Terça-feira, 19 de Dezembro, 2006


É só esperar, porque tudo o que sobe acaba por descer. Coisas da gravidade.

Para os mais distraídos poderá parecer que eu – ao expressar com frequência as minhas reservas e oposição a diversos aspectos do ECD ministerial – sou avesso à mudança e que tenho tendências demasiado conservadoras. Bem… até as tenho, mas talvez não nesse sentido. Em matéria de funcionamento do sistema educativo até quero que ele avance para algo novo, só que não sou pelo movimento pelo movimento. Se o caminho está errado mais vale ficarmos parados e esperar por achar o que nos pareça ser mais certo.

Mas isto vem a propósito de um último exorcismo desta série, o qual é relativo àquele tipo de comportamentos que prima pela defesa do que existe porque existe ou do “se sempre fiz assim, não há razão para fazer de outra maneira”. Como se vê identifico duas categorias fundamentais neste tipo de atitude:

  1. A primeira é a do conservadorismo puro e duro, a de quem acha que porque fez assim uma vez na vida, não há razão para fazer tal coisa de outra forma. E esta é uma maleita que não ataca só os menos jovens a que vou começando a pertencer, mas ataca em qualquer idade. Há uns anos tinha uma colega toda empertigada que se recusava a fazer algo de uma forma diferente, porque “sempre” tinha feito de outro modo; foi-se a ver e era o terceiro ano que dava aulas, mas já parecia ter as rotinas todas instaladas. Esta é a atitude conservadora na sua versão mais imobilista e que se baseia na aquisição de uma rotina de funcionamento – normalmente nos dois ou três primeiros anos de aulas – que passa a ser usada como fórmula. Em termos de grupo isto também acontece ao nível de disciplina, departamento ou estabelecimentos de ensino que, depois de enraízados certos hábitos, resistem imenso a modificá-los e assumem que o que era feito estava certo para todo o sempre e não precisava de nenhuma adaptação. É como se perdessem a segurança ao entrar por terreno novo e ficassem sem capacidade de orientação. Muitas vezes acabam por funcionar como (maus) exemplos da capacidade dos docentes se adaptarem a novos métodos e a novas formas de organização do seu trabalho.
  2. A segunda categoria não é muito distinta da anterior, mas apresenta-se com uma ligeira variação que a torna menos conservadora. É a daquelas pessoas que quando chegam a uma nova escola e precisam de aprender novas rotinas, argumentam sempre que “na minha escola fazia-se de outra maneira”, sendo que a escola é sempre a do(s) último(s) ano(s) lectivos e a tal “outra maneira” é tida sempre como melhor do a actual. O curioso é que, se no ano seguinte mudarem de escola, a coisa retorna só que a tal escola e a tal maneira passam a ser a da escola anterior, a qual demoraram quase um ano inteiro a assimilar. Pelo menos, é um método que apresenta alguma evolução, pois vai avançando com a mudança de escolas. Quando a pessoa passa a ficar dois ou mais anos numa colocação, este comportamento acaba por transformar-se no anterior.

Não acho que chegue a ser uma categoria dentro deste tipo de comportamento, mas não deixa de ser uma atitude com elementos comuns, aquela de alguns docentes que, por muitas críticas que dirijam ao estabelecimento de ensino em que se encontram e à sua forma de organização e direcção, nunca avançam um passo concreto – para além da verbalização do protesto nos corredores e sala dos professores – no sentido de combaterem activamente o que acham estar mal ou, em alternativa, que se afastem voluntariamente do local de trabalho onde, ao que parece, se sentem mal tratados ou obrigados a práticas das quais discordam. A inacção e o receio da mudança mascaram-se com um “mas eu já me sinto bem aqui, até gosto dos miúdos…” e tudo fica na mesma, repetindo-se a ladaínha ano após ano. A esses sempre disse que quem está mal muda-se ou faz por mudar o que está mal; quem se acomoda perde boa parte da legitimidade para protestar.

Como deverão calcular, ao longo destes anos, nem sempre mudei por querer (contratado e QZP nem sempre tem as alternativas que deseja), mas pelo menos sempre procurei não voltar aos locais que verdadeiramente desgostei (que no fundo foram apenas um par deles, sou um tipo com sorte às Escolas). Por agora vou estando bem. Quando não estiver, resmungarei apenas o essencial e ala que se faz tarde….

Graças a uma indicação do António Ferrão, tive conhecimento desta síntese em formato como que de diapositivos das ideias de Greg Alleman que se adequam de forma perfeita ao que antes aqui se escreveu sobre a diferença entre fazer reuniões e trabalhar em equipa, pois uma coisa é um grupo, outra é uma equipa.

Nem de propósito, a citação que antecede o texto em causa também me é especialment agradável e é bem elucidativa  de algumas diferenças básicas entre duas posições que por vezes se degladiam em disputas mais ou mensos acres ou apenas animadas entre os que defendem a racionalidade do fazer bem e aqueles que pretendem antes a utilidade de fazer o que está certo.  Mais do que concepções concorrentes, encontramos aqui planos diversos de abordagem da gestão dos recursos humanos: de um lado a lógica da competitividade, do outro um princípio fundamentalmente de ética social, para não me estender para a moral.

Muitas vezes os primeiros não conseguem alcançar o sentido dos objectivos e acção dos segundos, embora se considerem a si próprios líderes. O problema é que confundem liderança com autoridade (por vezes, ainda pior, com autoritarismo e discricionariedade) e, mesmo se a segunda pode ser parte importante da primeira, está longe de ser suficiente.

Todos nós já nos defrontámos com a situação dos chamados “coitadinhos“. Há de vários tipos mas eu por agora não me vou concentrar apenas naquele grupo vago de alunos que, chegada a reunião de avaliação, leva com o chamado “3-“, instituição já mítica na auto e heteroavaliação que recuso terminantemente usar, porque “coitadinho, isto ou aquilo…. como é que ele há-de conseguir?”. Sob outra perspectiva é também muitas vezes uma outra espécie de “coitadinho” (até pode ser um híbrido, mas nem sempre) o motivo que serve de pretexto às más  teorias educo-sociológicas que procuram implementar à força a Igualdade de Resultados – e não propriamente a de Oportunidades – com base nas teses que assumem a escola como um dos espaços de reprodução social ou mesmo mde reprodução de mecanismos de dominação e subordinação económica, social política e cultural. De tudo, pois.

Eu discordo profundamente dessa prática que torna os “coitadinhos” a razão fácil e politicamente correcta de quase tudo o que  se faz com “boas intenções” mas que, com a generalização arrasta tudo para o fundo. Até posso concordar com alguns dos pressupostos, mas discordo claramente de muitas das suas facetas práticas.

Comecemos por definir o “coitadinho” neste contexto e de maneira meramente empírica: normalmente é alguém que provém de um meio social e económico menos favorecido ou claramente desfavorecido, que não dispõe em casa dos mesmos meios e hábitos culturais – Bourdieu falaria em “capital cultural” – de outras crianças e jovens e que, por isso mesmo, se assume que irá obter piores resultados escolares, sendo normalmente encarado – nos livros de sociologia da educação mais corrente e em algumas teorias pedagógicas mais preguiçosas e previsíveis – como alguém que está socialmente determinado ao insucesso ou a obter comparativamente piores resultados do que o não coitadinho.

Ora bem, eu até percebo que tudo isto tem a sua validade e que são necessárias políticas activas de promoção da Igualdade de Oportunidades na Escola, o que significa dotar as Bibliotecas e Centros de Recursos Educativos dos meios para que, quem os não tem em casa, possa a eles aceder no espaço escolar: internet, enciclopédias, dicionários, livros e outros materiais de estudo e pesquisa acessíveis sem excessivas limitações ou formalidades. Ao mesmo tempo, a escola – e não só – deve estar atenta às eventuais dificuldades materiais da vida das famílias e rastrear cedo os casos que necessitem de apoio por parte da Segurança Social.

Mas a partir desse momento, a partir de um patamar em que se procuram reduzir o mais possível (eliminar é claramente utópico e a insistência nisso é contraproducente) as desigualdades entre os alunos, no plano dos meios que estão disponíveis para fazer o seu trabalho, deve deixar-se que cada um faça as suas opções, é certo que com algum enquadramento e aconselhamento, e manifeste verdadeiramente todas as suas potencialidades.

Porque eu discordo profundamente do determinismo mais ou menos forte que pretende dividir as capacidades dos alunos conforme a sua origem social. Esse é para mim o pior preconceito: assumir que alguém vai ter quase necessariamente piores resultados porque…

Entrei na Primária com 6 anos e na larguíssima maioria dos últimos 35 estive directamente ligado à instituição escolar como aluno, como professor, como observador, como aspirante a estudioso e mais recentemente como encarregado de educação. Nunca, por nunca ser, encontrei uma relação directa entre as capacidades dos alunos e a sua origem social. Dei aulas numa escola privada, onde se refugiavam alunos das classes médias-altas de Lisboa e linha de Cascais quando não conseguiam acompanhar o ritmo da escola pública e encontrei alguns dos alunos com menores capacidades de trabalho de sempre. Já dei muitos anos aulas em zonas de certa heterogeneidade socio-económica e também não encontrei trincheiras cavadas no terreno nesta matéria. No entanto, encontrei bastantes alunos que, sem um complemento de meios para trabalho em ambiente escolar, teriam naturalmente dificuldade em cumprir todas as tarefas extra-aulas que lhe eram solicitadas.

Mais do que construir teorias gerais sobre o desempenho dos alunos conforme as suas origens, seria mais interessante descer ao terreno e procurar que a essas origens menos favorecidas não correspondam escolas pior equipadas, pior apoiadas e com corpos docentes desmotivados por essa falta de condições. E no caso individual dos alunos, atentar no aluno antes de mais e depois procurar matizar isso com o seu contexto social e familiar. E nunca, se posível, confundir disrupções emocionais com incapacidades intelectuais. Por momentos, quase pareço um dos eduqueses que critico. Mas há importantes diferenças que passo a explicar.

Os teorizadores do “coitadinho” já olham para ele pela lente dos seus preconceitos. Eu procuro primeiro olhar para ele e, depois de observar o seu desempenho e se notar alguma “anomalia” negativa, tento então colocar as lentes analíticas. Se a “anomalia” é positiva prefiro continuar a observar apenas e só o aluno, sendo-me indiferente todo o resto.

Quantos colegas (alunos) e alunos meus já tive de origens humildes, com famílias em colapso, vivendo em condições precárias, cujo espírito era luminoso? E não me parece que fossem excepções; em muitos casos, a escola é para eles o escape para a realidade exterior e o espaço onde se podem expressar de forma mais livre. Agora se lhe pusermos o rótulo de “coitadinho” logo à partida, só lhe estaremos a fazer mal.

O problema é que, como um emérito professor fazia nos meus últimos tempos da licenciatura, há quem goste de saber tudo e mais alguma coisa sobre o(a)s futuro(a)s aluno(a)s (origem social, profissão dos pais, preferências políticas, notas em outros anos) para ir acondicionando as suas expectativas e, de acordo com elas, definir a sua relação com ele(a)s. E depois há um quadro mental de referência, com uma grelhazinha muito organizadinha que é necessário preencher. E isso é que distorce tudo, porque aí, por muito que se esforcem os “coitadinhos”, a Igualdade de Oportunidades já falhou na cabeça de quem vai avaliar o seu desempenho.

Assisti a casos caricatos, em diferentes níveis de ensino, em que docentes se espantavam pelos bons (ou maus) resultados de certo(a)s aluno(a)s, achando que “não podia ser, não podia estar certo” o desempenho deste ou daquela, porque então não é ele ou ela que…

E esse, repito, é o Pior Preconceito de todos. Enquanto ele persistir, não há verdadeira Igualdade de Oportunidades que resista. Quanto muito há estudos sociológicos a demonstrar o óbvio e a recomendar que se force uma Igualdade de Resultados, a qual é uma solução tão má como tantas outras fórmulas apressadas que esquecem o essencial.