Lurdes Rodrigues é melhor que tenha os quatro anos e tal de mandato para mostrar tudo o que vale e não vale, porque eu já começo a entrar naquela teoria do quanto pior, melhor. Se agora saísse pelo seu pé, ainda era capaz de ser saudada como exemplo para as gerações vindouras como grande exemplo de governante. Assim terá mais tempo para demonstrar a realidade inversa, a de alguém que ocupa nominalmente um cargo para desempenhar o papel de testa de ferro de uma política que foi pré-definida algures por alguém e que, quando acontecem percalços, revela imediatamente a escassez de recursos e a inabilidade de métodos usados.

Há muito que acho que para além do palco da opinião pública deve ser nas diferentes instâncias jurídicas que se deve desenvolver prioritariamente a luta dos docentes contra o novo ECD ministerial. Felizmente, alguns passos começam a ser dados nesse sentido, mas ainda há muito mais por onde continuar.

E, se bem conduzido e fundamentado, um processo de luta de base jurídica servirá dois fins: demonstrar a ilegalidade de muitas decisões arbitrárias do ME e de alguns dos seus seguidores (e em muitas escolas os atropelos á legalidade também começam a imperar) e revelar até que ponto a impreparação e falta de rigor de muitas decisões desta equipa ministerial resultam de escasso conhecimento ou de mera falta respeito pelas leis que ainda deverial reger este país.