Quinta-feira, 21 de Dezembro, 2006


Na Visão de hoje surge o banqueiro João Rendeiro numa entrevista como face mais visível de um conjunto de 110 empresários que pretendem mobilizar 100 milhões de euros para investir na Educação e em especial no combate ao insucesso escolar, com o aval do dito Ministério (pudera….).

A entrevista é moderadamente interessante, em especial porque procura manter-se num cuidadoso mainstream destinado a não ferir susceptibilidades, fugindo a assumir uma posição clara sobre temas quentes (a começar pela questão do número de professores) ou então dando agora uma no cravo e de pois outra na ferradura.

De qualquer modo, e à partida, esta será uma boa notícia e uma prova possível do que eu há uns dias atrás referia como sendo uma das grandes ausências no nosso sistema educativo, que é a escassa ou nula presença como mecenas, patronos ou meros beneméritos, de grandes empresários “de sucesso” do país.

Agora resta saber se filantropia será a palavra exacta a aplicar a este projecto que tem a consultoria científica de Roberto Carneiro e Marçal Grilo e que anuncia o avanço em três frentes: a da formação dos pais para compreenderem a importância do sucesso escolar dos seus educandos (eu alargaria os objectivos à formação de alguns pais para o mero respeito pela escola e pelos professores…); a do apoio às escolas, sendo que aqui se admite explicitamente que “a escola não é uma empresa” mas “um local de transmissão de conhecimentos e de formação de capital humano”, embora mais adiante pareça que têm algo a querer dizer sobre a gestão das escolas (a filantropia tem os seus limites, claro…); por fim, a do apoio aos alunos, em especial do 9º ano em programas extra-curriculares, onde surge a expressão “cápsula do empreendedorismo”, o que pode ser bom e pode ser menos bom, dependendo… Para além de que acho curto e tardio o apoio apenas ao nível do 9º ano. Importante a sério seria apoiar desde bem mais cedo, mas algum interesse haverá em querer intervir mesmo na antecâmara do mundo do trabalho.

Mas ver para crer e não descrer antes de se ter a oportunidade de apreciar a iniciativa. Claro que aparecer em destaque a expressão “a escola de hoje reproduz a desigualdade social” nas afirmações d eum banqueiro tem o seu quê de engraçado, assim como a presença de muitos promotores do Compromisso Portugal, incluindo um ou outro que de tão patriotas venderam imediatamente a sua participação nas empresas que tinham a empresas estrangeiras logo que puderam fazer lucro, pode fazer recear o pior em matéria de coerência entre retórica e prática.

Mas, repito, ver para crer, que eu não tenho nada de particularmente negativo a apontar a São Tomé, o primeiro verdadeiro céptico da nossa sociedade ocidental.

Tomara que assim fosse…

 Mas já se andou um bocadinho nesse sentido, lá isso é verdade.

Só falta o resto. E que grande é esse resto.

Afinal até parece que o Estado de Direito funciona, apesar dos entorses socráticos e outros rodriguinhos em matéria de respeito pelo enquadramento legal da actividade docente.

Tal como no caso dos exames repetidos, também agora os Tribunais colocam o Ministério da Educação sob fogo em matéria da legalidade das suas decisões, quantas vezes arbitrárias a atribiliárias (gosto desta palavra…).

Infelizmente, o combate político em torno do ECD foi semi-perdido; no entanto, há muito pasto jurídico para demonstrar como o Ministério da Educação actual é essencialmente desrespeitador da legalidade democrática do quadro legal em vigor em Portugal.

Em países normais ou quase normais isto seria motivo para imediata demissão. Por cá será razão para, findo o mandato, aparecer um qualquer retiro em prateleira dourada.

E isto, da ilegalidade manifesta das decisões às recompensas pelos serviços prestados, é um autêntica vergonha, vejamos o problema através de que lente for, excepto se for pela perspectiva do(a)s beneficiário(a)s.

Agradecendo a todos aqueles (e foram muitos) que me mandaram mails sobre o assunto.