Para os mais distraídos poderá parecer que eu – ao expressar com frequência as minhas reservas e oposição a diversos aspectos do ECD ministerial – sou avesso à mudança e que tenho tendências demasiado conservadoras. Bem… até as tenho, mas talvez não nesse sentido. Em matéria de funcionamento do sistema educativo até quero que ele avance para algo novo, só que não sou pelo movimento pelo movimento. Se o caminho está errado mais vale ficarmos parados e esperar por achar o que nos pareça ser mais certo.

Mas isto vem a propósito de um último exorcismo desta série, o qual é relativo àquele tipo de comportamentos que prima pela defesa do que existe porque existe ou do “se sempre fiz assim, não há razão para fazer de outra maneira”. Como se vê identifico duas categorias fundamentais neste tipo de atitude:

  1. A primeira é a do conservadorismo puro e duro, a de quem acha que porque fez assim uma vez na vida, não há razão para fazer tal coisa de outra forma. E esta é uma maleita que não ataca só os menos jovens a que vou começando a pertencer, mas ataca em qualquer idade. Há uns anos tinha uma colega toda empertigada que se recusava a fazer algo de uma forma diferente, porque “sempre” tinha feito de outro modo; foi-se a ver e era o terceiro ano que dava aulas, mas já parecia ter as rotinas todas instaladas. Esta é a atitude conservadora na sua versão mais imobilista e que se baseia na aquisição de uma rotina de funcionamento – normalmente nos dois ou três primeiros anos de aulas – que passa a ser usada como fórmula. Em termos de grupo isto também acontece ao nível de disciplina, departamento ou estabelecimentos de ensino que, depois de enraízados certos hábitos, resistem imenso a modificá-los e assumem que o que era feito estava certo para todo o sempre e não precisava de nenhuma adaptação. É como se perdessem a segurança ao entrar por terreno novo e ficassem sem capacidade de orientação. Muitas vezes acabam por funcionar como (maus) exemplos da capacidade dos docentes se adaptarem a novos métodos e a novas formas de organização do seu trabalho.
  2. A segunda categoria não é muito distinta da anterior, mas apresenta-se com uma ligeira variação que a torna menos conservadora. É a daquelas pessoas que quando chegam a uma nova escola e precisam de aprender novas rotinas, argumentam sempre que “na minha escola fazia-se de outra maneira”, sendo que a escola é sempre a do(s) último(s) ano(s) lectivos e a tal “outra maneira” é tida sempre como melhor do a actual. O curioso é que, se no ano seguinte mudarem de escola, a coisa retorna só que a tal escola e a tal maneira passam a ser a da escola anterior, a qual demoraram quase um ano inteiro a assimilar. Pelo menos, é um método que apresenta alguma evolução, pois vai avançando com a mudança de escolas. Quando a pessoa passa a ficar dois ou mais anos numa colocação, este comportamento acaba por transformar-se no anterior.

Não acho que chegue a ser uma categoria dentro deste tipo de comportamento, mas não deixa de ser uma atitude com elementos comuns, aquela de alguns docentes que, por muitas críticas que dirijam ao estabelecimento de ensino em que se encontram e à sua forma de organização e direcção, nunca avançam um passo concreto – para além da verbalização do protesto nos corredores e sala dos professores – no sentido de combaterem activamente o que acham estar mal ou, em alternativa, que se afastem voluntariamente do local de trabalho onde, ao que parece, se sentem mal tratados ou obrigados a práticas das quais discordam. A inacção e o receio da mudança mascaram-se com um “mas eu já me sinto bem aqui, até gosto dos miúdos…” e tudo fica na mesma, repetindo-se a ladaínha ano após ano. A esses sempre disse que quem está mal muda-se ou faz por mudar o que está mal; quem se acomoda perde boa parte da legitimidade para protestar.

Como deverão calcular, ao longo destes anos, nem sempre mudei por querer (contratado e QZP nem sempre tem as alternativas que deseja), mas pelo menos sempre procurei não voltar aos locais que verdadeiramente desgostei (que no fundo foram apenas um par deles, sou um tipo com sorte às Escolas). Por agora vou estando bem. Quando não estiver, resmungarei apenas o essencial e ala que se faz tarde….