Quarta-feira, 20 de Dezembro, 2006


Ao que parece, a máquina comunicacional do ME começa a mexer-se para fazer apagar a triste saga dos “portétéles”. Após umas semanas de brainstorming a solução aparente é a de atribuir as culpas a um hipotético “erro” da empresa de distribuição dos computadores que, alegadamente, terá confundido Setúbal com Santarém, o Barreiro com o Algarve e talvez a Brandoa e Massarelos com o traseiro de Judas.

Na zona onde lecciono, um jornal local (o Margem Sul) divulgou recentemente a notícia de que acima se transcreve o destaque de 1ª página, segundo a qual os computadores portáteis estão todos a caminho e de boa saúde, que nunca houve falta de nada e que tudo não passou de uma ilusão de óptica dos motoristas das transportadoras.

Confesso sempre a minha dificuldade em qualificar da melhor maneira estas completas faltas de rigor e evidentes desvios à verdade. Nos meus tempos de Escola isto era uma Mentira, Agora é qualquer outra coisa. Com sorte é uma “mentira política”, aquele tipo de falta à verdade que parece que não conta na mesma contabilidade das mentiras a sério.

Vamos lá por partes e esclareçamos então os seguintes pontos:

  1. Se o erro era da empresa de distribuição, porque será que só agora surge tal justificação, quando há já um bom par de meses que as reclamações existem?
  2. Se é verdade que os computadores foram mal distribuídos, então isso significa que houve escolas que receberam mais do que a sua conta. Ora há por aí alguém que conheça alguma escola que tenha recebido mais do que os 24 ou 25 computadores da praxe? Não??? Bem me parecia.
  3. Se corresponde à realidade dos factos esta esplicação anedótica, então porque terá sido que a muitas escolas foi dita outra coisa e foi explicado que havia escolas com o número certo de computadores onde seria necessário ir buscar aqueles que caberiam às que não tinham recebido nenhuns? Se a empresa de distribuição era a responsável pelo erro, porque não seria a tal distribuidora a emendar a asneira e se pedia a professores que levassem os seus carrinhos para ir buscar os computadores e que fossem em grupos para resolverem melhor a situação?

Vamos ser sérios e ter um pingo de dignidade em toda esta sacripância. Não vou chegar ao ponto de afirmar, como já corre célere de boca em boca, que foi a alta adesão à greve dos professores que permitiu folgar o Orçamento para pagar o resto dos portáteis. Isso já seria considerar demasiado rasteira e ignóbil a acção do Ministério em todo este imbróglio.

Para bem das partes e da minha crença na boa fé das pessoas, vou apenas acreditar que foi incompetência e que, como de costume, a responsabilidade ou culpa, morrerá solteira e virgem.

Imagem recebida graças a mail do João Santos e assinada por robgonsalves, de quem se podem encontrar aqui mais imagens.

O leitor e comentador PJ teve a simpatia de, em com comentário a um post anterior, sugerir que eu lhe fizesse uns retoques e o enviasse para o Público, na esperança frágil de o mesmo ser publicado. Respondi que talvez, mas agora confirmo que não o vou fazer porque – e sei que poderei estar errado – cada vez tenho menos apreço pelos filtros editoriais do meios de comunicação social “institucionais”.

A menos que seja sangue ou sexo, a maoria da imprensa não tem interesse em matérias controversas e mesmo a chamada imprensa “séria” ou institucional só está aberta a dar destaque à opinião de quem é Algo ou Filho de Algo. Isto não é necessariamente novo, apenas é. Basta vermos como os articulistas do regime (bem analisados numa obra recente de Rita Figueiras, Os Comentadores e os Media), bem pagos, têm sempre o seu espaço por maiores vacuidades ou ressonâncias que escrevam, enquanto os “anónimos” têm apenas direito ao seu par de parágrafos em meia página nas cartas ao director, pelo menos aqueles que são afortunados pela bem-aventurança de caírem no goto de alguém. Ainda ontem isso se verificava com a publicação de uma excelente carta de um professor em caixa baixa no canto do costume do dito Público, enquanto na página ao lado os afamados peroravam em caixa alta sobre o que é habitual perorarem, mais ou menos vírgula, sendo que a alguns artigos basta ler as primeiras linhas para se adivinhar o resto.

Ora eu para este peditório dos pobrezinhos de mão estendida nunca dei muito (da última vez lá acrescentei o facto de ser doutorando e lá me deram uma “janelinha” na Pontos nos II) e agora nem sequer quero dar nada, por manifesto enfado com este pastoso estado das coisas. Não me sinto especialmente feliz por ver a minha prosa e nome impressos em letra de forma e em papel de jornal. Por diversas razões, isso já me passou há muitos anos. Nas primeiras vezes é interessante, a partir daí é quase sempre parco alimento para a vaidade.

Mas para demonstrar de forma cabal este tipo de situação, do tratamento claramente discriminatório entre quem escreve com base no nome feito e não com o conteúdo, basta vermos o que se passou em duas situações recentes relacionadas com a Educação.

  • No primeiro caso, da discussão em torno do Estatuto da Carreira Docente, contam-se pelos dedos de uma mão os artigos que surgiram em destaque a debater o tema do lado da defesa das posições dos docentes: foram poucos, com José Gil à cabeça e poucos mais; artigos de professors foram repousando aqui e ali na habitual secção de perdidos e achados que constitui o espaço de “Cartas ao Director”; a partir do lado contrário da trincheira a máquina comunicacional ministerial colocou artigos em vários órgãos de informação, facultando dados seleccionados que apareceram em forma de notícia, embora muitas vezes não passasse da opinião institucional encapotada. Não escrevo aqui sequer no plano das entrevistas e depoimentos recolhidos ou das reportagens. Falo do espaço dado à opinião e ao respectivo destaque. Esse foi um confronto que os docentes perderam em larga escala, tanto pela quase total ausência de apoios declarados como da por+opria incapacidade de colocar opinião em destaque na comunicação social, salvo as naturais excepções.
  • Agora comparemos com o caso da TLEBS: após alguns avisos à navegação pela blogosfera e entre docentes, o rumor foi chegando a alguns notáveis que, quando mais próximos da área em causa (Maria Alzira Seixo, Vasco Graça Moura), deram voz a algumas dúvidas que existiam sobre o tema; o efeito foi multiplicador e em poucas semanas quase todo o articulistta que se preza já escreveu e opinou sobre o assunto, ajudando a um movimento de contestação que fez imediatamente o Ministério começar a sacudir as culpas do capote, enxotando-as principalmente para a ministra Maria do Carmo Seabra (olha logo para quem…) e para o secretário de Estado Diogo Feio que assinou, salvo erro, a portaria de 24 de Dezembro de 2004. E a partir de então quase que ficámos submersos em denúncias, mais ou menos fundamentadas, dos equívocos da TLEBS do cão do Miguel Sousa Tavares à economia de Cadilhe, não esquecendo os verdadeiros bons artigos sobre o assunto.

Ora muito bem, não tenho nada contra a reacção anti-TLEBS pois até comungo parte dela e cedo aqui escrevi sobre as minhas perplexidades. No entanto, acho que a importância da matéria é escassa relativamente à aprovação de um Estatuto profissional para toda a classe docente. Lamento, mas é isso que acho. A TLEBS é algo importante e que deve ser reavaliada e escrutinada pela opinião pública e publicada, mas o mesmo se deveria aplicar ao ECD. E neste caso, muita opinião publicada preferiu não se pronunciar, em alguns casos com base em algum desconhecimento do carácter técnico da discussão; ora a discussão em torno da TLEBS é bem mais específica e técnica. Do lado do Ministério da Educação em relação ao ECD saiu uma barragem de queixas quanto às “caricaturas” que foram feitas das suas propostas; quanto à TLEBS o esforço foi mínimo e deixaram no terreno, como peões para sacrifício num gambito cómodo, alguns dos proponentes da coisa e pouco mais.

Lamento muito, mas no confronto entre os debates públicos sobre o ECD e a TLEBS verificou-se com clareza que os docentes estão muito longe de ser o grupo de pressão com o poder que quiseram fazer acreditar.

Em torno de uma categoria gramatical erguem-se moinhos de ventos imensos, já quanto a uma categoria profissional deixa-se o Rocinante a pastar.É pena.